A (re)adaptação dos repatriados de Portugal para um Brasil incerto

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Elisabeth Almeida

Após semanas de retorno ao Brasil, o jornal É@GORA procurou saber como está a ser a (re)adaptação dos repatriados brasileiros que estiveram `acampados`em Lisboa, onde a eclosão da Covid-19 forçou-os a abandonar Portugal e deixar para trás o “sonho europeu” enquanto imigrantes. O futuro é incerto, mas valeu a pena voltar, dizem.

“Mesmo com toda a incerteza causada pela pandemia do novo coronavírus, estou muito feliz em ter voltado para a casa, perto dos meus familiares e amigos”, afirma Ilker Luiz ao Jornal É@GORA, após uma semana do seu repatriamento.

Ilker Luiz é um dos brasileiros que esteve alojado no Inatel de Oeiras, sob cuidados da Segurança Social de Portugal e que, no dia 22 de maio, após um mês dos ‘acampados’ de Lisboa ganharem as manchetes mundiais.

“Durante o tempo em que dormimos lá (no aeroporto) passamos por grandes dificuldades e até mesmo fome, mas vimos pessoas abraçando nossa causa e doando alimentos. Sou muito grato também a todos do Inatel, que nos trataram com muito de Oeiras, que nos acolheu com muito carinho, enquanto o Consulado do Brasil nos dava as costas”, relatou.

Além de Ilker, outras 297 pessoas tiveram lugar garantido no sétimo voo de repatriamento da TAP, com destino a São Paulo, o coração financeiro do Brasil e também um dos mais afetados pelo covid-19. Antes o governo brasileiro já havia fretado seis aeronaves para tal finalidade, com custo de cerca de 8 milhões de reais.

Parte dos brasileiros que durante dias estiveram albergados no Inatel aguardando voo de regresso ao país
As primeiras aeronaves vieram lotadas com brasileiros que foram passear em Portugal e tiveram sua passagem cancelada por conta do fechamento das fronteiras.

“A maioria dos passageiros são turistas que ficaram retidos aqui, mas há casos de pessoas que no meio deste processo (pandemia) foram perdendo completamente as condições de ficarem em Portugal, porque perderam os seus empregos e não têm condições de pagar a renda do próximo mês e que vieram entrando em contacto com o consulado”, refere Izabel Cury, secretária do Consulado do Brasil em Lisboa.

Segundo noticiou há dias a CNN-Brasil, até agora já “foram repatriados 2121 cidadãos” brasileiros que, segundo o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), eram “maioritariamente turistas e residentes que, independentemente de seu estatuto migratório, encontravam-se em sérias condições de desvalimento”, em Portugal.

No entanto, pelo menos 20 pessoas ainda estão “a aguardar o voo de repatriamento” para Brasil, de acordo com a imigrante brasileira Vanessa Clementina de Paula, que integra o grupo que ficou em terra no último voo que partiu no passado dia 22 de maio.

“Nós, assim como o outro grupo de 12 pessoas, ficamos sob ´custódia` do Consulado e na sexta-feira, que a gente não tinha para onde ir, foi acolhida pela Segurança Social. Ficamos na Inatel até terça-feira na hora do almoço. Na terça-feira fomos mandados para o hostel no Marquês de Pombal e ficamos até quinta-feira e (os responsáveis consulares) optaram por colocar nosso grupo, composto por oito pessoas, em um apartamento de cinco quartos. E a gente está aqui todos reunidos no nosso grupo, que estava no aeroporto e veio para cá para aguardar o voo de repatriamento”, conta Vanessa Clementina de Paula, em declarações ao jornal É@GORA.

“Graças a Deus eu estou em casa, voltando à minha rotina. Eu ainda não comecei a trabalhar fixo, mas dentro desta semana já devo começar, como auxiliar administrativo. Assim como eu, espero que todos que passaram por este momento difícil em Lisboa possam seguir suas vidas e possam alcançar seus objetivos e voltar a ter a sua dignidade”, relata, entretanto, Ilker Luiz, que é de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

André Soncin é outro brasileiro que lutou pelo seu direito ao repatriamento e conseguiu, viajando apenas com a roupa no corpo, pois já não tinha mais expectativas em Portugal.

“Antes eu não dava valor ao Brasil e, como todo bom brasileiro, achava sempre que a grama do vizinho era mais verde e hoje que o melhor lugar do mundo e que, apesar de tudo, vivemos em um país muito mais rico do que muitos que eu conheci”, desabafa.

“Estou aqui a acertar as coisas, pois cheguei em uma época de pandemia e com tudo fechado. Ainda assim estou resolvendo minha vida profissional e estrutural, mas muito melhor e muito mais feliz por ter voltado para o Brasil”, afirma André Soncin.

O sentimento de alívio em estar em solo brasileiro é compartilhado por Maurício Ferrari, que vive em Santa Catarina, na região Sul do país.

“O que mais nos alegra é ver que outros colegas conseguiram o repatriamento e saber que vão poder estar com suas famílias. Aos poucos vamos voltar a trabalhar e seguir nossa vida, mas sempre ao lado dos nossos”, assinala Maurício, que também garantiu sua poltrona no sexto voo de Lisboa para São Paulo.

O preço do “sonho europeu”

Já faz muito tempo em que o olhar dos brasileiros, assim como imigrantes de outras nacionalidades, deixou de vislumbrar os Estados Unidos como “terra da oportunidade” e começaram a ter o chamado “sonho europeu”, tendo Portugal como principal país dada a facilidade do idioma. Além disso, a valorização do euro com relação a moeda brasileira, a grande rotatividade de turistas e a busca por maior qualidade de vida fez com que pessoas de todo o país fizessem o processo inverso de Colombo.

A conversão entre as moedas foi o motivo crucial para que André Soncin deixasse sua família em São Paulo para ir para Ponte do Sor, na região do Alentejo, onde foi trabalhar na plantação de azeitonas.

“A ideia era ótima, na teoria, pois eu trabalharia o dia todo e não teria muito tempo para gastos desnecessários e tudo o que sobrasse (o que eu imaginava que seria muito) valeria de 5 a 6 vezes mais com a conversão, já que o euro está valorizado e o real não”, explica.

“Era algo que não tinha como dar errado, mas deu e ao invés de ter dinheiro sobrando para enviar ao Brasil, chegou um momento em que eu não tinha como me manter mais em Portugal e também não tinha como depender de recursos vindos do brasil, dada a desvalorização do real. Era totalmente inviável”, conclui André Soncin.

Já Ilker Luiz viu em Lisboal a oportunidade de conhecer novas culturas.

“Eu fui (para Portugal) com o objetivo de conhecer mesmo, pois eu já conhecia vários países na América do Sul, como Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia, mas nunca tinha ido à Europa. Ao chegar lá tive a possibilidade de fazer a extensão de estadia e resolvi ficar, na esperança de conquistar melhores condições financeiras”, conta.

Numa altura em que a produção industrial brasileira referente ao mês de abril caiu 18,8% devido à pandemia, que já provocou a morte de 31.199 pessoas, num universo de 555.383 casos confirmados, a situação do novo coronavírus no Brasil concorre para a perpetuação da incerteza de futuro de quem voltou ao país para se readaptar começando do zero. (EA)

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