Arquiteta italiana faz mapeamento dos afrodescendentes na Área Metropolitana de Lisboa

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Ponte 25 de Abril, que separa Lisboa central dos outros espaços urbanos da capital portuguesa
Manuel Matola

A arquiteta italiana Elena Taviani está a fazer o mapeamento dos afrodescendentes na Área Metropolitana de Lisboa, analisando a sua “marginalização” no espaço urbano decorrente das políticas habitacionais nos últimos 60 anos, cujo impacto é hoje “dificilmente reversível”.

“As políticas de habitação das últimas seis décadas criaram uma situação habitacional dificilmente reversível na Área Metropolitana de Lisboa”, diz Elena Taviani, numa análise relativa à trajetória espacial dos afrodescendentes nos 18 municípios de Lisboa, que publicou na revista científica de Estudos Urbanos “Cidades, Comunidades e Territórios”, editada pelo ISCTE-IUL.

A arquiteta vinculada ao Gran Sasso Science Institute, na Itália, refere que a divisão social do espaço habitacional da cidade de Lisboa “mostra claramente” que os afrodescendentes foram impelidos a ocupar “uma posição marginal no espaço urbano” que compõe os municípios da capital portuguesa.

Segundo Elena Taviani, essa situação levou a que com o tempo alguns dos bairros habitados maioritariamente pela população imigrante fossem rotulados de “no-go area”, ou seja, “um local com uma reputação de violência e criminalidade, que faz com que as pessoas tenham medo de lá entrar”.

“Apesar da participação dos afrodescendentes na história do país e na construção física e da identidade de Lisboa e não obstante partilharem valores e aspetos culturais com a população nacional, nunca foram adotadas políticas capazes de reduzir a sua marginalização”, escreve.

Por isso que, no âmbito do doutoramento em Estudos Urbanos, a investigadora está agora a desenvolver uma inédita pesquisa para saber “qual é a geografia residencial das populações afrodescendentes dentro do espaço metropolitano de Lisboa”.

A categoria de afrodescendentes que a pesquisadora aborda neste estudo indica os grupos sociais heterogéneos compostos pelos imigrantes dos PALOP, bem como pelos seus descendentes, mesmo os que já tenham nacionalidade portuguesa.

O trabalho intitulado “Das políticas de habitação ao espaço urbano: Trajetória espacial dos Afrodescendentes na Área Metropolitana de Lisboa” pretende fazer “o reconhecimento da marginalização residencial dos afrodescendentes no espaço metropolitano de Lisboa como resultado das políticas de habitação em apreço”, refere a arquiteta.

Em declarações ao jornal É@GORA, Elena Taviani explicou como surgiu a ideia do projeto sobre o mapeamento de afrodescendentes na área metropolitana de Lisboa, cuja “presença dá uma força incrível à sociedade, mas é muito pouco reconhecida” pelas autoridades portuguesas.

Quando há cinco anos a arquiteta italiana chegou a Lisboa ficou “muito impressionada pela cidade em si e pela africanidade” que nunca tinha visto noutras cidades europeias e, um dia, ocorreu-lhe um episódio no comboio na linha de Sintra que a levou a questionar sobre a presença descomunal de afrodescendentes neste espaço urbano.

“Apanhei o primeiro comboio numa manhã e eu era a única branca europeia. O resto eram todas mulheres negras que iam para o trabalho. Isso tocou-me muito. Foi a gota que me fez pensar que era o tema que queria pesquisar”, conta a pesquisadora.

E desde então traçou balizas para desenvolver o seu trabalho: “o primeiro passo é (procurar) saber aonde é que estão essas pessoas”, disse Elena Taviani, que aponta para duas hipóteses de pesquisa – a primeira, é que são pessoas que vivem em “lugares muito marginais”; a segunda, é que “essas pessoas dão um caráter único a essa cidade”.

“Acho que é por isso que todas as pessoas estão interessadas em Lisboa, devido ao seu caráter único da cidade, porque, além desta particularidade (da africanidade), Lisboa não é muito diferente de outras cidades. Há quem diga que essa é uma cidade exótica. Há quem diga que Lisboa é a cidade mais africana da Europa. Eu acho que é. E é mesmo isso que as pessoas estão interessadas em perceber”, sobretudo “os estrangeiros que são muito curiosos nessa parte”.

No entanto, acrescenta: “da parte política, do lado do governo, (Lisboa) é pouco reconhecida (nessa questão). É muito pouco reconhecida essa identidade (multicultural), essa (que até) ajuda na construção das pessoas afrodescendentes”.

Embora o foco do estudo seja “mais a representatividade”, a geografia residencial dos afrodescendentes “é só o primeiro passo”, diz Elena Taviani em conversa com o jornal É@GORA.

“O que realmente eu quero confirmar através dessa investigação é que a área metropolitana de Lisboa tem uma presença africana fortíssima, longínqua”, que, pode resultar do “fluxo migratório” que “foi moldado também pelas políticas económicas e de habitação adotadas pelo governo de Salazar”, esclarece.

Aliás, no texto publicado na revista científica de Estudos Urbanos, a pesquisadora refere que “os fluxos migratórios para Portugal estão intrinsecamente ligados à sua história colonial, especialmente no que diz respeito a África, sendo que têm moldado decisivamente a paisagem humana do país, bem como a sua identidade nacional”.

Falando ao jornal É@GORA, a arquiteta insiste no propósito da pesquisa: “Mas aquilo que eu quero sublinhar é a comum situação de marginalidade na cidade, porque ao final do dia sofre-se a discriminação, nota-se um menor acesso à habitação, ao trabalho todos ao mesmo nível, tanto os que têm nacionalidade portuguesa como com os sem nacionalidade”.

Até porque, sublinha, “não é tão verdade que quem, sendo negro, tem a nacionalidade portuguesa tenha mais possibilidades nessa sociedade. É verdade que quem tem um documento tem outras possibilidades”.

“Mas”, exemplifica, “o meu marido, que é negro afrodescendente, na rua é tratado como quem não tem nacionalidade portuguesa. Eu que sou branca nunca ninguém pediu a minha nacionalidade (italiana), porque não é uma questão, na realidade”.

Por isso, “a evolução da geografia residencial das populações afrodescendentes e os contributos das políticas de habitação para essa geografia permanecem um assunto relevante”, defende Elena Taviani. (MM)

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