A mulher negra e a maquilhagem

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Claudina Correia
(Consultora de Imagem)
Como mulher negra, na minha infância sempre ouvia falar da maquilhagem de uma forma negativa para as mulheres e quem as usasse não era bem vista.
Esta ideia negativa da maquilhagem não era apenas para as mulheres negras. De uma forma geral o uso da maquilhagem, principalmente o uso de forma exagerada com cores mais intensas, era associada a mulheres de “vida duvidosa”.

Sou também da época em que comecei a ver as mulheres negras a começar a usar maquilhagem de uma forma ligeira, cheias de curiosidade mas com pouco conhecimentos. Um pó de arroz (que não era da cor certa obviamente) e uma cor ligeira nos lábios. A mulher negra sempre foi vaidosa, muito preocupada com a sua imagem dentro dos seus conhecimentos, com alguma timidez e de acordo com o que a “sociedade permite” (algo que também sempre observei, a preocupação com opiniões alheias). E, apesar do seu escasso conhecimento, a mulher negra é uma das grandes consumidoras de produtos cosméticos e maquilhagem.

O acesso à educação e informação traz à mulher negra uma forma mais aberta de se expressar através da imagem, conhecer suas outras necessidades e a ter acesso a novos produtos para consumirem.

Para a comunidade negra a nossa pele não precisa de cosméticos específicos ou de maquilhagem, porque a nossa pele já é naturalmente bonita – MITO! A nossa pele precisa de cuidados pois tem necessidades muitos específicas. Isso também tornou-se numa limitação na procura dos tratamentos adequados e nos coloca numa posição de desconfiança em encontrar algum profissional capaz de nos ajudar.
Cheguei também a ouvir homens a comentar, há bem pouco tempo aliás, que determinadas mulheres exageram no uso de cremes e maquilhagem e que não precisamos. Muitos até rejeitam e julgam as mulheres que usam.

O mercado da cosmética e os profissionais ainda hoje apresentam algumas lacunas na oferta de serviços e produtos para todos os tons de pele negra. São algumas frentes que a mulher negra ainda tem de enfrentar para usar a maquilhagem com os mesmos privilégios. É o receio da aceitação social ou os produtos que não correspondem às nossas necessidades. E como já referi a mulher negra é grande consumidora de cosméticos e isso tem vindo a ser levado em conta para as marcas que têm estado, gradualmente, a aumentar a oferta para as nossas necessidades.

O uso da maquilhagem de uma forma excessiva que, por vezes, até transformam é um dos motivos para a resistência à sua aceitação na nossa comunidade, mas é importante salientar que, em muitos casos, o método transformador da maquilhagem veio devolver a auto-estima a muitas mulheres que apresentam imperfeições sérias nas suas peles, quer sejam problemas genéticos, hormonais ou causados dos acidentes. O poder olhar-se ao espelho e gostarem de se ver.
A maquilhagem tem a maravilhosa capacidade de empoderar as mulheres ao realçar a sua beleza.

Apesar de uma rápida evolução da oferta de produtos direcionados para a pele negra, ainda é um terreno desconhecido e desconfortável para algumas mulheres. Muitas de nós crescemos sem referências próximas de alguém que usa maquilhagem com conhecimento sólido. Mesmo agora com acesso a vídeos e tutoriais nem todas arriscam e muitas que tentam falham e desistem. É muito grande o medo do julgamento por uma maquilhagem mal feita.

O bom disto tudo é que esses números estão a reduzir, os produtos começam a chegar (passos curtos, mas chegam), com cada vez mais profissionais negras de topo tanto na maquilhagem como também na área estética no seu todo. Somos muitas a conquistar o nosso lugar e a servir de referência e inspiração para gerações futuras.
À nossa comunidade pedimos um olhar mais amplo em relação às nossas mulheres para poderem usar a maquilhagem e permitir que elas se empoderem não só como profissionais mas principalmente como consumidoras que expressam livremente a sua beleza! (X)

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