A difícil compreensão da morte do jovem imigrante cabo-verdiano Luís Giovani Rodrigues

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O imigrante cabo-verdiano Luis Giovani Rodrigues Foto retirada do Facebook


Manuel Matola

A comunidade imigrante em Portugal está chocada com a morte de um jovem cabo-verdiano, cuja estória tardiamente anunciada pelos principais “media” portugueses torna-a numa crónica exemplar da difícil luta que os imigrantes travam quando vão em busca da liberdade, especialmente, através da escola.

Luís Giovani Rodrigues chegou há quase dois meses à região de Mirandela para se formar no Instituto Politécnico de Bragança. Com sorriso, terá deixado para trás familiares e amigos, depois de os pais terem decidido abdicar de alguns prazeres da vida para guardar os parcos recursos, de modo a ajudarem a abrir melhores possibilidades profissionais para o filho que colocaram a estudar fora do país.

Mas na madrugada do dia 21 de dezembro, o estudante cabo-verdiano foi encontrado ferido numa rua de Bragança e 10 dias depois morreu num hospital do Porto, para onde fora transportado.

Tudo o que se sabe é que a morte ocorreu por o jovem de 21 anos ter decidido primar pela ética ao tentar acudir amigos durante uma “rixa no ambiente noturno”, segundo disse o presidente do Instituto Politécnico de Bragança Orlando Rodrigues, citado pela Lusa.

Mas a tentativa de entender o enredo desde o início leva qualquer um a perder o fio à meada, pois a causa da morte de Luís Giovani Rodrigues é de difícil compreensão.

À Lusa, o comandante dos bombeiros de Bragança, Carlos Martins, referiu – uma das últimas versões – que o caso de Luís Giovani Rodrigues chegou às autoridades de Bragança como um possível alcoolizado caído na rua sem menção a agressões ou ferimentos.

Só depois de chegar ao local e avaliar a vítima é que a equipa de emergência descobriu um ferimento na cabeça e “verificou que se tratava de um possível traumatismo craniano”, segundo contou Carlos Martins.

Mas há outras versões: O bar onde o jovem cabo-verdiano estava com amigos publicou nas redes sociais um esclarecimento a confirmar que na madrugada do dia 21 de dezembro, “por razões desconhecidas, dois clientes envolveram-se em confrontos no bar”, escreveu a agência Lusa.

O jovem estava caído na Avenida Sá Carneiro, junto a uma loja (a W52), mais de meio quilómetro e alguns minutos a pé do bar Lagoa Azul onde terá estado com um grupo de amigos e onde terá começado uma desavença apontada como a origem da agressão.

“Nenhum dos envolvidos neste confronto era o Luís Giovani Rodrigues”, refere, lamentando a morte do jovem. Soube-se mais tarde que um dos envolvidos fazia parte do grupo com quem Giovani tinha saído.

Um primo da vítima contou ao jornal “Contacto” que a desavença terá começado por um dos amigos de Giovani ter tocado numa rapariga e o namorado não ter gostado.

Segundo o mesmo, quando o grupo de Giovani saiu do bar era aguardado por vários elementos “com cintos, paus e ferros” que terão agredido o elemento envolvido na desavença com a rapariga.

O mesmo relato indica que Luís Giovani terá intervindo para parar a contenda e foi atingido com “uma paulada na cabeça”, o que terá feito o grupo dispersar.

O caso está a ser investigado pela Polícia Judiciária que ainda não revelou se há suspeitos, mas que aponta para “um motivo fútil” na origem do caso, segundo avança hoje o jornal Público.

O diário indica também que “a autópsia foi inconclusiva, não esclarecendo se a morte foi provocada pela agressão ou pela queda” na rua, onde o jovem foi encontrado inanimado.

Mas o Público refere ainda que a Polícia Judiciária terá também afastado a tese de ódio racial associada à morte do estudante cabo-verdiano, nomeadamente nas redes sociais.

Já o Jornal de Notícias, que publicou a estória do caso no 01 de janeiro, dava conta que a morte do jovem terá sido causada por “ferimentos considerados graves que resultaram de agressões durante uma escaramuça que envolveu várias pessoas”.

As várias versões deste caso remetem para uma certeza: há uma morte de um jovem relacionada com um caso de agressão por vários homens à saída de uma discoteca da cidade, mas há diversas estórias à volta do desaparecimento do jovem Luís Giovani Rodrigues, que é hoje o imigrante mais mediático em Portugal.

A ingenuidade deste estudante de apenas 21 anos não o permitiu ir a tempo de compreender as lógicas urbanas num território onde ser imigrante é totalmente diferente de ser turista, este que, embora também venha de longe, é habitualmente recebido de forma sorridente e é protegido nos espaços públicos, porque a sua presença conta para estatísticas da macroeconomia a nível do turismo.

Apesar de reiteradas condenações e das garantias dadas pelo governo português de que os responsáveis serão identificados e levados à justiça, a forma como se nos impõe a ser imigrante, em Portugal, é no sentido de sabermos entender integralmente quando, como e onde podemos acudir rixas, manifestar e reivindicarmo-nos contra algo.

Mesmo que o ato do imigrante seja louvável e em solidariedade para com o próximo que está a ser vítima de uma “bárbara agressão” como a que resultou na morte do estudante cabo-verdiano.

É por isso e outras razões que centenas de imigrantes estão chocados e pretendem usar os diferentes espaços em Lisboa, Porto, Coimbra e Bragança para se manifestar nas várias ações programadas para o próximo sábado nas três principais portuguesas que vão acolher marchas de homenagem ao jovem estudante cabo-verdiano, cujo tempo de permanência cá – quase dois meses – não o permitiu apurar isso: como evitar uma barbárie enquanto imigrante.

De resto, era-lhe impossível saber, se bem que em condições normais o Luís Giovani Rodrigues não precisasse decorar essas fórmulas. (MM e Lusa)

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