A história de imigrantes que investem em ações para contornar a crise económica decorrente da Covid-19

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O número de inscritos nos cursos online relacionados com Mercados Financeiro e de Capitais, no Brasil, foi de 43 mil i em apenas uma semana ©

Elisabeth Almeida (Correspondente em São Paulo)

O imigrante brasileiro José Henrique Ribeiro e a advogada Natália Oliveira sobreviveram, em separado, a dois abalos financeiros no Brasil antes de decidirem imigrar para Portugal, um país que possui milhares de trabalhadores sem contrato de trabalho e o termo “educação financeira” é frequente em todas os “Media”. Hoje, ambos contam ao jornal É@GORA como a sua experiência em guardar dinheiro de ‘reserva’ está a ajudar a contornar a Covid-19: investem em ações.

Mesmo tendo a fábula da “Cigarra e da Formiga” como um clássico na vida de toda criança, o brasileiro é famoso por não saber guardar dinheiro e nunca ter uma quantia reservada no banco para momentos de emergência, como o isolamento social causado pelo novo coronavírus. É difícil encontrar em meio à crise económica no Brasil pessoas que não foram minimamente afetadas pela pandemia, mas elas existem.

“Eu aprendi com meu pai a ter disciplina e a sempre guardar pelo menos 10% do meu ordenado, destes 5% vão para a poupança e o restante eu aplico em ações”, conta a advogada Natália Oliveira, que acaba de dar entrada em sua casa própria em Lisboa, onde vive há três anos.

“Quando eu era mais nova, comecei a trabalhar e a ganhar um ordenado muito bom, mas acabei gastando desnecessariamente com roupas e viagens, até que fiquei desempregada. De uma hora para a outra, me vi sem emprego e sem reserva nenhuma para me sustentar até me recolocar no mercado de trabalho”, explica.

A experiência negativa impeliu a jurista a mudar os padrões de comportamento relativamente ao dinheiro.

“Prometi para mim mesma que nunca mais passaria por isso e comecei a sempre guardar uma parte do dinheiro, acompanhar a Bolsa de Valores do Brasil e a me reeducar. Em alguns anos, comprei um carro 0 km a vista, decidi estudar em Portugal, onde vivo atualmente com meu marido, e há pouco mais de seis meses demos a entrada na nossa casa própria na capital portuguesa”, diz ao Jornal É@GORA.

A advogada, que agora é expert em finanças e sabe como economizar, garante que a crise económica no Brasil e em Portugal não afetaram de todo o seu dia-a-dia.

“Eu e meu marido tivemos nossos ordenados reduzidos em 25% cada um, ou seja, a dinheiro que temos para gastar itens básicos caiu pela metade e ainda assim estamos tranquilos, pois temos uma reserva. É claro que por ter essa quantia guardada nós não esbanjamos, não estamos pedindo mais comida fora, as compras do mercado são apenas com os itens necessários e com o isolamento os gastos com gasóleo são mínimos”, completa Natália Oliveira.

José Henrique Ribeiro é outro brasileiro que tornou a educação financeira como um mantra diário e hoje, mesmo morando na cidade do Porto, vive das aplicações que tem no Brasil, mesmo com o real (moeda brasileira) valendo cinco vezes menos do que o euro.

“A minha mãe é economista, passou anos dizendo para mim e para o meu irmão sobre como gastar nosso dinheiro e como e em que investir. Eu sempre ouvi os conselhos dela e guardei uma quantia boa na minha poupança, já meu irmão nunca deu muita atenção para isto”, revela o imigrantes brasileiro.

“O ‘pulo do gato’ foi em 2016, quando houve o impeachment da ex-presidente do Brasil e a Bolsa de Valores sofreu grandes interferências e eu vi ali a oportunidade de investir em ações que tiveram queda naquele momento e que, com o passar do tempo, iriam se reestabelecer. Hoje vivo em Portugal apenas com os rendimentos de quatro anos atrás e me chateia ver que as crianças no meu país não têm esse ‘cuidado’ com o dinheiro e consequentemente serão adultos que fazem parte das estatísticas dos inadimplentes”, conclui José Henrique.

De acordo com dados divulgados pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), o ano de 2020 começou com 61 milhões de brasileiros endividados ou com contas atrasadas.

Só em dezembro de 2019, o percentual de famílias nesta situação chegava a 65,6% da população brasileira, estimada em 211, 4 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Os cartões de crédito e empréstimos bancários são os principais vilões dos que não têm controle financeiro.

São casos como os de Flávia Silva, jovem brasileira que viu na cidade do Porto, em Portugal, uma oportunidade de melhorar de vida, mas se deparou com uma crise económica e pior, sem ter dinheiro de ‘reserva’.

“Quando cheguei em Portugal logo comecei a trabalhar e a faturar o suficiente para meu sustento, até que me mudei para Lisboa e com a dificuldade de me recolocar no mercado de trabalho e o valor alto das rendas, o que ganho não dá nem para o gasóleo”, disse a imigrante brasileira, que atualmente trabalha como motorista de Uber.

Segundo os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), este quadro pode reverter-se com o passar dos anos, pois, em 2019, já houve um crescimento de 12% no volume total do valor investido em ações, somando 3,3 trilhões de reais, sendo o maior crescimento percentual desde 2015.

Outro fator que mostra uma mudança na percepção dos brasileiros na atual crise pandémica é o número de inscritos nos cursos online disponíveis no site da ANBIMA, relacionados com Mercados Financeiro e de Capitais, para auxiliar o mercado durante as restrições impostas pela pandemia de Covid-19: foram 43 mil inscrições em apenas uma semana. (EA)

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