Avó Juliana, a imigrante contadora de histórias educativas de Cabo Delgado

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Juliana Teodoro Alves

Manuel Matola

Aos 75 anos, Juliana Teodoro Alves conta histórias africanas a crianças no Município do Barreiro, onde há seis anos se tornou o rosto mais conhecido da imigração proveniente de Cabo Delgado. Os contos que a ex-professora dá a conhecer nas escolas do ensino primário daquele Município contrapõem os relatos de violência que enchem as capas dos jornais internacionais que diariamente descrevem o drama que assola o norte de Moçambique. Avó Juliana, como é carinhosa tratada, é também vítima do terrorismo que se abateu sobre a zona onde nasceu no período colonial: Muidumbe. Até hoje desconhece o paradeiro do irmão que fugiu a insurgência que eclodiu naquela povoação em novembro de 2020. O jornal É@GORA conversou com a imigrante que acredita que a vida lhe deu uma alternativa: o sentido de luta para um mundo melhor, um exercício que pratica perpetuando histórias educativas, a serem publicadas em livro, sobre uma terra que, para já, não pode visitar. É zona de alto risco.

Em que circunstâncias veio para Portugal?
Estou em Portugal há 30 anos. Vim cá depois que o marido acabou o contrato em Moçambique e decidiu regressar à sua terra natal. Agora estou reformada. Mas faço biscates, ajudando as pessoas que necessitam. Agora o meu trabalho é contar histórias de África, mas parte de África: Moçambique.

Que histórias são essas?
São histórias que aprendi à volta da fogueira quando os nossos avós, tios e os pais nos contavam. São histórias educativas, embora, às vezes, põe no meio delas a história de um animal, mas são histórias que realmente são para a nossa vida. Mas hoje elas veem da minha cabeça. A minha cabeça é um computador.

Qual tem sido a reação dos miúdos?
Eles gostam, por isso tenho ido às escolas do Barreiro contar essas histórias.

São histórias do período colonial, ou são histórias de vida?
Eu nasci no período colonial, mas essas histórias não têm nada a ver com o período colonial. São das nossas avós, da nossa cultura para bem dizer em que os velhos contam histórias aos jovens… É uma forma de perpetuar as coisas e educar os jovens. O jovem que ouviu bem essas histórias tem hoje uma vida normal, de pessoa decente.

Estas histórias veem de Cabo Delgado, porque foi lá onde nasceu. Há alguma relação que se pode estabelecer entre aquilo que está a acontecer hoje e as histórias que conta?
Perdendo as histórias e a maneira de viver, o resultado é esse: porque os nossos jovens não escutam os mais avós, os pais, os tios. Quando há essa separação cada um faz o que quer e há confusão. Por isso que há essa desordem, principalmente em Cabo Delgado. Eu não estou lá, mas suponho que a maior parte sejam jovens talvez da minha aldeia que estão a contribuir para isso.

O que sabe do que está a acontecer na sua aldeia?
De concreto não sei nada o que está a acontecer na minha aldeia. Exemplo, desde novembro de 2020 que (os terroristas) entraram lá, a minha família fugiu para Moeda, depois acondicionei alguma coisa para eles irem para Nampula. Foram mas depois voltaram, pois disseram que não conseguiram se adaptar em Nampula e, agora, estão em Moeda. A má notícia que tenho é do meu irmão mais velho, Tomás Teodoro, que nunca mais deu notícias. Suponho que morreu ou foi comido pelos animais e estou assim sem saber nada dele até hoje.

Voltando às histórias africanas, qual é o seu plano de atividades?
Antes da Covid-19 andávamos à vontade. Eu fazia um programa e mostrava à administração da escola que me chama(va), porque a escola é que me chama, e fazíamos a atividade num pavilhão onde estavam todas as crianças divididas em turma desde a pré ao quarto ano. Eles fazem muitas perguntas lindas.

Qual foi a pergunta que mais encabulou?
A pergunta que mais me embaraçou foi feita no dia 16 de maio. Quando eu estou lá explico de onde sou, de onde venho, mostro a minha bandeira. Eles pediram-me para cantar o Hino Nacional de Moçambique. Só consegui cantar o refrão (do novo), o resto não sei, isso porque houve uma mudança do Hino. Eles ficaram muito contente. Na vez seguinte, quando contei histórias numa escola da Costa de Caparica eu também desafie-lhes. Perguntei: vocês sabem cantar o Hino português e eles disseram que não. Eu cantei. Eles admiraram e questionaram aonde é que a avó Juliana aprendeu (ao que respondi): aprendi a cantar em Moçambique no tempo colonial.

Sabia o hino anterior, não sabe o hino nacional atual, mas sempre soube cantar o hino cantado no período colonial.
Pelo menos o refrão sei (risos).

Em Portugal para se dar aula ou algum tipo de formação exige-se curso. As histórias africanas que conta exigiram formação?
Não. Como eu dava aulas em Moçambique – era professora primária – não senti diferença, até porque as próprias professoras gostam do meu trabalho. Aquilo que eu aprendi, embora não tenha sido no magistério – foi lá para Chiúre (distrito de Cabo Delgado) onde tiramos o curso – ajudou-me a saber como é que são dadas as lições pedagogicamente. Atualmente, quer em Moçambique, quer cá, os professores vão à escola sem preparação, sentam na sala de aula, mas eles não têm plano pedagógico para saber como é que vai começar, qual é a ambientação da criança para ele entrar naquela aula, o que vai falar hoje com as crianças. O segredo está aí.

Moçambique faz agora 46 anos de independência. Qual é a reflexão que faz estando aqui há 30 anos?
Eu não sou da política, mas se entrarmos na política, acho que é sempre a mesma coisa. Primeiro, os políticos conhecem-se entre si e nós, o povo que os escutamos, também interagimos entre nós. (Politicamente falando) as coisas que o Presidente (de Moçambique) disser são as mesmas que dirão o Presidente de Portugal, do Brasil e o povo está no mesmo sítio. Não há muita diferença. A política é política e o povo é povo. Se o povo é sofredor vai ser sempre sofredor. Se o povo tem melhores condições terá sempre melhores condições. E oportunistas que vivem bem entram neste conjunto, como antigamente diziam, (por serem) os assimilados que têm bilhete de identidade. E eu que não tinha bilhete não era nada.

Por falar em bilhete, os 30 anos em que está cá deram-lhe a possibilidade de ter a nacionalidade portuguesa?
Eu sempre fui portuguesa, desde lá, porque casamos à base da lei antiga e nunca mudei.

Voltando às histórias africanas.Tem noção de quantas histórias já contou na vida?
Deixa ver no computador, mas passam de 60.

Qual delas é que mais gosta?
Uma de que gosto mais e as crianças também gostam é de um rapaz preguiçoso – o André – que não faz nada. Ele foi crescendo assim sem querer fazer o que os pais diziam mas esqueceu que estava a crescer. Quando chegou aos 18 anos quis arranjar uma menina. Foi falar com os pais e estes concordaram. Mas havia um pormenor até aos anos 60, eu já era adulta: para casar, a menina devia saber cozinhar; o rapaz devia saber construir a casa, derrubar a mata para pôr a sementeira. Os pais da miúda puseram à prova o rapaz: deram um terreno de cinco hectares, uma catana, foice e uma enxada para trabalhar a terra. Esse exemplo sai de Cabo Delgado, onde há uma zona que tem plantas chamadas Inalala que espinhos. Se você consegue derrubar aquela mata de Inalala encontra uma terra que é muito fértil. Então, os velhos escolhiam esse terrenos com espinhos. O André fingiu que trabalhava a terra, sujou-se todo e voltou… O gosto que eles têm nessas histórias servem de exemplo, por vezes, para o que acontece com os trabalhos de casa que lhe é dado pelas escolas.Alguns não fazem (por acharem que é difícil). Mas agora quando me cruzo com as crianças das escolas onde contei isso, assim que me veem, eles justificam logo e dizem: ´avó Ju, eu já fiz o trabalho`. Isso acaba sendo história educativa e maior pagamento que recebo.

E cá em casa, essas histórias ainda são contadas aos netos ou já as contou todas?
Todas não, mas eles ouvem através dos vídeos que são gravados nas escolas. Nos primeiros dias eu tinha um cameraman e um fotógrafo que trabalhavam comigo.

Há quanto tempo faz esse trabalho de contar histórias?
Há seis anos.

Em quantas escolas já esteve aqui no Barreiro, todas?
Sim, todas e em algumas já repeti. Mas cada turma uma história. Mesmo que eles insistam não repito as histórias.

Como é planificado?
Não tenho tempo determinado. Quando me chamam é que vou. Pode passar um mês, às vezes, pode ser duas vezes por mês.

Falou da Costa da Caparica. Significa que esgotou as escolas aqui no Barreiro e agora está noutros sítios da Margem Sul…
Não. Alguém viu o vídeo e entrou em contacto comigo.

Estes trabalhos faz a título de voluntariado?
Sim. Por exemplo, aqui no Barreiro, eu tenho disponível um carro da Câmara para poder andar pelas escolas.

A nível da igreja, onde é catequista, também conta histórias africanas?
Não, na igreja estou a trabalhar com música sacra para animar as missas.

E as músicas sacras que canta são todas de Portugal, ou há algumas de Moçambique?
Tudo. Entram algumas em língua macua, chingana, maconde, crioulo, em kimbundo, do Congo Brazzaville…

Então consegue levar as músicas sacras do país e de África para a igreja católica cá em Portugal?
Sim.

Como é que faz essa seleção das músicas?
Tenho um grupo de africanos que ajudam a cantar. Esta é para amanhã. Aqui vamos cantar em crioulo. Isso só para mostrar como é que faço as músicas. No grupo temos todos os Palop e africanos. Eu tiro um pouco de tudo, então eu consigo memorizar o mais rápido possível…

É responsável pelos cânticos na igreja?
Sim.

Quantos cânticos estão em línguas africanas?
Não tenho noção. Quando cheguei cá eu tinha a sede de encontrar africanos. Depois juntamo-nos num grupo de boa vontade de vários países, onde tínhamos 30 pessoas. Então cada um tirava um cântico, então aprendíamos todos. Como era um grupo grande, os portugueses começaram a gostar. Nós andávamos de norte a Sul de Portugal a animar casamentos, batismos, quando nos convidávamos numa paróquia. Por exemplo, na abertura da Expo-98, nós estivemos lá como Grupo Africano Católico. Também estivemos no Rock in Rio. Os empresários quando faziam as reuniões grandes em hotéis convidavam-nos para irmos animar o evento enquanto eles faziam as suas reuniões. Depois veio a crise, a seguir a Covid-19 e todos nós espalhamos.

Nesta fase da Covid-19 em que as aulas passaram a ser online, as histórias africanas também passaram a ser contadas online?
Sim, por acaso fiz duas vezes. Não entendia nada daquilo.

Não teve ajuda?
Nada, aventurei-me sozinha (risos). Foi a professora da Costa da Caparica que disse: faz lá online para eu mostrar as crianças. Então eu interagi com aquelas crianças frente a frente mesmo com esse telemóvel. Estou sempre a aprender e a tentar qualquer coisa. (risos)

Essas histórias são contadas aos alunos de que classes?
Agora dou apenas até ao quarto ano. Portanto, tem que ter histórias da pré. Não vou contar aquela história um pouco pesada para uma criança da pré. Então eu faço plano para cada classe.

Mas nunca improvisa as histórias?
Não. As aulas não se improvisam. O professor não pode improvisar as aulas senão vai cair no erro. Eu considero esse erro de cair na rede errada. Tenho também aí algumas coisas escritas. Quando fazíamos festas na Câmara do Barreiro alusivas ao dia da mulher, sempre pediam para eu dizer uma mensagem. Então tenho todas as mensagens que me pediam. A última mensagem que fiz em 2020 foi sobre cair na rede errada. É assim: as coisas têm que se preparar. O bom professor tem que preparar a aula. Se a aula não é preparada, vai cair na rede errada, porque vai falar do que não é. (MM)

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