Aos 74 anos Gualdina Monteiro promove ensaios de Batuque por videochamada devido à pandemia

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Gualdina Monteiro - carinhosamente tratada por Florzinha - vocalista das Batucadeiras de Coração Aberto. Foto retirada no Facebook

Manuel Matola

Aos 74 anos, a cabo-verdiana Gualdina Monteiro tem a grande missão de (re)erguer, na zona da Quinta do Conde, na Margem Sul, as Batucadeiras de Coração Aberto, um grupo que integra elementos de várias gerações e nacionalidades, na diáspora, visando imortalizar o Batuque, o património cultural e também o género musical e de dança de Cabo Verde.

Neste domingo, numa cerimónia alusiva ao Dia da Mulher Cabo-Verdiana, que se assinala a 27 de março, as Batucadeiras de Coração Aberto voltaram a apresentar os seus primeiros números musicais após dois anos de interregno devido à Covid-19 que ditou a dispersão das companheiras mais velhas de um grupo que hoje inclui novos elementos, alguns dos quais na casa dos 10 anos.

Desde muito nova, Gualdina Monteiro – carinhosamente tratada por Florzinha – está envolvida com o Batuque e já passou pelo teatro. “Isso tudo está no sangue”, garante. “Com a minha idade – tenho 74 anos – já não podia estar nisso, mas eu gosto. Tenho espírito disso e a ideia é não deixar morrer o Batuque, que é a nossa alma, nossa raiz”, diz em entrevista ao jornal É@GORA “A Voz da Inspiração” que pretende fazer a passagem geracional de uma cultura.

À convite do Fundo de Apoio Social de Cabo-Verdianos em Portugal, Gualdina Monteiro lidera hoje um projeto musical e de dança tradicional cabo-verdiana onde a própria vocalista se viu pela primeira vez confrontada com os desafios das novas tecnologias para proceder aos ensaios que decorrem sobretudo por videochamada. Teve que se adaptar ao digital, uma ferramenta para si ainda um bocado difícil, mas de fácil manuseamento para os novos membros do grupo.

“Nem sempre dá para nos juntarmos todas as semanas. Eu já não trabalho mas outros (elementos do grupo) trabalham ou moram longe. É preciso ter transporte. Nem todos têm, por isso é que ensaiamos via internet”, revela a batucadeira cabo-verdiana Gualdina Monteiro explicando ao jornal É@GORA como é que tudo funciona.

“Temos uma lista de músicas que espalhamos por todos. Basta termos música feita, vamos ensaiar”, diz soltando uma gargalhada quando questionada sobre como terá sido a sua primeira relação com as novas tecnologias.

“Tenho dificuldades com a Internet, mas os meus netos me ajudam a entrar no site para fazer alguma coisa”, diz esclarecendo que a tal “alguma coisa” é a persistente tentativa de unir os elementos das Batucadeiras de Coração Aberto.

“É puxar para ficarmos unidos. Arranjamos aquela estratégia de cada um ficar em sua casa, fazermos as músicas e ensaiarmos”, afirma a batucadeira que no final do show na Quinta de Conde decidiu lançar um repto a todos os poetas, artistas e cidadãos comuns para que escrevam letras e poemas para serem cantados e tocados pelas Batucadeiras de Coração Aberto.

Todas serão retrabalhadas, assegura: “Assim como fiz hoje. Essa que cantei fui eu que fiz. De cada vez que eu ouço uma coisa eu encaixo no lugar certo cada palavra, cada letra”, sempre “à procura de atualidade” dos temas a cantar e dançar em palco.

E para o ano 2022, há só uma perspetiva: “Pensamos seguir em frente, só que não sabemos como é que é, se haverá convites para tocar. De princípio começamos a trabalhar com a Câmara de Sesimbra que dava apoio, mas eles acabaram com isso. Agora que estamos a recomeçar, vamos ver como vai evoluir”.

A jovem cabo-verdiana Isabeth Monteiro é o elemento que faz a ponte de idade entre as várias gerações que compõem as Batucadeiras de Coração Aberto, grupo do qual faz parte a sua mãe, já na casa dos 50/60 anos, e a irmã mais nova com 29 anos, além de outros membros, alguns dos quais na casa dos 10 anos.

“Temos aqui uma grande escada” de idades, afirma Isabeth Monteiro que, hoje com quase 40 anos, tem a flexibilidade de colaborar no grupo musical no campo das tecnologias como a nível linguístico, dado que a quase totalidade dos membros mais novos do grupo têm o português como língua materna, mas nem sempre dominam o crioulo de Cabo Verde, o idioma usado para acompanhar as cantigas do Batuque.

Foto retirada do Facebook das Batucadeiras de Coração Aberto
“Nós os jovens usamos mais as redes sociais, foi por isso que também falamos na questão de nos juntarmos quando não podemos estar todos juntos fisicamente. Juntarmo-nos através do WhatsApp ou de outras vias para fazermos videochamadas. Para nós é muito mais fácil, sobretudo hoje em dia com essa crise toda de gasolina não dá para andarmos por aí de carro – a maioria de nós é de Sesimbra, uma é de Setúbal – e juntarmo-nos todas na Quinta do Conde ou no Azeitão onde vive a dona Florzinha. Daí surgiu essa ideia de nos juntarmos todos através da Internet. Ao fim e ao cabo acaba por ser a mesma coisa, porque conseguimos cantar, ouvir-nos umas as outras e batucar acompanhando a dona Florzinha nas cantigas que ela tira”, explica Isabeth Monteiro.

As Batucadeiras de Coração Aberto é composto para já por nove elementos, o que corresponde a metade do número indicado para um grupo de Batuque. “O limite de batucadeiras (num grupo) são 18 pessoas”, esclarece Gualdina Monteiro, vocalista da banda musical que já contou com nacionais de países como Portugal, mas que hoje tem apenas uma não cabo-verdiana: uma imigrante brasileira.

“Mas estamos abertos para receber cidadãos de outros países que queiram aprender a cultura cabo-verdiana”, afirma, entretanto, a jovem cabo-verdiana Isabeth Monteiro, que além de batucadeira é massagista e assistente de fisioterapia de profissão.

Apesar de os ensaios decorrerem virtualmente, as Batucadeiras de Coração Aberto não pretendem fazer apresentação formal de espetáculos no formato digital porque, diz a líder, “não é a mesma coisa”.

No grupo que pretende fazer a passagem geracional dos elementos de Batucadeiras de Coração Aberto não há um período estipulado para a formação de novos membros: “Depende de cada um como acompanha o ritmo” que vai permitir a sua integração nos espetáculos, diz Florzinha, vocalista que se recusa a designação de líder do grupo: “Somos todos iguais”, diz a batucadeira que, aos 74 anos, tem uma visão para o futuro: “Quero levar isso mais além”.

À pergunta sobre o que seria ir “mais além”, responde: “É arrastar os mais pequeninos a dançar, a conhecer a música e a batucar porque nem tudo tem o mesmo ritmo: há dois. Eu dou os dois. Por isso tenho que arranjar esquema para lhes ensinar”. (MM)

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