As 6 antigas vizinhas em Beirute que ajudam a reconstruir o Líbano a partir da diáspora

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FOTO: AFP ©

Manuel Matola

A fotógrafa freelancer e cinegrafista libanesa Maha Maalouf é líder em Lisboa de uma campanha que pretende angariar quase 10 mil euros para apoiar 13 famílias de Beirute, onde “há um rosto conhecido” de cada uma das seis amigas que decidiram promover a ação humanitária em prol de antigos vizinhos que ainda resistem “atrás de cada edifício” destruído na explosão do passado dia 04 de agosto.

“Somos seis mulheres a trabalhar na arrecadação de fundos” a nível mundial, conta Maha Maalouf ao jornal É@GORA sobre a causa abraçada por seis antigas vizinhas na capital do Líbano em benefício das famílias que moram nas redondezas do Porto de Beirute e sobreviverem à explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amónio que causou a morte de 220 pessoas “deixando muitos” outros libaneses “sem esperança”.

Na lista estão pessoas que precisam de dinheiro por motivos diversos: uma mulher com cancro, viúvas, idosas desprovidas de recursos financeiros em plena crise económica no país, jovens deficientes, incluindo alguns que ficaram gravemente feridos no incidente e agora carecem de assistência médica para recuperar, por exemplo, a visão.

Segundo a imigrante residente em Lisboa, o valor mais alto que o grupo pretende obter “para ajudar a aliviar estas famílias” é de 1500 dólares (1.263 euros), mas há quem precise muito menos – 295 euros – por não ter como consertar as janelas que estão partidas devido à explosão.

E porque com “a estação chuvosa e o inverno estarão para breve”, as portas e janelas necessitam, portanto, “de ser reparadas o mais rapidamente possível”, para além que, por outro lado, algumas destas pessoas “precisam de assistência médica urgente”.

“A comunidade internacional de doadores assegurou também o financiamento monetário”, mas “pela nossa experiência pessoal e profissional sabemos que leva muito tempo até que este apoio chegue às pessoas certas”.

Entre as promotoras há quem esteja a dinamizar a iniciativa a partir do centro do Líbano, mas Maha Maalouf e parte das amigas fazem o trabalho mesmo estando nos países de imigração.

“Todas nós já moramos em algum momento em Beirute, algumas de nós estão no terreno identificando famílias necessitadas e o resto de nós está a tentar encontrar pessoas para apoiar a nossa causa” e, posteriormente, canalizar a verba diretamente às pessoas que requerem de ajuda, diz a fotógrafa e cinegrafista.

Lançada há duas semanas, a campanha pretende juntar 9.700 euros e o trabalho vai de vento em popa, pois, até ao momento, já conseguiram 6.477 euros, o que corresponde a cerca de 65% da meta traçada. Os doadores são de Portugal, Estados Unidos da América, Alemanha, Espanha, França, Roménia e Emirados Árabes Unidos.

“Esperamos atingir nosso objetivo nas próximas semanas”, afirma a imigrante libanesa que há dois anos optou pelo reagrupamento familiar passando a residir com o marido na capital portuguesa. Após um longo exercício de ida à Beirute e voltas sucessivas à Lisboa para visitar o parceiro, Maha Maalouf acabou por ficar retida em Portugal devido à Covid-19, e foi pela televisão, cá, que acompanhou a explosão da capital libanesa onde trabalhava como fotógrafa freelancer e cinegrafista em organizações internacionais que prestam auxílio a refugiados.

Pobreza

Na página oficial da campanha em que pedem o ajuda às famílias de Beirute justificam:

“Estamos a unir forças e a pedir o vosso apoio para ajudar as famílias mais necessitadas e esmagadoramente sobrecarregadas pela explosão. Não só os cidadãos de Beirute estão a atravessar o rescaldo de uma cidade destruída devido à explosão no Porto. Mesmo antes disso a situação económica para as pessoas estava em queda, com a moeda nacional a perder 80% do seu valor devido à crise económica e à pandemia que obrigava as empresas a fecharem e os indivíduos a perderem o seu sustento”.

E como resultado, prosseguem, pelo menos, “50% da população caiu na pobreza”, pelo que a explosão no Porto de Beirute “é a ponta do iceberg” de um problema que está a deixar muitos libaneses “sem esperança”.

Apesar da consciência de que existem atualmente muitas Organizações Não Governamental no terreno para apoiar na reconstrução de edifícios de Beirute, as seis jovens libanesas dizem ter noção do tempo que leva o apoio até que chegue “às pessoas certas”.

Maha Maalouf
E em tempos de pandemia, diz Maha Maalouf ao jornal É@GORA, há sempre restrição – na verdade, “a única” – que é: como chegar até as famílias, visitá-las e saber da sua situação.

“É claro que com a pandemia fica mais difícil fazer algum trabalho no terreno. O resto do trabalho é feito online, compartilhando nossa campanha e contando às pessoas sobre ela”, diz.

As promotoras da ação humanitária consideram por isso que esta campanha representa uma esperança para inverter a situação de quem realmente necessita de apoio naquele país localizado no Médio Oriente.

“Devido à falência do sistema bancário libanês”, as seis jovens libaneses pretendem assim “levar a doação em dinheiro diretamente para o Líbano” e entregar às famílias “o mais rapidamente possível”, referem.

“Os donativos recolhidos através desta iniciativa serão distribuídos às famílias e indivíduos acima referidos para pagar as contas hospitalares de pessoas que ficaram gravemente feridas pela explosão, para pagar obras de reparação de janelas, portas, móveis e equipamentos destruídos devido à explosão e para ajudar estas famílias a retomarem as suas vidas. Algumas casas também estão estruturalmente danificadas, o que causou o corte da eletricidade e da água e as famílias não têm dinheiro para um gerador”, asseguram.

Quem são os beneficiários?

Cada uma das vítimas da explosão tem a sua estória de vida, mas razões diversas para beneficiar do peditório convergem na precariedade da sua situação, segundo o relato das organizadoras da campanha:

1) M.H. é uma viúva idosa que não tem nenhum rendimento estável. A sua situação financeira é muito má e ela teve a sua casa muito afetada pela explosão. Precisa de 500 dólares para voltar a pôr a vida nos eixos.

2) G.S. é um jovem libanês que foi gravemente ferido pela explosão, precisa de assistência médica para recuperar a visão. A conta dele no hospital é de 1000 dólares e precisa da tua doação.

3) P.Y. é uma jovem mulher casada e tem 5 filhos, as janelas da casa foram destruídas pela explosão e precisam de 350 dólares para consertá-los.

4) M.F. é uma jovem mulher casada e tem 5 filhos, eles estão em grandes dificuldades financeiras. A porta foi destruída pela explosão e precisa de 350 dólares para consertá-la.

5) S.Z. é uma viúva que vive com o seu filho deficiente e ambos estão sob tratamento médico. A explosão quebrou o teto e as janelas e precisam de 500 dólares para ajuda com as contas médicas e reparar as janelas.

6) K.N. é um jovem sírio casado e tem 3 filhos, escapou da guerra na Síria e vive muito perto do Porto. A casa dele foi completamente danificada pela explosão e estão numa situação financeira muito difícil. Precisam de 1000 dólares para voltarem a ter a vida nos eixos.

7) K.L. vive com a família de 7 membros perto do local da explosão. A casa deles estava danificada e a mãe está doente e em tratamento médico. O rendimento da família não é suficiente para cobrir a destruição da explosão. Precisam de 1.0000 dólares para ajudar a consertar a casa.

8) A.S. é uma idosa que vive sozinha. A explosão partiu-lhe a janela e a porta, e precisa de 400 dólares para as arranjar.

9) M.P. é uma jovem viúva que vive com o seu único filho. Ela necessita de 350 dólares para consertar as janelas que estão partidas devido à explosão.

10) T.S. é uma velha aposentada que vive ao lado do local da explosão. As janelas e a porta da casa estão partidas devido à explosão. Tem um pequeno salário mensal que perdeu o seu valor devido à crise económica. Precisa de 1.500 dólares para reparar os danos na casa antes do inverno.

11) J.H. é um jovem que vive com os pais, a irmã e o filho da irmã que foram abandonados pelo pai. A situação financeira deles é muito má. Uma vez que ambos os irmãos estão desempregados, já passaram dois anos. A casa deles foi gravemente afetada pela explosão e precisa de ser reparada. Precisam de 1.500 dólares para refazer a vida.

12) A M.S. vivia com a mãe, que faleceu há pouco tempo. A sua casa virada para o Porto ficou gravemente danificada, bem como o seu carro, e o seu salário em LBP não cobre a fixação das janelas, portas e teto. Precisa de 1.500 dólares para reparar a destruição na casa dela.

13) K.A. vive sozinha no seu apartamento perto do Porto. Ela tem cancro e não pode pagar as despesas médicas. Precisa de 1.500 dólares para consertar as janelas e portas, bem como para pagar uma pequena parte do tratamento. (MM)

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