“Acabou, consegui retornar para meu lar”, desabafa um dos 300 brasileiros repatriados

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O grupo de repatriados lançou o `grito do Ipiranga`

Elisabeth Almeida e Manuel Matola

A brasileira Érika Santos Silva faz parte do grupo das 300 pessoas que foram repatriadas na sexta-feira de Lisboa para São Paulo, partindo daí para Belo Horizonte, Minas Gerais, de onde comunicou hoje ao jornal É@GORA o fim da sua vida de imigrante: “Eu consegui retornar para meu lar”.

Em declarações ao jornal É@GORA, Érika Santos Silva, que chegou neste domingo aos braços da sua família em Belo Horizonte, Minas Gerais, disse não ter sido fácil viver longe do país e familiares, mas na base da fé conseguiu regressar.

“Eu defino a minha luta em muita fé em Deus”, agora estou “muita calma porque não foi fácil viver longe do nosso país e familiares. Mas graças a Deus, eu consegui retornar para meu lar”, disse.

Mas o ´grito do Ipiranga` partiu de Alex Santos, que deixou para trás o peso da imigração, após um mês de incerteza de regresso ao país de origem, desde que o Consulado do Brasil em Lisboa fez a primeira marcação do repatriamento. 

“Acabou. Parece que um peso saiu das costas”, diz Alex Santos, natural de Minas Gerais, que aguardava pelo voo de retorno ao Brasil desde o dia 16 de abril, quando recebeu uma notificação dos serviços consulares a avisar que estaria no voo do dia 22, mas de seguida teve o nome retirado da lista, até a passada sexta-feira.

O sétimo voo de repatriamento de brasileiros partiu às 14:00 de sexta-feira de Lisboa, mas deixou em terra 36 brasileiros que são parte dos mais de 300 imigrantes que saíram de várias regiões de Portugal para tentar, sem sucesso, um lugar no avião que descolou do aeroporto Humberto Delgado diretamente para São Paulo.

Parte dos brasileiros repatriados
Da capital económica brasileira, os ex-imigrantes partiram para os vários estados do país, deixando para trás sonhos e projetos que tinham num longo projeto de imigração, que terminou após semanas de luta para abandonar Portugal, onde a Covid-19 os remeteu a uma situação de vida estagnada.

Depois de terem perdido emprego devido à pandemia, a crise económica causada pelo isolamento social lançou-os para o desemprego e levou a que muitos fossem despejados, por não conseguirem arcar com as rendas cobradas no país. E sem ter onde ficar encontraram no repatriamento uma maneira de sobreviver a este momento de incerteza ao lado da família.

Alex Santos descreveu a longa caminhada já em solo tupiniquim, onde percorreu 591 quilómetros, cerca de 8 horas de viagem, de São Paulo para Belo Horizonte, e outras cerca de 5 horas de viagem de carro até Valadares, num troço de quase 320 quilómetros.

“Eu cheguei muito bem, graças a Deus. Foi meio demorado porque aqui no Brasil está sem os ônibus e eu tive que chegar em São Paulo; de São Paulo para Belo Horizonte; de Belo Horizonte para Valadares e só então consegui chegar em Conselheiro Pena, que é onde está minha família” disse.

Descrevendo a luta para o repatriamento como “um pesadelo”, Alex Santos lembra que “não dormia direito pensando se o voo seria cancelado novamente”, mas agora, “graças a Deus” a situação é diferente: “Estou aqui com a minha família e muito feliz. Acabou, parece que um peso saiu das costas”.

Foram mais de 300 pessoas que regressaram ao Brasil num voo lotado da transportadora portuguesa TAP, com capacidade para 298 pessoas.

“Foi muita gente. Até naquelas cadeirinhas em que ficam os comissários do bordo, os funcionários do avião, tinha pessoas sentadas. Veio lotado”, garantiu Alex Santos, acrescentando que “todo mundo chegou bem” e agora é recomeçar a vida do zero.

“Voltar à nossa rotina, à nossa família e que seja o que Deus quiser aqui no Brasil, porque aqui pelo menos estamos perto da nossa família. Se tiver ruim, a gente corta e trabalha daqui, trabalha dali, mas pelo menos estamos no nosso país”, encerrou.

O brasileiro Ilker Luiz, que também foi repatriado, conseguiu chegar apenas esta segunda-feira à sua terra natal, Mato Grosso do Sul, onde diz que “além de não ser imigrante” também conseguirá “ter todos direitos” que os restantes cidadãos brasileiros.

Para trás, ficaram 36 brasileiros que permanecem em Lisboa. Um novo grupo composto por 15 pessoas passou a estar, a partir de sexta-feira, hospedado na Inatel. Outros 21 estão agora quer em casa de amigos, num hotel ou albergados numa Igreja.

É o caso de Rosângela Alves Simão, que viu o seu regresso adiado por quatro vezes, incluindo o de sexta-feira, dia em que passou a estar albergada nas instalações de uma instituição religiosa na capital portuguesa por tempo indeterminado.

“Em setembro, nós compramos nossas passagens, são três: eu, meu marido e minha filha de seis anos. Nós compramos pela TAP e a TAP desmarcou e foi para Latam, compramos por uma agência do Brasil e nosso voo foi cancelado e remarcado pela Latam para o dia 7 de maio; do dia 7 foi cancelado de novo pela mesma Latam para o dia 2 de junho, que foi cancelado de novo e remarcado para o dia 4 de junho. Quando foi agora, na quinta-feira, a agência entrou em contacto comigo para informar que a Latam remarcou para o dia 15 de julho, que só tem vaga para o dia 15/07 e”, agora, “nós estamos em uma igreja e está difícil porque eu estou sem trabalho, meu marido também está sem trabalho e com uma filha pequena. Está complicada a situação”, resumiu Rosângela Alves Simão.

O casal de imigrantes diz encontrar-se hoje a viver numa Igreja por eventual falha na comunicação com os serviços consulares brasileiros em Portugal.

“Recebemos um e-mail do Consulado, mas não deram muito tempo para gente responder: um dia só para gente responder este e-mail e não conseguimos responder a tempo”, diz Rosângela Alves Simão num áudio enviado ao jornal É@GORA, no qual se ouve a voz abatida acrescentando o passo seguinte deste contacto com o Consulado.

Na verdade, os que partiram e os que ficaram são todos parte dos 151 mil brasileiros que, segundo as autoridades migratórias portuguesas, constituem a maior comunidade estrangeira residente em Portugal, onde existem mais de 500 mil imigrantes. (EA/MM)

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