Bairro Casal da Mira…

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Sérgio Raimundo, Escritor
Chego ao bairro Casal da Mira e os caminhos sabem-me a cheiro africano, vejo um sorriso suspenso num café e quando chego ao pé dele descubro que está num estendal de lábios africanos; lábios tão doces e com cal de tabaco e saliva. Viro duas esquinas e encontro-me com dois imigrantes fumando e cumprimentam-me com palavras torcidas por um bater de língua cabo-verdiano e eu levanto-lhes a mão e eles riem-se de mim; tudo tão comovedor neste bairro. Continuam fumando, aliás, soltam pequenos tecidos de algodão para o céu.

Da rua oposta vem um casal de imigrantes que fala sobre um assalto que não vi e riem-se quando vêem um velho que carrega o seu corpo desfeito de vinho ao seu colo. O velho atira os pulmões, que esfumam como chaminé, pela ponta de um assobio virado. Tropeça o velho nos enormes atacadores dos sapatos, a rua tropeça na esquina da igreja e o casal de imigrantes dilui-se em uma viatura. O velho continua pedindo-se a si próprio para se carregar. A máscara baloiça molhada na mola da orelha. E o seu cinto, de boca aberta, vai vomitando as calças pela cintura.

E do nada um susto! Escondo-me nas costas de um contentor, encolho a cabeça no interior do casaco. E uma mão, em jeito de vara, espeta-me as costas: “Tu tem medu de paixau”?. Riem-se dois portugueses que se trocam um cigarro já na metade. Ando cheio de medo porque disseram-me que a polícia anda por aqui e sempre revista tudo. Duas vezes quase era baleado em Maputo. A primeira vez foi quando servia de jornalista e ia ao terreno para recolher vozes; e quando ligava o gravador um manifestante foi alvejado o pé, bem ao meu lado. E por isso odeio tiros e armas. A segunda foi um polícia, já falecido, que fez confusão na barraca do meu bairro e lançou dois tiros para o ar e um para o tecto da barraca.

O bairro Casal da Mira tem mulatas bem lindas, meu Deus. Bamboleiam as cinturas em todas as ruas, conversam em segredos sobre pessoas estranhas que vêem nas ruas e riem-se de tudo como as negras da minha África; todas têm seios que piscam a cada translação do corpo pelo passo.

Os imigrantes, eu também sou imigrante, trouxeram uma pequena África a este bairro; veja-se no andar das mulheres, veja-se na forma como elas cortam os passos com as tesouras das mãos, na forma sensível como elas torcem o sorriso quando se apaga, na forma como delicada que pescam as palavras quando falam e no jeito de serem mulheres. Há um pedaço de África por aqui, sente-se no cheiro das estradas, nos braços estendidos nas janelas dos carros, no suor das passadeiras e nas crianças negras, brancas e mulatas que desarrumam o bairro com as mãos e tocam nas campainhas e põem-se a correr.

Da rua oposta vem um casal de imigrantes que fala sobre um assalto que não vi e riem-se de um velho bêbado. Dia seguinte vi o velho límpido, com uma mancha enorme de ressaca nos olhos, carregando uma mala de ferramentas e sem nenhum assobio nos lábios. E ele já não trazia o seu corpo ao colo, apenas tropeçava nas escadas escuras do seu silêncio.

Mais belo que o velho são as mulheres deste bairro; que fazem enormes penteados no topo das cabeças como as mulheres da minha África, ao sol, trazendo água em potes de barro. O velho, os imigrantes, as mulheres, os sustos do bairro e as esquinas com pedaços de África, com sílabas e timbres de línguas africanas, meu Deus, tudo isso apaixona-me neste bairro. (X)

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