A demissão do MNE cabo-verdiano e a reação da diáspora à reportagem sobre o cônsul que financia o Chega

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MNE demissionáro de Cabo Verde, Luís Filipe Tavares

Manuel Matola

O ministro dos Negócios Estrangeiros e ministro da Defesa de Cabo Verde, Luís Filipe Tavares, pediu hoje a demissão dos cargos ao primeiro-ministro, que a aceitou, um dia após uma reportagem em Portugal ter associado o governante ao Chega, partido da extrema-direita portuguesa, que a diáspora cabo-verdiana acusa de os discriminar sistematicamente.

A oposição cabo-verdiana exigiu explicações ao governo de Cabo Verde sobre o caso descrito como sendo grave: é que um dos maiores financiadores do Chega, partido político português de extrema direita e anti-imigração, é Cônsul Honorário de Cabo Verde na Florida, nos Estados Unidos da América, segundo a reportagem transmitida pela SIC.

Sem avançar qualquer motivo oficial para a saída, a três meses da realização de eleições legislativas, o governo de Cabo Verde refere que o primeiro-ministro “aceitou” a demissão de Luís Filioe Tavares e “apresentará, na sequência”, ao Presidente da República, “o nome do novo ministro dos Negócios Estrangeiros e ministro da Defesa”.

“O Governo agradece a dedicação e o espírito de missão demonstrado pelo Dr. Luís Filipe Tavares durante o período em que esteve a desempenhar os elevados cargos governativos”, concluiu-se numa nota citada pela Lusa.

Antes da demissão, Luís Filipe Tavares considerou em declarações aos jornalistas que César do Paço foi nomeado num processo “absolutamente normal”, assinalando que até ser provado o contrário, o mesmo continua a ser uma “pessoa de bem” para o executivo de Cabo Verde.

César do Paço, cônsul honorário de Cabo Verde na Flórida, EUA
“Recordo que ele foi cônsul de Portugal nos EUA por muitos anos (2014-2020) e depois há um processo normal. Ele foi proposto pelo nosso embaixador na altura, esteve de visita a Cabo Verde em Março de 2020 e nós, depois pedimos a exequátur, que é a autorização às autoridades norte-americanas para a nomeação de cônsul”, explicou o diplomata, à margem da cerimónia de apresentação dos cumprimentos de ano novo ao Presidente da República.

Na reportagem da SIC, César do Paço é citado como tendo sido acusado em 1991 em Portugal de crime de roubo qualificado. Na altura, o Ministério Público português terá decretado a sua prisão preventiva, seguindo de um mandado de captura. Contudo, por ter fugido, não chegou a ser julgado.

A demissão ocorre no mesmo dia em que o Presidente cabo-verdiano marcou a data das eleições legislativas para 18 de abril e das presidenciais para 17 de outubro, refere a agência de notícias portuguesa.

Reações

No entanto, a presidente do PAICV, Janira Hopffer Almada, exigiu hoje explicações do Governo cabo-verdiano sobre a demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros, após uma reportagem em Portugal ter associado o governante à extrema-direita portuguesa.

“A situação parece ser tão grave que quero crer que não terei percebido bem! Então, um dos maiores financiadores do Chega [partido político português] é Cônsul Honorário de Cabo Verde na Florida, EUA”, questionou a líder do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), numa mensagem colocada hoje na sua conta oficial na rede social Facebook.

Uma reportagem da estação televisiva portuguesa SIC sobre o partido português Chega, emitida segunda-feira e que desde então está a motivar comentários generalizados na comunidade cabo-verdiana, identificou que um financiador do partido, cidadão português, foi nomeado cônsul honorário de Cabo Verde na Florida.

“Qual a relação de Cabo Verde com a extrema-direita Portuguesa? Minha gente, estamos a falar da extrema-direita. Um potencial financiador da extrema-direita em Portugal é que está a representar o nosso país? A situação é grave demais”, escreveu Janira Hopffer Almada, acrescentando que o Governo “deve explicações”.

Para a líder do PAICV “não é admissível que o ministro das Relações Externas [Negócios Estrangeiros] se limite a dizer que desconhece o ‘historial’ do Cônsul de Cabo Verde, porque não as pediu”.

Nas redes sociais, vários cabo-verdianos na diáspora reagiram com indignação a reportagem transmitida pela SIC que retrata a ligação entre o Cônsul Honorário de Cabo Verde na Florida, EUA, ao partido anti-imigração de André Ventura, cujo discurso tem sido qualificado de racista.

“Nem sei que nome dar a isso”, escreveu uma internauta sobre o caso que já mereceu reação também de Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo em Portugal: “Por cá também aguardam-se explicações e assunção de responsabilidade de quem outorgou credenciais diplomáticas ao tal sinistro sujeito de que se falou ontem na reportagem da SIC”. (MM e Lusa)

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