A visão da cientista angolana Adjany Costa sobre Ecofeminismo e a imigração em África

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Adjany Costa venceu em 2019 por África o prémio Jovens Campeões da Terra, atribuído pela ONU a ambientalistas com menos de 30 anos

Manuel Matola

A etno-conservacionista angolana, Adjany Costa, uma das mais conceituadas biólogas marinhas do mundo, garante que o Ecofeminismo é muito presente em África, mas o enquadramento que se faz das políticas ambientais adotada pende sobre os que imigram, o que torna a consciência cívica de algumas sociedades mais económica e não ecológica.

Numa entrevista exclusiva ao jornal É@GORA, em Lisboa, Adjany Costa disse que, no continente africano, “o Ecofeminismo já existe, apesar de (somente) algumas (mulheres) se enquadrarem conscientemente nele”.

“Não significa que todas não façam” parte do Ecofeminismo, enquanto movimento e filosofia de vida que liga o feminismo com a ecologia, até porque, na verdade, “todas fazem, só que algumas já se consciencializaram, enquanto outras atuam e fazem, mas ainda não se integraram no movimento em si”, disse Adjany Costa.

A cientista angolana, que em 2019 venceu por África o prémio Jovens Campeões da Terra, atribuído pelas Nações Unidas a ambientalistas entre os 18 e os 30 anos de idade, foi uma das oradoras na conferência sobre “Ecofeminismo: Mulheres e Ecologia”, que decorreu no Parlamento, na passada terça-feira.

O evento, organizado pela deputada Joacine Katar Moreira, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, pretendia “reforçar a importância de uma maior justiça social e climática, que passa pela defesa da igualdade e da ecologia como um todo”.

Instada pelo jornal É@GORA a comentar a relação existente entre o Ecofeminismo e a imigração, a bióloga e exploradora angolana destacou as políticas de gestão ambiental que têm sido implementadas especialmente no continente africano e que muitas vezes “são enquadradas na parte da sociedade que mais migra”.

“A maior parte de políticas de gestão ambiental são baseadas no valor económico e não ecológico do ambiente que nós temos e aí é (onde reside) o grande problema, porque nós vemos os recursos, mas não vemos o funcionamento e a necessidade ecológica da nossa própria sobrevivência. É a tal coisa: as políticas são enquadradas na parte da sociedade que mais migra. Então, a nossa consciência cívica é económica e não ecológica, pelo menos, maioritariamente”, considerou.

A pesquisadora apontou os diferentes níveis de consciencialização deste novo conceito que surgiu no início do século XXI, exemplificando com a realidade da população feminina que reside especialmente na zona rural de Angola.

“Isso tem muito a ver com a diferentes realidades que nós temos no nosso país. Portanto, alguém que está concentrado em sobrevivência, que passa o dia todo na lavra, alguém que sobrevive exatamente à base das suas próprias mãos não perde tempo a tentar contextualizar-se no que quer que seja”, referiu.

Para a académica angolana, que em 2018 integrou a lista de 14 exploradores emergentes da National Geographic Society, há um grupo social que, embora possa ter consciência ecológica, às vezes, não é dotado para o trabalho manual, pelo que abandona as suas zonas de residência – os imigrantes.

“Portanto, a imigração é feita por aqueles que não sobrevivem pelas próprias mãos no mato, pelo menos, em Angola. Então, há um grande ‘gap’ entre as pessoas que o fazem, que mais têm que sobreviver e aquelas que têm a possibilidade de se enquadrar, afirmar-se e ter uma voz mais ativa” neste novo movimento global que propõe a ligação entre o feminismo e a ecologia, disse.

Por isso, prosseguiu a cientista, “essa situação só se reverte caso haja uma reintegração do ser humano no ambiente que o envolve”.

“O meu caso já está resolvido”, gracejou entre risos. E, de seguida, mais a sério, a imigrante angolana residente no Reino Unido esclareceu:

“Eu iniciei um processo académico num país desenvolvido, mas com a consciência natural da necessidade de integração do conhecimento” em Angola, disse em alusão ao doutoramento em Zoologia que está a fazer na Universidade de Oxford, dedicado à proteção da biodiversidade marinha angolana.

“O que acontece”, sublinha, “é que as tais pessoas que migram para os tais chamados países desenvolvidos estão cada vez mais a dissociar-se da natureza que os une, porque os países chamados desenvolvidos são os mais dissociados e cada vez mais distanciados de tudo que é natural”.

Embora defenda que a reversão dessa situação deva ser feita “de uma forma pessoal e individual”, Adjany Costa propõe que a saída passe também por os estudantes na diáspora desenvolverem temas académicos na lógica de adaptação de modelos numa perspetiva de busca de conhecimento global para aplicação a nível local.

“É mais questionar como é que nós podemos aproveitar o conhecimento histórico que nos foi registado ao longo do tempo para melhorar o que é nosso. Isso é um tema individual. Não é um que possa dar palpites e dizer” coisas do género: “olha, podemos falar disso ou daquilo, porque nós temos interesses e visões diferentes. Mas temos de parar de olhar para fora como a solução”, defendeu.

Para a investigadora, o conhecimento exterior ajuda a dar “ideias, possibilidades de experimentação, de inovação”, ou então pode ser usado como uma ferramenta científica para “não cometer os mesmos erros”.

“Mas temos que parar de fazer o ´copy paste`” e deixar de pensar em coisas como: “olha, eu vou para sítio ‘X’ porque quero aprender isso para voltar ao meu país e implementar. Implementar o quê, se (o modelo) não é do teu país?”, questionou.

“Há que haver essa dissociação em que nós podemos, sim, melhorar e evoluir a nossa gestão, mas com conhecimentos nossos, usando os de fora para complementar e não (usar esses modelos) como a base” para busca de soluções locais, disse Adjany Costa, em declarações aos jornal É@GORA, momentos depois de partilhar o painel com mais duas oradoras portuguesas: a artista e pesquisadora, Ritá Natário, e a ´performer´ e Mestre pela Universidade de Roehampton, Sónia Baptista.

No âmbito do doutoramento em Arte e Antropologia, no qual o Antropocentrismo tem sido o tema central da pesquisa, Rita Natário procura explorar o Ecofeminismo numa abordagem que, segundo disse, lhe “tem sido muito importante, sobretudo, como escritora”.

Na sua intervenção, a pesquisadora portuguesa discorreu sobre conceitos de autores cujas perspetivas não estão ainda muito difundidas em Portugal, desde definições como Antropoceno ao de uma ecofeminista norte-americana sobre a crença na palavra ecologia “na sua forma generalizada que é ao mesmo tempo ambiental, política” e igualmente “é sensível e estética”.

Além de apelar para uma maior literacia das comunidades, Rita Natário defendeu a necessidade de se pensar o Ecofeminismo como “uma ideia de interligação, negociação, recomposição de papéis, habitar lugares de fronteiras e também tentar de alguma forma colocar em causa alguns dos paradigmas epistemológicos ocidentais” nesta ligação entre o feminismo e a ecologia.

E justificou porquê: é que “são exclusivos”, e como tal “justamente impedem outras formas de pensar e de se relacionar com a terra que sejam possíveis”, aliás, também porque “existem muitas outras formas de poder ligar estes territórios”.

Para a doutoranda em Antropologia, “é preciso questionar a divisão escrita entre a natureza e a humanidade, questionar também a divisão racial e de género – feminino, masculino – em que se concede às mulheres o grau mais fraco e mais próximo das funções produtivas naturais”, quando os homens são vistos “como garante de uma noção plena, dinâmica” das coisas.

Em jeito de resposta, a performer, coreógrafa e poeta Sónia Baptista sentenciou: “A natureza é fêmea”. (MM)

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