As ´startups` de jovens afrodescendentes na semana da Web Summit em Lisboa

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Manuel Matola

Na semana em que Lisboa acolhe a Web Summit, o jornal É@GORA dá a conhecer algumas ´startups` de jovens afrodescendentes residentes em Portugal, que desenvolvem projetos inovadores similares aos que desfilam na maior conferência tecnológica de empreendedorismo no mundo.

O angolano Sidney Francisco é um dos mentores da “Tellas”, uma plataforma digital que, garante, “tem a mesma base da Netflix, com todos tipos de conteúdos”, enquanto a luso-angolana Sílvia dos Santos acaba de criar uma editora de música responsável por um serviço de ´streaming` algo parecido com a Spotify.

Ambos jovens, na casa dos 20 e poucos anos, estão a dirigir projetos com potencial para ser dos maiores e mais lucrativos negócios online no mercado lusófono, e não só.

“Isso é o futuro. Acreditem”, diz Sidney Francisco, apontado para a página oficial da “Tellas”, um serviço de ´streaming` de vídeo no qual subscritores encontram uma variedade de conteúdos originais que são produzidos exclusivamente para a plataforma, desde filmes, séries, podcasts, curta-metragens, documentários e stand-up-comedy.

O empreendedor social angolano reconhece que a nova estrutura virtual é quase a réplica da mundialmente conhecida Netflix, a plataforma que também providencia filmes e séries de televisão via ´streaming`, a partir do Estado da Califórnia, nos Estados Unidos da América.

Entretanto, Sidney Francisco assegura que o conceito da sua plataforma foi definido integralmente por jovens angolanos, incluindo engenheiros informáticos, e com um propósito relativamente distinto da gigante norte-americana.

“Nós pegamos a camada que quer evoluir, que são os youtubers e toda a gente que quer evoluir”, enquanto influenciadores digitais, “porque o nosso objetivo é rentabilizar o máximo a plataforma”, afirma o empreendedor, assinalando, de seguida, a diferença, por exemplo, com o Youtube.

Sidney Francisco

A “Tellas”, enquanto plataforma, refere, “não é grátis” para quem publica os conteúdos online.

“É remunerável, ou seja, qualquer um de vocês que vier ter connosco e o conteúdo for aceite, o conteúdo é remunerado. Os valores não dependerão das visualizações”, explica Sidney.

Desde que o serviço foi lançado há um ano e meio, a “Tellas” já tem uma dimensão internacional.

“Nós começamos por nos focarmos ao mercado angolano. Já tive muitos portugueses a acederem a plataforma por causa de um vídeo de ´breakdance` e também uma proposta de um americano”, afirma Sidney.

A plataforma de música que Sílvia dos Santos e alguns sócios estão a desenvolver – basicamente “focada para a cultura” – terá a sede na capital moçambicana, Maputo, mas é igualmente um negócio com uma visão futura que perspetiva atingir o espaço virtual a nível global.

No entanto, ambas as plataformas têm algo em comum: inicialmente, pretendem atingir a quase totalidade dos produtores de conteúdos de vídeo, música e entretenimento nas províncias angolanas e moçambicanas. Mais tarde virar-se para o mercado lusófono e o mundial.

A ideia é fazer com que os beneficiários que residem fora das cidades capitais daqueles dois países lusófonos vejam as suas criações representadas na nova aplicação de música.

“Nós queremos que não sejam só os grandes (artistas) a ganhar dinheiro, mas que todos tenham oportunidades para tal”, explica Sílvia dos Santos, corresponsável pela editora Disruptive Noise Addicts, detida pela SOMODEC, que representa a plataforma.

O objetivo de permitir que os usuários tenham “acesso aos conteúdos de produtores angolanos” mesmo vivendo fora da capital angolana Luanda é também o da Tellas, diz o gestor, que reconhece que o seu projeto tem vindo a crescer vertiginosamente.

Atualmente, “estamos com 1.736” subscritores, confirma o responsável pela Tellas em mensagem enviada ao jornal É@GORA, que da última vez que teve acesso os dados sobre a plataforma constatou que, há três semanas, “eram menos” de mil assinantes.

“As pessoas não vão deixar de ver Netflix, é quase impossível, mas poderão começar a ver a nossa variedade de conteúdos. É o que tem acontecido”, assegura Sidney.

São vários os projetos de empreendedorismo digital que são desenvolvidos em Portugal por africanos e afrodescendentes enquanto Youtubers, bloggers/Instagrammers, empresários com lojas e negócios online de vária ordem, seja ele a nível de blogs, vídeos.

Quando há três semanas os influenciadores digitais africanos mais referenciados pelos usuários das redes sociais do espaço lusófono se reuniram no primeiro encontro em Lisboa para saber quem são e como promover os seus trabalhos no seio da comunidade portuguesa, o jornal É@GORA tomou nota dos mais de 20 que estavam presentes no evento, que antecedeu a Web Summit, e decidiu acompanhá-los diariamente nas suas redes sociais para perceber os vários conceitos das ´startup` que desenvolvem, sobretudo, em Portugal.

Lavínia Veiga, Boutique 107

Há três anos, a angolana Lavínia Veiga recebeu um bouquet com 107 rosas vermelhas oferecidas pelo esposo. E aquilo que era simplesmente um presente pelo seu 21º aniversário tornou-se num número importante para dar nome à sua ´startup` digital especializada em rosas de alta qualidade e para um segmento de luxo. A empreendedora apelidou o projeto de “Boutique 107”.

“Este foi o gesto que me influenciou na hora que decide empreender e assim surgiu aquilo que com muito prazer eu chamo de Boutique 107”, diz Lavínia sobre um negócio online que mexe com as rosas de Equador da primeira linha.

E a boutique, que era para ser apenas uma ´startup` digital, acabou por ganhar notoriedade e, no ano passado, surgiu a oportunidade de a empresária angolana ser convidada para ocupar um espaço físico num dos mais emblemáticos centros comerciais na zona nobre de Lisboa.

“Há um ano abri a minha loja no átrio de Saldanha”, diz Lavínia sobre a sua “florista de luxo atípica, onde a elegância e bom gosto acabam por se cruzar nos bouquets exclusivos de rosas”, cuja duração varia entre sete e 10 dias, dependendo da qualidade.

Na semana em que a capital portuguesa acolhe um dos maiores eventos tecnológicos, que junta empreendedores e inovadores do mundo, os projetos digitais de jovens africanos ou afrodescendentes que vivem em Portugal partilham o mesmo espaço virtual com os unicórnios presentes na Web Summit, mas estão fora das redes de contactos presencial que por esses dias se estabelecem em Lisboa. (MM)

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