Covid-19: Trinta e um imigrantes ameaçados de despejo no centro de Lisboa

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Famílias de imigrantes numa manifestação recente contra desalojamento nos arredores de Lisboa. FOTO: Jornal É@GORA

Elisabeth Almeida

Trinta e um imigrantes, entre os quais brasileiros, cabo-verdianos e da Índia, deverão ser despejados esta segunda-feira de um prédio situado no centro de Lisboa, por falta de pagamento da renda, apesar de alguns destes inquilinos terem perdido emprego após a eclosão da Covid-19 em Portugal.

O prédio, localizado no bairro de Arroios, na capital portuguesa, é dividido em oito frações, sendo que seis destes são arrendados no nome de Maria Aparecida Sampaio, uma brasileira que subloca quartos na referida residência com várias beliches e cobra, por cama, entre 180 e 210 euros. No total são 40 pessoas que residem no edifício.

O valor a ser pago por cada um dos inquilinos depende do número de beliches em cada quarto: há uns que têm até quatro beliches, ou seja, oito pessoas a dividirem o mesmo espaço.

A questão é que, com a pandemia, muitos destes imigrantes sem contrato de trabalho foram mandados embora de seus empregos e, consequentemente, deixaram de receber ordenados.

Em declarações aos jornal É@GORA, Patrícia Gomes, uma das residentes do prédio que desde o início da pandemia está sem emprego, contou que a vida em Lisboa está a mudar drasticamente devido o novo coronavírus, pois, além do medo de infecção, muitos imigrantes, especialmente brasileiros e oriundos de países lusófonos africanos, agora vivem um novo dilema: pagar a renda ou comprar comida.

“Essa situação é muito complicada, pois no começo uns tinham dinheiro, outros pouco e outros não tinham nada, mas íamos pagar. Depois de todas as ameaças que sofremos, decidimos que iríamos usar o pouco dinheiro que tínhamos para comer ou comprar coisas essenciais para as nossas necessidades básicas”, explicou a brasileira.

No entanto, a sublocatária deu aos inquilinos até o dia 20 deste mês, segunda-feira, para quitarem a dívida ou ficarão sem teto.

Citada pela televisão Record em Portugal, a sublocatária, Maria Aparecida Sampaio, uma imigrante brasileira, disse que parte dos moradores se está a aproveitar da situação que se vive a nível mundial para não honrar com o acordado, pelo que tal atraso é a razão da ameaça de ordem de despejo.

“Eu resolvi entregar o apartamento porque, como eles não têm como me pagar, muitos estão a trabalhar, sendo que nem todos estão sem trabalho, alguns se aproveitam da pandemia para não pagar as rendas. E durante essa pandemia, quanto menos pessoas (houver num mesmo espaço), melhor. Tem quatro pessoas que são do grupo de risco. Eles não podem ficar aí. Eu não tenho condições de pagar uma renda de 1500 euros”, afirmou à Record TV Maria Aparecida Sampaio, que é responsável por alguns apartamentos, o primeiro andar e a subcave do prédio.

Segundo o canal brasileiro de televisão, num dos apartamentos subarrendados por Maria Aparecida Sampaio vivem 21 pessoas, que pagam em média 200 euros por cama. Sendo que cada quarto é partilhado por seis pessoas, a sub-arrendatária estará a ganhar 4200 euros a cada 30 dias, mas paga ao proprietário do imóvel 1500 mês euros, o valor oficial do contrato do imóvel.

Contactado pelo jornal É@GORA, Fábio Rocha, um dos inquilinos mais antigos do prédio, refutou a acusação da sublocatária, afirmando que “ninguém da casa (que arrenda com colegas) está a querer se aproveitar da situação do novo coronavírus e nem de ninguém”.

Mas o imigrante brasileiro lembrou que a nova situação que o mundo vive se “tornou uma crise mundial”.

“Antes da Covid-19, nós pagávamos normalmente. Todos da casa são trabalhadores, mas tivemos ordenados cortados e, com o pouco dinheiro que tínhamos, optamos por comprar comida. É muito triste tudo isso. Eu sempre fui consciente sobre a sublocação, mas não aceito e nunca vou aceitar esse tipo de tratamento ao menos favorecidos ou aos imigrantes. O que aconteceu aqui foi um abuso de poder, um ato de intimidação da pior categoria que tem”, lamentou Fábio Rocha em conversa telefónica com o jornal É@GORA.

A Covid-19 está a criar novas dinâmicas no setor imobiliário em portugal

A subarrendamento de casas em Lisboa é algo comum, pois são vários as pessoas que usam o esquema de sublocação para receber geralmente imigrantes que ainda não estão legalizados em Portugal ou aguardam a finalização do processo junto das autoridades migratórias e, por conta disso, muitas vezes aceitam submeter-se as tais condições.

“É uma situação muito complicada para todos que vivem na casa, pois ninguém se conhece, não sabe de onde vieram e quais os valores morais. É estar cercado de estranhos. Em resumo, eu diria que é dormir sem saber se vai acordar e sair de casa para trabalhar, sem saber se quando chegar em casa, todos os seus pertences ainda vão estar lá; não é uma questão de ver com maldade, mas até você conhecer os outros e pegar confiança, o sentimento de desconfiança existe e é latente”, relatou por seu turno, o brasileiro Marcos Vinicius, que viveu nestas condições ao chegar na capital portuguesa.

Raul Neto é administrador do maior grupo Brasileiros em Portugal, do Facebook e que já conta com mais de 320 mil membros, servindo como rede de apoio para quem mora no Brasil e pretende cruzar o Oceano e também para quem já fez este processo.

Em declarações ao jornal É@GORA diz que “é triste e revoltante ver pessoas que colocam dinheiro à frente de tudo e esquecem da dignidade humana”.

“Este momento de Covid-19 está sendo difícil para todo mundo e trata-se de um momento de união. Devemos lembrar que todos estão longe de casa, todos estão no mesmo barco e devem seguir na mesma direção”, disse Raul Neto, que garantiu ao jornal É@GORA conhecer “a maioria dos moradores do prédio em questão”.

“Sei que são trabalhadores, são esforçados, vieram para Portugal em busca de oportunidades e se eles estão sem emprego é por conta da pandemia” assegurou.

Falando à estação televisiva brasileira em Lisboa, o advogado José Almeida Soares, que representa os inquilinos, disse que, no decurso do estado de emergência em que Portugal vive, ninguém pode ser despejado ou sofrer retaliações como corte de energia ou água por falta de pagamento.

E citou o Artigo 8.º da Lei nº1-A/2020, aprovada no dia 19 de março, que prevê o seguinte: “até à cessação das medidas de prevenção, contenção, mitigação e tratamento da infeção epidemiológica por SARS-CoV-2 e da doença Covid-19, conforme determinada pela autoridade nacional de saúde pública, fica suspensa: a produção de efeitos das denúncias de contratos de arrendamento habitacional e não habitacional efetuadas pelo senhorio e a execução de hipoteca sobre imóvel que constitua habitação própria e permanente do executado”.

Em conversa com o jornal É@GORA Patrícia Gomes, que trabalhava como cuidadora de idosos antes do registo da Covid-19 em Portugal, qualificou a situação como sendo de subjugação do outro.

“Quanto a exploração que sofremos, penso que não deveria nem existir, já que ninguém sai do seu país para ser explorado. Saímos do Brasil com o intuito de ter uma vida melhor e mais segura. Ao contrário do que alguns pensam, a exploração de rendas não é irreal e acredito que as autoridades fazem vista grossa para esta situação”, referiu.

Segundo estatísticas do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), até finais de abril deve haver um aumento de 10% no número de desempregados em Portugal, onde até ao momento existem 353 mil pessoas sem trabalho. (EA)

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