“A Madonna ajudou-me a acreditar mais em mim”, confessa Kimi Djabaté

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Músico guineense Kimi Djabaté


O músico guineense Kimi Djabaté participou no “Madame X”, o novo disco da Madonna, nomeadamente no tema “Bella Ciao”, que junta coordenadas de afro-mandinga, blues e pop. E nesta sexta-feira, o cantor, que está radicado há 24 anos em Portugal, falou com o Jornal É@GORA, minutos antes de subir ao palco da Festa do Avante, naquela que foi a sua primeira grande atuação em Lisboa após colaborar com a cantora norte-americana para o mais recente álbum da estrela pop.

“Foi uma parceria muito boa, tanto para ela como para mim”, revela Kimi Djabaté. “Nunca pensei que Madonna me iria convidar para fazer parte do seu disco”. Conta que deu, na altura, um sorriso incrédulo, quando recebeu o convite. Aceitou a proposta e acabou por entrar para o estúdio para gravar. “Madonna é uma grande cantora. Ela sabe o que quer. Trabalhei com ela desde as 6 da tarde até as 3 e meia da manhã”, afirma, elogiando os vários outros projetos com artistas africanos na diáspora.

Para ele, reforça, “é um orgulho” ter conseguido fazer o que Madonna projetou. E assinala que para fazer música é preciso tempo, dedicação, harmonia, parceria e o reconhecimento, que só vem mais tarde depois de muito trabalho.

“A Madonna ajudou-me a acreditar mais em mim”, afirma o músico com cerca de 20 anos de carreira. “Ainda posso ser melhor do que aquilo que sou até hoje”, admite, convicto, numa conversa em que fala também sobre os problemas de integração na Europa, que para Kimi Djabaté foi um processo “muito duro”.

Uma vez que ainda tínhamos mais uns minutos de conversa antes da hora de atuação de Kimi Djabaté, o artista aproveitou para lançar um apelo aos governos europeus sobre os imigrantes indocumentados. Para o músico, o imigrante deve ser legalizado por uma questão de direito humano, até porque é «horrível» viver na ilegalidade, considera Kimi Djabaté.

Olhando para o atual momento político em Portugal, o músico guineense diz que é uma conquista a participação de afrodescendentes nas eleições legislativas de 6 de outubro. Quanto a Europa diz: Os governos europeus devem ter uma outra postura em relação aos imigrantes que procuram a Europa para viver por razões económicas ou políticas. Os que já se encontram em território europeu devem ser legalizados, afirma Kimi Djabaté em entrevista ao Jornal É@GORA.

“Acho que as pessoas que não emigraram ainda, estão em África, não constitui grande problema, mas aquelas que já estão em Portugal ou em qualquer outra parte da Europa devem ser legalizadas”, defende o músico, ao considerar que este passo “é muito importante” na vida do cidadão estrangeiro.

É simples perceber que sem estar legalizado o imigrante não pode trabalhar. “Se a pessoa não trabalha, o que vai fazer? Vai roubar”, acrescenta. “É uma pena o que está a acontecer com os nossos imigrantes”, lamenta.

Sem documentos, adianta, não é possível arranjar emprego e torna-se cada vez difícil a integração. “Conheço muitos que andam aqui sem documentação e que merecem ser legalizados para melhor se integrarem”, relata.

Reconhece tratar-se de um problema grave. O cidadão em situação ilegal não tem uma vida fácil. “Tem medo de sair à noite. Tem medo de conhecer pessoas. Qualquer pessoa que encontra na rua leva-lhe a pensar que é polícia. Não podem trabalhar. Isso é horrível”.


Integração na Europa “foi muito dura”

Kimi Djabaté nasceu de uma família de músicos griots, comunidade que começou a fazer música na África Ocidental antes da chegada dos colonizadores. São eles os mentores de instrumentos como o balafon, o kora, o ngoni, o gumbé, entre outros, tocados até hoje e muito apreciados fora de África.

“Tudo pertencia ao Império do Mali, entre o século XII e XIII”, contextualiza o nosso entrevistado. Para ele, a imigração tem outro significado. Conta que saiu do seu país como viajante com o objetivo de se desenvolver como pessoa, em busca de uma vida melhor tal fazem todos os imigrantes, mas igualmente interessado em conhecer outras culturas.

O processo de integração na Europa “foi muito duro”. Explica que, culturalmente, “os europeus não têm nada a ver com os africanos”. Para se adaptar precisou de muito tempo, mas sabia que, na Europa ou noutro lugar, nada iria conseguir sem esforço e muito trabalho. “Levou muito tempo, mas consegui integrar-me”, afirma sorridente.

Kimi Djabaté diz que até hoje vive da profissão como músico. “Nasci pobre, mas a gente não fazia outra coisa senão a música. Por isso sempre acreditei que podia viver da música em qualquer lugar do mundo. Além disso, não procuramos o luxo”, explica. “Os griots, normalmente, fazem música para terem dinheiro que serve para comer. A nossa vida é isso. Nós não estamos à procura de riqueza”.

«Fiquei muito contente»

Enquanto não chegava a sua vez para o teste de som que antecedeu a sua atuação na Festa do Avante, esta sexta-feira, Kimi Djabaté mostrava-se disponível para abordar outros temas, de guitarra na mão. O músico demonstra estar atento à vida política portuguesa e tem uma opinião própria a propósito da inclusão de elementos da diáspora nas listas partidárias para as eleições legislativas de 6 de outubro.
Não considera este facto uma conquista. E explica porquê: “não diria que é uma conquista. Os países africanos colonizados por Portugal têm com este uma relação de muitos anos. Os portugueses estiveram em África durante séculos e ainda há muitos a viver e a trabalhar no continente africano”.

Por outro lado, considera também “bonito”, por exemplo, ver um cartaz de Joacine Moreira numa praça em Lisboa, pelo partido LIVRE. “Fiquei muito contente”, desabafa. Refletiu sobre isso quando viu o painel e admite que esta é uma das conquistas da diáspora africana.

“Acho que, cada vez mais, Portugal está a abrir-se” à realidade. Isso faz todo o sentido, na opinião de Djabaté, que reconhece ser necessário muito esforço por parte das comunidades imigrantes para a sua integração plena na sociedade portuguesa. “Temos que fazer muito esforço para alcançar algo”, reforça.

Faz alusão em tom de chamada de atenção aos imigrantes africanos “que não se misturam” com os outros. “Querem viver em comunidade e fecham-se no seu espaço”, relata, considerando que, desta forma, não terão sucesso. “O caminho fica-lhes bloqueado”.

Também falamos do seu país natal e das mudanças em curso, com as eleições presidenciais à vista. Diz que não se cala e não receia criticar o egoísmo e o interesse pessoal da classe política, que contribuiu para retardar o percurso da Guiné-Bissau interrompido com várias crises político-institucionais.
“É isso que dificulta o desenvolvimento da Guiné-Bissau”. Kimi Djabaté aceita que nunca é tarde para se aprender a viver em democracia. (X)

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