A carreira incomum da atriz e cozinheira Isabel Lopes Cardoso, um rosto de África na 7ª Arte portuguesa   

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Atriz São-tomense Isabel Lopes Cardoso no filme "Tabu"

Por Manuel Matola

 

A atriz são-tomense Isabel Lopes Cardoso tem uma das carreiras mais incomuns para o mundo da Sétima Arte portuguesa, o que torna a sua estória de vida fascinante se comparada a de milhares de colegas e, especialmente, dos imigrantes que ousaram deixar África para triunfar em Portugal.

Isabel Lopes Cardoso hesita quando questionada sobre o número exato de filmes portugueses de sucesso em que participou desde 2012, mas apresenta uma estimativa: “já fiz uns seis ou sete”, cujos nomes dificilmente memoriza.

“Acabei um agora que já nem lembro” do título, afirma a atriz, assumindo, de seguida, que todos esses filmes têm contribuído para projetar a sua imagem não só no seio familiar e da comunidade onde reside, como também pelo mundo afora, tornando-a, quase aos 70 anos, na atriz são-tomense mais velha no universo das artes visuais em Portugal.

Apesar de ser contratada regularmente para grandes obras cinematográficas portuguesas, a atriz são-tomense nunca abandonou o seu posto de cozinheira que ocupa há década e meia num Jardim Infantil, propriedade da Associação Unidos de Cabo Verde, sedeada no Concelho da Amadora.

Quando há alguns anos foi convidada a fazer parte da trilogia criada pelo cineasta português Miguel Gomes, a atriz nascida em São Tomé e Príncipe não tinha a plena noção do êxito e gozo que “As Mil e Uma Noites” trariam à sua vida futura.

São-tomense Isabel Lopes Cardos, que um dia teve o sonho de ser médica ou cursar engenharia, mas hoje é atriz e cozinheira.

A atriz percebeu que não só estava a “dar os primeiros passos” enquanto intérprete de personagens cujas estórias de vida são transportadas para as telas. Também passou a compreender que, nesta complexa indústria cinematográfica, África representa apenas um lugar diminuto, embora seja frequentemente referenciada pelas mais diversas razões históricas, pelo que os papéis dos africanos nos filmes são de pouco relevo, sobretudo, quando não se é profissional. 

 

“Por isso digo: não sou atriz, sou atrás”, ironiza, lembrando as personagens secundárias que muitas vezes abraçou nos vários filmes em que esteve, incluindo um que foi filmado no interior da sua casa.

“Gostava de fazer papel de patroa, porque sempre faço o papel de empregada. Sinto que nunca chegamos à patroa”, afirma a atriz que chegou com os três filhos a Portugal antes da Revolução de 25 de Abril para se juntar ao marido que a deixara em São Tomé e Príncipe, então colónia portuguesa.

O filme de Miguel Gomes, no qual Isabel Lopes Cardoso participou pela primeira vez, tinha como título “Tabu”, uma longa-metragem que retrata o início do fim da presença portuguesa nas ex-colónias em África, mas é uma história de grande amor e crime testemunhados na época da dominação de povos de um continente de aventuras.

Ironicamente, à semelhança do filme “As Mil e Uma Noites”, este foi dos trabalhos que a atriz mais gostou de fazer depois de passar por um momento difícil na vida.

“Os filmes ajudaram-me a realizar muitas coisas”, como por exemplo, “a sair do fundo do poço, depois da desgraça da morte dos meus filhos”, conta Isabel Lopes, que na película interpreta a personagem Santa, uma criada cabo-verdiana.

“Tabu” é até ao momento o filme português com maior projeção internacional, tendo tido estreias comerciais em várias partes do mundo e uma presença constante nas listas elaboradas por publicações internacionais sobre os melhores filmes do ano.

Isabel Lopes Cardoso ainda se lembra com um misto de sentimento o momento em que soube que iria partilhar pela primeira vez o mesmo espaço com atores famosos: por um lado, recorda-se com bom-humor o papel da Santa que interpretou no filme “Tabu”, e por outro, o medo que sentiu, e que de imediato desvaneceu, quando soube que iria contracenar, sobretudo, com atores já com alguma tarimba nos três volumes do filme “As Mil e Uma Noites”. O documentário de ficção do realizador português reflete os efeitos da maior crise socioeconómica e política, causada pelo programa de austeridade fiscal imposto pela “Troika” em Portugal.

“Gostei muito. Aumentou a minha autoestima” perceber que os que integravam o elenco de luxo de ambos os filmes de Miguel Gomes “afinal são pessoas simples”, afirma a atriz e cozinheira que um dia quis ser médica, ou engenheira e hoje segue alternadamente dois ramos profissionais distintos.

“Conheci muitas pessoas importantes”, resume sobre o seu convívio neste universo cinematográfico, onde também está hoje um seu neto.

“O meu neto fica mais à frente do que eu”, compara, referindo-se aos papéis que ambos interpretam nos filmes em que participam e que passam nas telas portuguesas e noutros palcos do mundo.

A originalidade dessa megaprodução cinematográfica despertou uma atenção junto do público e dos “Media” não só em Portugal como também num dos mais importantes festivais do cinema: a Quinzena dos Realizadores de Cannes, onde a tríade “As Mil e Uma Noites” foi exibida na íntegra, em estreia, durante seis horas.

Mesmo tendo tido sempre um papel secundário nos filmes de que faz parte, a atriz guarda cada guião que estudou com afinco “numa mesinha de cabeceira” do seu quarto.

“Uma vez esqueci aonde tinha deixado um guião e tive que o procurar muito”, ri-se da fixação que tem por conservar a sete chaves documentos que provavelmente já não mais vai utilizar.

Quando recebe o roteiro, Isabel Lopes Cardoso não tem um lugar apropriado para decorar a narrativa das suas personagens.

“Às vezes, ponho-me a falar sozinha feito maluca e a minha colega da cozinha pergunta-me com quem estou a falar (e digo-a): comigo mesma”, responde a atriz, esboçando um sorriso como que a justificar ser apenas essa a forma que consegue obter bons resultados na preparação dos guiões.

“Mesmo não sendo profissional, ainda me desenrasco bem. Tenho uma coisa boa: tudo se encaixa facilmente na minha cabeça”, vangloria-se Isabel Lopes Cardoso, a atriz são-tomense, que representa, nas telas portuguesa e do mundo, o rosto de África na Sétima Arte em Portugal.

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