A campanha da “Peace and Sport Council of Afghanistan” em prol dos refugiados afegãos em Portugal

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FOTO: Marcus Yam / MCT

Manuel Matola

A organização “Peace and Sport Council of Afghanistan” vai lançar, em breve, uma campanha de apoio aos refugiados afegãos em Portugal e ajuda humanitária para o Afeganistão em articulação com as autoridades e instituições portuguesas. O jornal É@GORA entrevistou o empresário português Vitório Rosário Cardoso, representante honorário desta organização não governamental para perceber os contornos da iniciativa humanitária em prol dos afegãos.

O que é que se pretende com esta instituição, nesta altura em que estamos a assistir à situação do Afeganistão?

Neste momento, a prioridade é acolher os afegãos que vão chegando a Portugal e ajudar na integração deles. Acompanhá-los nestes primeiros momentos de vida em Portugal e tentar encontrar soluções sustentáveis para eles. Em segundo lugar, é ter em vista já a ajuda humanitária para o Afeganistão porque aquilo está cada vez pior, e ainda vai piorar ainda mais. São duas situações emergentes.

O que está previsto quando se fala deste apoio humanitário?

É a nível de roupa, comida e medicamentos.

Isso significa que vai ser lançada uma campanha?

Sim, uma campanha em Portugal. É preciso estar em coordenação com as instituições e autoridades portuguesas que estejam a nível oficial a criar as condições para entrar num eventual corredor humanitário.

Tem alguma data já prevista?

Neste momento está tudo em convulsão. Ao nível do vale do Panjshir estão a decorrer combates. Há um governo legítimo que está encurralado nesse vale, com os governantes eleitos. Até haver formação há um vazio concreto a nível de Governo. As instâncias internacionais vão falando com uns e com outros. É preciso haver uma clarificação da situação política e interna para que as organizações internacionais possam coordenar os esforços. Isto tudo depende das negociações do Governo Talibã. Se é mais ou menos inclusivo. Se for mais ou menos existem condições da parte da comunidade internacional. Isto depende disto tudo. Neste momento os Talibã controlam as fronteiras e para podermos apoiar, temos de apoiar de forma real. Não podemos simplesmente entregar os bens aos Talibã.

Mas a ideia é serem vocês a fazer diretamente a entrega destes bens?

Temos de fazer em coordenação com as autoridades. Seja o Governo português, a Cruz Vermelha, um corredor nas Nações Unidas. Temos de ir integrados para que tudo chegue de forma segura.

Para já, o que é que têm feito, efetivamente?

FOTO: Marcus Yam / MCT
Neste momento estamos em contacto com a sociedade civil afegã que está a caminho de Portugal. Há uns que se vão reunir com as famílias. Estamos a acompanhar essa situação. Também estamos em contacto com as várias associações que já estão a acolher neste momento os refugiados. Temos equipas que já estão em países terceiros a entrarem em contacto com os afegãos para vir para Portugal. Os países vizinhos do Afeganistão e entre outros países de passagem já temos pessoas no terreno a entrar em contacto. E por sua vez, a fazer a ligação às embaixadas de Portugal nesses países para ajudar no processo de pedido de visto. Estamos na fase de ajudar as pessoas que querem sair.

Há aqui um rosto afegão que luta por trazer a família do Afeganistão: o imigrante Nasir Ahmadi. Há algum contacto que estará a ser estabelecido com ele e com a família?

Nós estamos em contacto com elementos da comunidade afegã em Portugal. São estes elementos que estão connosco a trabalhar nesse esforço comum. Porque a nossa prioridade é estarmos o mais próximos e ligados tanto à sociedade civil afegã a nível internacional, tanto como à comunidade afegã em Portugal. Que é reduzida, mas estamos em contacto com a comunidade.

A entrada de afegãos em Portugal tem estado a solicitar dois tipos de debates: o facto de haver uma narrativa de um grupo que receia daquilo que pode acontecer, depois do que assistimos em relação aos dois jovens araquianos que foram associados a ações de terrorismo e ao Daesh…

É por isso que digo que é muito importante trabalhar com as organizações da sociedade civil afegã. Mais do que qualquer pessoa, são estas organizações que conhecem bem o terreno e quem é quem. Esse conhecimento é muito valioso para, caso seja detetada alguma situação estranha, poder contactar imediatamente as autoridades portuguesas.

Esta situação não poderá por em causa aquilo que são as vossas intenções?

Não, pelo contrário. Só estando envolvidos e a apoiar a sociedade civil é que conseguimos garantir a segurança dessas operações e a segurança nacional.

Que avaliação é que o Vitório Cardoso faz do discurso que temos estado a ouvir, sobretudo, do Chega de que “é preciso ter cuidado com isto…”?

Vitório Rosário Cardoso, representante honorário da “Peace and Sport Council of Afghanistan” em Portugal
No caso da questão afegã estamos a trabalhar by the book, seguindo todas as regras e sendo escrupulosamente profissionais no contacto com as pessoas. Ou seja, temos de ter o apoio das instituições da sociedade civil afegãs e o conhecimento profundo da sociedade afegã para nos ajudar a trazer a bom porto quem tem de sair e quem está a ser perseguido e ajudar a acolhe-los. E pelo meio, tentar identificar se há alguma ameaça contra essas populações que estão em fuga.

Há dias o Ministro da Defesa anunciou que há um processo de triagem dos afegãos casados que entram em Portugal, sendo que eles devem escolher uma entre várias mulheres. Qual é a vossa opinião relativamente a isto?

Há procedimentos que são procedimentos-padrão a nível NATO e Portugal tem agido em conformidade com a padronização das organizações em que está envolvida, como a NATO e a UE. São questões que estão a ser organizadas e projetadas a nível comunitário.

Isto não pode entrar em choque com aquilo que é o interesse de salvar as mulheres que estão no Afeganistão?

Não podemos colocar o Afeganistão inteiro em Portugal. Dentro das nossas limitações, temos de tentar ajudar as pessoas a chegarem a Portugal enquanto porto seguro. Não é só Portugal que está nisto. Há vários países que estão neste processo. Isto é um esforço comunitário. Por outro lado, é preciso também a pressão internacional, diplomática sobre a situação interna do país.

Mas quem está em perigo no Afeganistão são mais as mulheres. Olhando para aquilo que é o exercício que está a ser feito, de aceitar que o homem traga uma mulher deixando outras três… Se fizermos um cálculo de 10 homens, estamos a falar de 30 mulheres que ficam para trás…

São decisões ao nível político e diplomático. Existe um racional por detrás das contas que se fazem, que terá a ver com a capacidade dos recursos dos estados-membros da União Europeia. Enquanto organização o que poderemos fazer é trabalhar em conjunto com a sociedade civil afegã e tentarmos fazer uma triagem do essencial mais prioritário de situações que possam estar entre o perigo de vida e a morte. Os talibãs não vão executar todas as mulheres porque se não deixa de haver talibã. Se me disser ‘existem artistas que podem estar em perigo de vida’, as situações de perigo de vida são as situações prioritárias. Melhor do que nós, que estamos cá fora, quem está lá dentro sabe quem está a ser perseguido. A nossa prioridade é quem está a ser perseguido e em perigo de vida iminente.

Há uma lista e um contacto permanente?

Está a ser trabalhado nesse sentido.

Quando é que teremos resultado em termos de pessoas que estarão cá?

Isso vai depender muito da participação e colaboração com as instituições do estado português, porque, ao fim e ao cabo, quem irá autorizar e passar os vistos é o Estado português. Temos de estar em contacto com todas as autoridades portuguesas para conseguir ajudar quem esteja em iminente risco de vida. Temos de saber fazer essa triagem nesta altura. (MM)

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