A icónica foto de Mandela e Fidel que serve como “âncora” no combate à Covid-19 na Itália

0
431
FOTO: Fundação Nelson Mandela ©

Manuel Matola

O poeta e imigrante moçambicano Amarildo Valeriano, que há uma década reside na Itália, decidiu estampar nas máscaras que diariamente utiliza símbolos dos seus maiores ídolos políticos da História, incluindo a icónica foto de Nelson Mandela ao lado de Fidel Castro, como “uma âncora para enfrentar o desafio do momento”: a Covid-19.

A ideia é “comunicar mensagens de resistência ou de valores” em oposição aos “símbolos negativos em circulação”, sobretudo numa altura em que a União Europeia estuda a possibilidade de um novo plano migratório que visa “blindar fronteiras e acelerar expulsões” de imigrantes irregulares do espaço comunitário, segundo noticiou esta segunda-feira o jornal El País.

Hoje, a Itália, primeira nação europeia a ser atingida pelo novo coronavírus, adotou o desconfinamento, tal como outros países do velho continente, mas a nova realidade imposta levou o poeta a se reinventar.

E nesse exercício de proteção do rosto, Amarildo Valeriano passou a usar fotos e símbolos de resistência de “apenas uma pequena parte do repertório de heróis” cujos ideais o influenciaram em valores e na forma de ver o mundo.

“Como ter de colocar uma máscara para mim era de certa forma traumático, então comecei a pensar como fazer com que as máscaras fossem menos traumáticas. A isso juntei a ideia de comunicar mensagens de resistência ou de valores que têm um potencial de me ajudar a superar este período”, diz o poeta em entrevista ao jornal É@GORA.

O autor do “Falas Impossíveis”, um livro de poesia editado em português e italiano, lembra que foi na cidade de Veneza onde reside que o impacto da pandemia criou em si incertezas do futuro e fortes traumas de um passado recente que começou no dia em que o país se fechou integralmente ao tornar-se no epicentro da doença na Europa.

Amarildo Valeriano é atualmente um dos mais destacados imigrantes moçambicanos na Itália onde, a par da escrita e projetos artísticos, desenvolve atividades académicas também na área da imigração. E desde as primeiras hora que eclodiu o surto pandémico deu a conhecer ao jornal É@GORA as noticias nada encorajadoras que de lá chegavam.

“Os dias por aqui são sempre incertos. Cada dia que nasce surge uma novidade que pode ter consequências significativas na vida quotidiana atual. As noticias que chegam não são encorajadoras. Algumas pessoas continuam a movimentar-se. Mas porque não fazê-lo? É difícil parar. É difícil ver o Sol e não poder se fazer à rua. Não poder ver familiares e amigos. Não é um drama, não é o fim do mundo, mas a incerteza é tão forte que até a mais forte das esperanças corre o risco de desaparecer”, relatou ao jornal É@GORA na semana em que a Covid-19 penetrava sobre as casas de milhares de famílias italianas em números de mortos que não paravam de crescer.

FOTO: Amarildo Valeriano ©
Questionado agora se a produção de máscaras “menos traumáticas” teria ajudado a despertar a esperança que temia perder durante a fase crítica da Covid-19 na Itália, o poeta esclarece.

“A questão não era medo de perder a esperança, mas sim a necessidade de ter de identificar o mais rápido possível os recursos que me podiam habilitar a poder responder às exigências do momento em modo adequado”, afirma.

Prosseguindo, lembra que na altura se vivia “a incerteza que apresentava novas práticas e interpretação em curto espaço de tempo. Por outra lado, nesse mesmo espaço de tempo, tinha que se tomar decisões que carregavam consigo um alto risco de produzirem enormes efeitos negativos”, até porque “a informação era escassa ou quase inexistente, mas os indivíduos tinham que continuar a tomar decisões”.

E exemplifica quais as decisões: “mesmo as mais simples como ´ir ou não a supermercado?`, ´quando? a que horas?` tinham se tornado um fator de vida ou de morte. Toda uma série de preocupação que exigiam a ativação constante do instinto de sobrevivência”.

Tudo isso porque o governo de Roma acabava de decretar o estado de emergência e imposto o recolher obrigatório em toda Itália, que se contabilizava do surto pandémico 6.077 mortos, de um total de 63.927 casos de Covid-19.

Agora, são 34.634 mortes e 238.499 casos de infeção, e estudos agora divulgados confirmam que as autoridades italianas registaram presença do vírus dois meses antes do anúncio oficial dos primeiros casos diagnosticados em fevereiro.

As fronteiras convencionais encerraram, mas novas barreiras foram impostas no contacto entre as pessoas do mesmo espaço territorial, onde todos tiveram que cumprir o isolamento social.

“Os ídolos são meus”

E, “com ou na quarentena”, Amarildo Valeriano pensou em desenvolver um projeto artístico de estampagem de máscaras com rostos de figuras políticas, que “é resultado de um longo período de reflexão”.

“Mas”, garante: o projeto “foi influenciado por reflexões que já vinha fazendo há algum tempo, como por exemplo, como comunicar os valores e ideais que são importantes para mim. Comecei a pensar nas máscaras e no seu significado simbólico. O seu lugar na história”.

Fruto dessas reflexões teóricas e práticas sobre a arte, hoje, o poeta estampa diariamente símbolo de resistência, e já tem máscaras com o retrato de Martin Luther King, ou Ernesto Guevara, o revolucionário marxista argentino que foi uma figura importante da Revolução Cubana.
 

FOTO: Amarildo Valeriano ©
“Quando iniciei nunca pensei em usá-las ou fazer com que se transformasse em objetos de uso massivo, sobretudo, porque os ídolos são meus”, afirma o imigrante que, para já, produz as máscaras para o uso pessoal.

Mas reconhece que, a partir do momento em que se introduz nessas máscaras “um símbolo ou uma foto nelas, estas ganham um outra função ou valor” para a Humanidade. Tal é o caso da foto do líder histórico sul-africano Nelson
Mandela num retrato ao lado de Fidel Castro, o “pai” da Revolução Cubana.

“E mais: a minha ação sobre elas é muito experiencial, é por tentativa e ajuste de ideias. É interessante que a resposta à crise da Covid-19 também foi guiada pelo mesmo modus operandi: Tentar e experimentar. Assim foi ou está sendo o projeto. Mesmo por isso que neste momento está em pausa de modo que eu possa perceber qual será o próximo passo. Então a sua dimensão artística é justificada pelo processo que conduziu à sua conceção”, frisa.

E quando a quase totalidade dos países europeus, incluindo Itália, estão já a registar redução de casos de Covid-19 e a reabrir-se as fronteiras, o poeta usa por três vezes a palavra momento para descrever essa nova experiência que a Europa vive.

“Este é um momento total! Um momento único! um momento no qual vivemos uma simultaneidade de vivências e práticas que nunca antes tinha sido assim tão presente e tão visível no mundo”, diz, assinalando, o entanto, a existência também de “um mundo em quarentena”.

“Infelizmente as desigualdades ou recursos que cada um tem disponíveis estão a fazer a diferença no mundo no qual se vive e interpreta este momento. Eu posso usá-los para criar, mas se o posso fazer é porque tenho recursos que me permitem fazer com que isso aconteça, não obstante, o mundo lá fora esteja a viver um período traumático. Por outro lado, a arte ou criação podem não ser somente um ato de expressão pessoal, mas também um modo para enfrentar os desafios que este período impõe. Talvez por isso a minha ação criativa se manifestou sobre as máscaras que são uma exigência neste período”, conclui. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here