Andredina Cardoso, a candidata afrodescendente do PS que luta pela união da “diáspora altamente qualificada”

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Andredina Cardoso

A luso-cabo-verdiana Andredina Cardoso é a única candidata afrodescendente na lista de deputados suplentes do PS pelo círculo eleitoral de Setúbal, em Portugal, onde há quase três décadas luta em defesa dos direitos de “uma diáspora altamente qualificada e colocada em todas as áreas, mas com dificuldade em trabalhar em conjunto”.

“Se olharmos para todo uma diáspora que existe no espaço europeu, verificamos que temos uma diáspora altamente qualificada e colocada em todas as áreas”, diz ao jornal É@GORA Andredina Cardoso, que decidiu abraçar a política após anos de ativismo social iniciados na década de 80, o que lhe permitiu participar desde o início em quase todas as frentes de luta pela implementação de políticas públicas em prol dos imigrantes e das minorias racializadas em Portugal.

“Eu sou uma pessoa que tenho talvez uma multiplicidade de ações, porque movo-me em áreas diferentes e isso dá-me oportunidade de junto de diferentes pessoas que estão em diferentes áreas poder transmitir uma série de informações que são muito úteis às pessoas, porque acaba por haver também uma grande falta de informação. Apesar de se falar muito no assunto ao nível geral, depois nas coisas muito específicas de como se passa do ponto A para B há muita desinformação”, aponta.

E exemplifica. Enquanto gestora local de programa saúde oral num centro de saúde em Setúbal, onde trabalha com “muitos imigrantes que vão aparecendo de há uns anos para cá” Andredina Cardoso tem verificado que, por falta de informação, muitos estrangeiros continuam a não usufruírem dos direitos que lhes assiste, tal como ter acesso gratuito a uma simples consulta para previr a cárie dentária.

No dia a dia, a candidata do PS trabalha com as escolas onde é desenvolvido o programa cujo propósito é permitir que crianças de sete, 10 e 13 anos tenham acesso a uma consulta integral de saúde oral.

“Acontece que para entrar no programa de saúde oral é preciso que a criança esteja inscrita no Sistema Nacional de Saúde (SNS). E depois acabo por me deparar com várias situações em que as crianças não estão inscritas no SNS e muitas vezes isso tem a ver com o desconhecimento que existe das pessoas (pais e encarregados de educação) e também com a informação que não é prestada de forma adequada”, afirma.

Segundo Andredina Cardoso, “por vezes, os próprios funcionários que estão nos serviços, a nível da saúde, segurança social, têm falta de formação sobre o que existe e isso faz com que a informação que é transmitida às pessoas por vezes não seja a mais correta, ou aquela que é o caminho mais curto para a pessoa exercer o seu direito”.

Com formação na área da Saúde, a candidata socialista é igualmente membro de uma rede de organizações que defende os direitos humanos da diáspora africana dentro da Europa, que é considerada a sexta região de África pela sua dimensão, resultado de uma classificação que a repartiu em três patamares diferentes:

“Temos sítios onde a diáspora anda a correr à frente dos ´skinheads`; temos outros locais onde a diáspora está altamente organizada, extremamente estruturada e consegue prestar serviço de grande qualidade não só à diáspora, mas também à população que rodeia as várias instituições constituídas por essa mesma diáspora”, explica.

E nessa distinção, diz: “a realidade portuguesa” demonstra que Portugal “está no bloco do meio, onde temos uma diáspora altamente qualificada, mas com dificuldade em trabalhar em conjunto”, frisa Andredina Cardoso que garante incidir as suas ações nesse campo caso seja eleita deputada nas eleições legislativas de domingo, dia 06 de outubro.

“Para mim que vivo em Portugal desde sempre – tenho 48 anos e vim para cá com três anos -, o maior problema é, de facto, conseguirmos todo um manancial que existe e pô-lo ao serviço do país, trabalharmos uns com os outros. A tal força do uno”, afirma.

Mas o trabalho de candidata afrodescendente referentes às políticas de imigração terá um suporte documental: por um lado, o plano nacional do governo português, com 97 medidas concretas para aplicar o Pacto Global das Migrações e, por outro, o capítulo das imigrações do programa eleitoral do PS, a força política que, segundo considera Andredina Cardoso, tem demonstrado “consistência nessas matérias” há quase “40 anos”.

“Se olharmos para trás podemos ver que nos anos 90 as primeiras regularizações extraordinárias foram propostas do PS, assim como a lei da nacionalidade, o regime jurídico das associações, a lei contra a discriminação racial. Todas essas leis demonstram que o PS tem não só um princípio, mas também uma visão, uma trajetória e consolida de facto aquilo que são os seus propósitos no sentido de termos uma sociedade mais justa e equilibrada”, afirma a candidada do PS num vídeo promocional da sua campanha eleitoral.

E em declarações ao jornal É@GORA, Andredina Cardoso reivindica o seu espaço em todo processo regularização dos imigrantes, lembrando que, para tal, é preciso fazer a retrospetiva histórica e ver como e onde é que Portugal estava nessas matérias “há 40, 30, 20 anos”.

“Eu acompanhei todo esse processo desde as primeiras regularizações extraordinárias, do porta-a-porta, dar informação às pessoas acerca dessas questões, toda a logística. Estive sempre envolvida nessas etapas e há uma diferença enorme daquilo que havia naquela altura para aquilo que existe hoje. Muitas vezes as pessoas não têm consciência disso, principalmente, a geração que tem menos de 30 anos não tem muita noção de como as coisas se passavam há 40, 30 anos, porque ainda eram muito pequenos, e da diferença dos avanços que já se deram nessas três décadas” afirma.

No entanto, reconhece que “há muita coisa para se consolidar”,

“É verdade”, diz Andredina Cardoso, para quem, no entanto, “a legislação também avançou imenso”, por exemplo, “hoje, permite uma série de coisas”, embora “a concretização daquilo que está na lei ainda esteja muito aquém daquilo que a própria lei permite”.

O trabalho que a candidata luso-cabo-verdiana pretende desenvolver futuramente no Parlamento para melhora o campo da imigração em Portugal passam por conjugar a sua experiência pessoal enquanto imigrante com o uso das ferramentas adquiridas desde que iniciou o trabalho de ativista social.

“Eu tenho um outro olhar (das coisas), não só daquilo que é conhecimento da própria lei. Eu tenho a vivência”, assegura Andredina Cardoso para quem “a Educação tem um papel muito importante a desempenhar” nessas matérias.

“Há muitas questões que acabam por passar ao lado dos educadores, professores. Há muitas coisas que se passam nas escolas, ao nível do intervalo, das interações aluno a aluno que os professores por vezes nem se apercebem”, nomeadamente, as manifestações subliminares do racismo nos estabelecimentos de ensino.

“Exemplo: as crianças se apercebem da diferença da cor da pele quando vão para o infantário, onde os outros começam a chamar-lhes de pretos. Muitas vezes as crianças começam a interiorizar essas diferenças quando vão para escola. Não é na adolescência que os alunos de repente se confrontam com essas questões. São questões que veem muito de trás e que vão acumulando e que a escola ainda não tem todas as ferramentas para conseguir desmistificar e diluir essas coisas”, diz.

A promoção da cultura africana e não só nas escolas também é uma opção defendida por Andredina Cardoso, até porque “é preciso que as pessoas conheçam mais aquilo que são outras culturas”.

“Tanto as embaixadas como todos nós temos um papel nisto”, conclui. (MM)

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