A visão de seis atletas afrodescendentes sobre o racismo e o desporto em Portugal

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Por, Manuel Matola

Os desportistas afrodescendentes Emanuel, José, Taciana, Daúto, Bernardo e Marco conquistaram lugares cimeiros nas carreiras que abraçaram na vida, mas quando discutem sobre as competências dos atletas e o racismo em Portugal, onde residem, rivalizam mesmo praticando modalidades distintas.

Num painel sob lema “Os Atletas e o Racismo” inserido num recente debate intitulado “Pensar o Racismo no Desporto” português, os atletas e dirigentes desportivos deram testemunhos de vida dentro e fora do campo onde cada um é hoje uma referência.

Apesar de confluírem na ideia de se encontrar soluções para combater as diferentes formas de manifestação do racismo no desporto em Portugal, divergem no ponto relativo à necessidade de se primar pela competência ou atribuir-se quotas aos desportistas num contesto social de alegada segregação racial.

O atleta Emanuel Almeida é dos poucos luso-africanos que conseguiu realizar o sonho de praticar o rugby, mas fê-lo após completar os 28 anos, uma idade ligeiramente avançada para a generalidade dos desportistas que pratica uma modalidade onde a multiculturalidade e diversidade racial são quase ausentes.

“Ando demasiado ocupado em fazer aquilo que gosto para ver o racismo no desporto”, sentencia Emanuel Almeida, hoje um dos superveteranos do rugby português e também treinador nos escalões de formação do Benfica, o clube no qual já conquistou vários títulos nacionais e internacionais.

A decisão de chegar aos 28 anos sem nunca entrar para o rugby foi uma estratégia adotada pelo próprio jogador, pois ainda muito novo Emanuel Almeida dedicou-se à prática de outras duas modalidades: o futebol e as artes marciais.

Mesmo aos 28 anos, diz, “sabia que ia dar o meu melhor”, pelo que tomou uma decisão: focar-se na conquista de um espaço por mérito próprio.

“A perseverança e o mérito fazem com que haja (por exemplo) os Michael Jordan”, diz Emanuel Almeida que faz questão de lembrar que é “filho de um pai branco e de uma mãe negra”.

“Desde sempre disse que o racismo era fruto da ignorância das pessoas”, afirma.

O português de ascendência cabo-verdiana, José Reis, é atualmente uma referência desportiva pois tem um histórico de campeão europeu e mundial de “kickboxer” em diferentes competições em que participou. Mas confessa que a conquista destes patamares num desporto de eleição assenta sobre uma mentalidade vencedora e na busca incansável pela excelência.

“Eu sempre pensei: quero ser dez vezes melhor que o melhor, porque se eu falhasse seria pelo menos nove vezes melhor”, afirmou José Reis, o campeão mundial de “kickboxer” que representou a bandeira de Portugal durante 11 anos nos palcos mundiais.

Aos 42 anos José Reis, formado em Direito, é treinador desportivo, mas nunca foi atleta profissional de “kickboxer”, a modalidade que o ajudou a chegar aos diferentes níveis de competição pelo mundo fora.

“Nunca fui profissional (de “kickboxer”). O meu trabalho (enquanto jurista) é de reinserção social de jovens que vêm de situações problemáticas”, esclarece José Reis, que cresceu na periferia de Lisboa, na verdade, num bairro social da Amadora, o concelho que alberga pelo menos 99 nacionalidades.

Às vezes na vida “damos enfoque a motivos errados”, diz, lembrando que, em Portugal, “o racismo evoluiu muito de forma favorável porque, em tempos, nem sequer se falava disso em reuniões abertas. Não se misturava num mesmo painel brancos e pretos, nem sequer se podia falar de brancos e negros sem medo de se ferir suscetibilidade”.

No painel em que desportistas e dirigentes desportivos de diferentes modalidades estiveram a “Pensar o Racismo no Desporto” falou-se de forma aberta sobre um fenómeno que ainda hoje é um tema fraturante não só em Portugal como na maioria das sociedades a nível mundial.

O treinador de futebol português nascido em Moçambique, Daúto Faquirá, lembra-se de ter vivido “apenas um” episódio de segregação racial “num comboio” desde que chegou a Portugal em 1977.

“Só quando me lembram que sou diferente é que noto que somos diferentes pela cor”, disse Daúto Faquirá, para quem o que acontece no futebol “não é diferente da sociedade”, pois aí “não prevalece a democracia racial. O futebol reproduz aquelo que acontece na sociedade”, pois nesse mundo “há episódios de racismo de forma acintosa”.

“Se formos perseverantes e determinantes, a questão pode ser ultrapassada”, reconhece o antigo jogador do Vitória de Setúbal, que, de seguida, remete o debate para outro nível de discussão: as hierarquias de poder e a segregação racial.

“É preciso olhar para quem joga, quem manda jogar e quem é mandado. Isso é que nos deve fazer pensar” quando se fala do racismo e o desporto, apelou Daúto Faquirá.

É que “nos principais órgãos de tutela (de diferentes modalidades desportivas) a raça dominante é a branca”, assinala o desportista, demonstrando perplexidade por isso continuar a acontecer numa área em que “quem joga futebol são pessoas que vêm de contextos sociais baixos” e, na sua maioria, anseia e/ou, por vezes, chega à categoria de treinadores.

A questão da não existência do racismo no desporto “é uma falácia”, sentencia Daúto Faquirá, ao passar a bola para o campo de abordagem sobre o fenómeno sustentando-se nas estatísticas que espelham a dificuldade de integração dos treinadores desportivos não brancos nos clubes de futebol que competem tanto na Europa como no continente africano.

“Em 32 seleções que participaram no Mundial de Futebol passado só havia um treinador negro e que auferia menos. Quando falamos do CAN (Campeonato Africano das Nações), em 12 equipas só dois treinadores eram negros e só somente quatro treinadores africanos eram dos seus próprios países”, exemplificou Daúto Faquirá, prosseguindo: “É essa forma de pensar (o racismo e o desporto) que deve ser discutido, ou seja, quem manda e quem é mandado” nos clubes.

No entanto, Emanuel Almeida discorda de qualquer tipo de comparação que se pretenda fazer quando o que está em causa é o mérito do atleta, daí que olha para o reverso da moeda nesse debate.

“Como é que sendo treinador, eu vou explicar a uma criança branca com talento que a exclui para dar lugar a uma criança negra apenas para respeitar as quotas. O que isso irá causar nela no futuro?”, questiona o atleta de o rugby, uma modalidade que abraçou há 13 anos.

“Há uma desvalorização dos treinadores, mesmo em África”, afirma, por seu turno, o angolano Bernardo Manuel, diretor técnico de Atletismo do Sporting, que na década de 70 e 80 ajudou o Sporting a ganhar vários títulos regionais e nacionais de Corta Mato.

“Mas isso acontece um bocado o que se passa cá. É uma questão cultural. Em África achamos que o treinador branco é o melhor, cá o que vem de fora é tido como o melhor”, esclarece um dos mais importantes atletas de lançamentos treinador de Atletismo português, Marcos Fortes, nascido em Lisboa, mas com ascendência cabo-verdiana.

Afinal “por que não existe equiparação com os negros?”, insiste no ponto Daúto Faquirá, lançando outro debate sobre as quotas ainda se baseando nas estatísticas sobre o número de treinadores brancos e negros contratados pelos clubes.

“O racismo existe muito mais na questão social”, afirma a judoca Taciana Rezende de Lima Baldé, brasileira naturalizada guineense, campeã mundial de Judo, em 2011, que já adulta descobriu na Internet que o seu pai é guineense, decidindo por passar a representar a bandeira da Guiné-Bissau nas competições futuras.

Entre a saída do país que a viu nascer e a aquisição da nacionalidade guineense, a judoca, que hoje reside em Portugal, passou por situações de racismo no Brasil após testar positivo com furosemida durante o exame antidoping da Copa do Mundo de São Paulo, em 2011, situação que a forçaram a afastar-se durante um ano das competições.

“Enquanto não falhas, está tudo bem, mas quando falhas (os dirigentes desportivos e a sociedade, no geral) vão olhar para o país de onde vens”, resume Taciana Rezende de Lima Baldé que, entre 2012 e 2015, conquistou, na categoria ligeiro, até 48 quilogramas, três medalhas de ouro no Campeonato Africano de Judo em representação da Guiné-Bissau, país onde desenvolve atividades sociais ligadas ao desporto para crianças. (MM)

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