André Ventura reage à demissão da presidente do Conselho Regional da Europa

0
447
André Ventura, líder do Chega, partido de extrema-direita; Luísa Semedo, presidente demissionária do Conselho Regional da Europa ©

O líder do Chega, André Ventura, diz ter sido “ótimo” o anúncio de demissão da presidente do Conselho Regional da Europa do Conselho das Comunidades Portuguesas, Luísa Semedo, porque ajuda a “poupar o dinheiro dos portugueses nesses tachos que não servem para nada”, mas a responsável corrigiu-o: o deputado “desconhece que a(o)s Conselheira(o)s das comunidades portuguesas não são de todo remunerados”.

Comentando à demissão de Luísa Semedo, o líder do partido de extrema direita que é totalmente contra a imigração apelou para que “mais uns tantos e tantas” conselheiro(a)s daquele órgão “lhe sigam o caminho”.

No entanto, Luísa Semedo explicou o papel dos 80 membros que integram aquele órgão que dá a voz às regiões e cidades portuguesas no processo legislativo europeu.

“(…) Este cargo para o qual fomos eleitos pelos portugueses residentes no estrangeiro é voluntário e não é nenhum tacho”, disse a dirigente demissionária, considerando “constrangedor que este jovem aspirante a Presidente de toda(o)s a(o)s Portuguesa(e)s não tenha nenhum conhecimento das Comunidades e seja um perigo para os seus compatriotas que vivem no estrangeiro”.

No fim de semana, Luísa Semedo demitiu-se das funções daquele órgão consultivo do Governo para as políticas relativas à emigração e às comunidades portuguesas no estrangeiro, após André Ventura anunciar que será candidato à presidência da República.

A responsável justificou a decisão de se afastar do cargo com o facto de o deputado do partido Chega tomar, sucessivamente, “posições racistas”, aliás, “já conhecidas” dentro e fora do Parlamento.

“O diálogo entre opiniões adversas é possível quando os interlocutores se reconhecem como Iguais”, pelo que “não posso ser a anfitriã e a interlocutora de quem me considera como inferior”, disse.

Luísa Semedo salientou que, “enquanto portuguesa, mulher, emigrante, antifascista, afrodescendente e mãe”, sente-se “diretamente atacada pela ideologia disseminada por este partido (Chega) e pelo seu representante”.

“Considero que foi um grave erro que um personagem já conhecido pelas suas tomadas de posição racistas, tenha obtido a autorização de fundar um partido, esteja hoje na Assembleia da República e pronto a disputar o lugar de Presidente da República”, refere Luísa Semedo.

Numa nota divulgada nas redes sociais, aquela dirigente considera que “André Ventura representa um partido que se ataca aos direitos das mulheres, das pessoas ciganas, negras, muçulmanas, das pessoas LGBT, aos direitos dos refugiados, que propaga incitação ao ódio, que se ataca de forma descomplexada no seu programa aos valores de Abril, aos sindicatos, que tem pretensões de elaborar mudanças radicais na nossa Constituição, de implementar uma nova ´República` e que abriga no seu seio fascistas e nazis”.

Sem se referir diretamente ao líder do único partido de extrema direita português, Luísa Semedo descreveu como crime os pronunciamentos do deputado André Ventura, que, recentemente, apelou para devolução de Joacine Katar Moreira ao seu país de origem, após a parlamentar apresentar uma proposta de restituição de obras de artes existentes nos museus portugueses às antigas colónias de Portugal.

“Não lhe reconheço legitimidade, penso que é fruto de uma anomalia, de uma falha do nosso sistema democrático. O racismo, o fascismo, o nazismo, o sexismo, a homofobia não são opiniões, são crimes”, disse Luísa Semedo.

Há dias, os líderes parlamentares censuraram o comentário de André Ventura sobre Joacine Katar Moreira, tendo o presidente da Assembleia da República considerado de “declarações xenófobas”, mas que o líder do Chega disse tratar-se de uma “ironia”.

E porque a presidente da Conselho Regional da Europa (CRE) do Conselho das Comunidades Portuguesas não concebe “dialogar, dar legitimidade, banalizar quem defende práticas criminosas que contrariam os valores de Igualdade, Justiça e Liberdade essenciais numa Democracia” Luísa Semedo decidiu afastar-se do cargo, antes de partilhar o mesmo espaço com André Ventura numa reunião agendada para breve.

“Aproxima-se a reunião anual do CRE e, até hoje, sempre fez parte das nossas práticas democráticas o convite a todas as Deputadas, Deputados e partidos com assento parlamentar para estarem presentes e poder haver um espaço de diálogo com as Conselheiras e Conselheiros do CRE”.

“Esta posição que emana de uma ética de convicção e que é, portanto, pessoal”, diz Luísa Semedo “não me pode fazer perder de vista a ética da responsabilidade que me obriga a ter em conta o facto de que represento enquanto Presidenta do CRE outras visões que tenho o dever de respeitar”.

Por isso, assegurou, “continuarei como Conselheira até ao fim do meu mandato e é nesse cargo pelo qual respondo e como cidadã que lutarei sempre, com todas as minhas forças, contra todo o tipo de visões e práticas hierarquizantes e excludentes do Outro”.

O órgão, composto por um máximo de 80 membros, eleitos pelos cidadãos portugueses residentes no estrangeiro que sejam eleitores para a Assembleia da República, emite pareceres, a pedido do Governo ou da Assembleia da República, sobre projetos e propostas de Lei e demais projetos de atos legislativos e administrativos, bem como sobre acordos internacionais ou normativos comunitários relativos às comunidades portuguesas na diáspora. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here