Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional e a vitória política de Joacine: “É um dia histórico”

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Deputada Joacine Katar Moreira

Manuel Matola

O Parlamento português aprovou por unanimidade a primeira proposta da deputada não inscrita Joacine Katar Moreira, ao concordar na homenagem simbólica de Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional.

Desobedecendo às ordens do então presidente do conselho, António de Oliveira Salazar, que liderava o governo, Aristides de Sousa Mendes, então cônsul de Portugal em Bordéus, França, emitiu vistos que salvaram milhares de pessoas do Holocausto em plena Segunda Guerra Mundial.

Apesar de não implicar a habitual trasladação para o Panteão Nacional, o projeto apresentado por Joacine Katar Moreira visa homenagear o antigo cônsul português na forma de um túmulo sem corpo.

O jornal É@GORA publica na íntegra o discurso da parlamentar que, pela primeira vez, recebeu aplausos da esquerda parlamentar (PS, BE, PCP) e alguns deputados do PSD, naquele que, segundo considerou a própria deputada Joacine Katar Moreira, “é um dia histórico” para a Democracia Portuguesa.

“Começo por saudar os familiares de Aristides de Sousa Mendes.

Saudar a Fundação Aristides de Sousa Mendes.

A Comunidade Judaica de Lisboa.

E a população de Cabanas de Viriato.

Esta iniciativa legislativa pretende homenagear e perpetuar a memória de Aristides de Sousa Mendes enquanto figura heróica da memória portuguesa, enquanto património nacional, enquanto legado ético e uma herança da sociedade civil, um exemplo virtuoso para as gerações vindouras, pela defesa dos valores humanistas, da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade, da bondade, da empatia e da coragem.

Aristides de Sousa Mendes priorizou a consciência ética sobre os ditames da lei de um estado fascista. Num gesto de dissidência, salvou milhares de vidas da perseguição da cultura de violência do regime nazi. Pagou, por isso, um preço elevadíssimo, tendo morrido na miséria. Uma injustiça só parcialmente retificada pelo estado democrático.

Aquilo que legitima os grandes gestos é a sua contemporaneidade porque é hoje em dia é que se convoca a história. Neste sentido, é importante nós resgatarmos as referências éticas num momento, como hoje vivemos, de crise de refugiados e de ataques aos valores democráticos.

O gesto humanista e humanitário de Aristides de Sousa Mendes aconselha-nos a que olhemos para cada um de nós, para os nossos estados, para as nossas ideologias, para as nossas políticas e não nos esqueçamos que às vezes desobedecer, por vezes, é um ato de absoluta democracia e de empatia pelo outro.

Aristides de Sousa Mendes é hoje uma referência ética, mas uma referência que ainda carece de um reconhecimento institucional e de Honras do Panteão Nacional. Conceder a Aristides de Sousa Mendes estas honras é reconhecer oficialmente a sua herança. A sua herança ética, repito, e a sua herança de civilidade.

É, ao mesmo tempo, necessário que o estado português reconheça hoje Aristides de Sousa Mendes aquilo que o estado fascista não reconheceu. É preciso que o estado democrático tenha uma atitude diferente daquela que teve o estado fascista, o estado autoritário.

Neste sentido, incentivo todos os partidos e todos deputados a que hoje se ergam e nos ajudem a oficializar e a reconhecer esta herança, que é uma herança da democracia, é uma herança de resistência e é uma herança de humanismo”. (X)

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