Brasileiros voltam a ‘acampar’ no aeroporto de Lisboa em busca do repatriamento

0
1550
O 1º grupo de brasileiros permaneceu cinco dias à porta do aeroporto de Lisboa

Elisabeth Almeida

Cerca de 300 imigrantes brasileiros residentes em diferentes regiões de Portugal estão a mobilizar-se para “acamparem” até sexta-feira no aeroporto de Lisboa, onde irão tentar o repatriamento, no mesmo dia em que outros 13 cidadãos do Brasil, albergados no Inatel de Oeiras, vão regressar ao país, pois já têm voo confirmado para às 14:00.

Com a garantia do voo de repatriamento destes brasileiros e por terem presenciado o sucesso de parte do grupo que anteriormente ‘acampou’ no Aeroporto Internacional de Lisboa, os primeiros membros do grupo de imigrantes já começaram a chegar à capital portuguesa para procurar vagas remanescentes no voo que parte no dia 22 de maio, para São Paulo.

Tal é o caso de Nair Lima de Castro, que já está no Aeroporto de Lisboa a aguardar o repatriamento.

“A minha expectativa é que corra tudo bem e que eu consiga embarcar. Com fé em Deus, eu quero ir embora, quero ir embora! Aqui está tudo bem, está calmo, está bom, está tudo nota 10”, disse a imigrante brasileira ao jornal É@GORA.

Já Vanessa Clementina de Paula, residente em Aveiro, assegurou ao jornal É@GORA que vem com o filho em busca de dois lugares.

“Sinceramente a minha expectativa é a mínima possível, pois eu não tenho confirmação de estar nesse voo, mas mesmo assim eu vou para Lisboa, ficar na fila e ver se consigo duas vagas: para mim e para meu filho. Vamos ver, já tem gente no aeroporto ‘guardando’ vaga e o voo é sexta ainda, vamos orar para que tudo dê certo para todos”, declarou Vanessa Clementina de Paula, natural de Franca, interior de São Paulo.

Em contacto com o jornal É@GORA, os coordenadores dos grupos, que estão a manter contacto com vários brasileiros que manifestaram o desejo de regressar ao país nas próximas horas, dizem esperar que “cerca de 300 pessoas de Portugal todo” se desloquem ao Aeroporto Humberto Delgado.

André Soncin, que foi repatriado em abril, apenas com a roupa no corpo e, no entanto, permanece porta-voz do grupo dos repatriados, salientou que a ida ao Aeroporto de Lisboa “é pacífica”, assim como foi da primeira vez, até porque o grupo não tem a mínima intenção de criar confusão.

“Eu quero comunicar que algumas pessoas já estão indo para o aeroporto, pois estão ansiosas para voltar logo para o nosso país. Essa pandemia mexeu com o psicológico de todo mundo, mas estamos indo na paz, tranquilo e o governo português também sempre foi muito educado connosco, assim como os policiais. Assim como nós (os primeiros a ‘acampar’) ficamos lá por cinco dias e com toda educação, todos respeitando a lei e dessa vez não será diferente”, garantiu André Soncin em conversa telefónica com o jornal É@GORA.

“Queremos apenas ir para nosso país, nada mais. Estamos tentando de todas as maneiras possíveis, mas sempre com ordem e sem qualquer intenção de prejudicar o andamento das coisas. Ninguém está indo até Lisboa para causar confusão, são pessoas trabalhadoras, idosas, pais de família e crianças que querem apenas voltar para a sua terra e aguardar por uma vaga, apenas isso”, concluiu André Soncin.

Segundo os responsáveis dos vários grupos, todos os 13 imigrantes hospedados em Oeiras já têm confirmado o próximo voo que partirá esta sexta-feira, às 14:00, para o Brasil, mas há uma lista paralela com mais 300 pessoas que desejam o repatriamento por não ter mais condições de se manter em Portugal. Mas muitas delas venderam tudo o que tinham no Brasil antes de tentar a vida num país com mais oportunidades e, principalmente, segurança.

Internacionalização dos ´acampados`

Imigrantes brasileiros ´acampados` no aeroporto de Lisboa
A famosa saga do grupo de brasileiros retidos em Portugal já é manchete na imprensa de vários países europeus e da América Latina, desde que vários destes imigrantes decidiram ‘acampar’ na parte exterior do Aeroporto Internacional de Lisboa em busca de vagas num dos voo de repatriamento fretado pelo governo brasileiro esta sexta-feira tendo como destino final a cidade de São Paulo.

Apesar do surto do novo coronavírus no Brasil, o grupo vê no retorno à família a única maneira de sobreviver em meio a pandemia, a falta de emprego, salário e moradia.

“Puxa, todo mundo aqui está desempregado, todo mundo não tem para onde ir e está morando debaixo da ponte aqui na cidade de Lisboa e o Consulado não toma nenhuma providência para ajudar o seu próprio povo”, disse Ilker Luiz, natural do Mato Grosso do Sul.

A pandemia do novo coronavírus e a crise económica causada pelo isolamento social lançou estes brasileiros para o desemprego e, por não conseguirem arcar com as rendas cobradas no país, muitos foram despejados. E sem ter onde ficar esperam no repatriamento uma maneira de sobreviver a este momento de incerteza ao lado da família.

“Estou super feliz e ansiosa com a possibilidade de voltar ao Brasil. Estou doida para abraçar meus filhos e meus netos”, disse Luciene Martins.

O grupo está na luta pelo regresso ao Brasil desde 25 de abril, dia em que os primeiros brasileiros começaram a fazer da entrada do Aeroporto de Lisboa o seu “novo lar”. Alguns alegaram ter ido até o local seguindo orientações do Consulado do Brasil em Portugal e outros foram para tentar vagas remanescentes nos voos fretados pelas autoridades brasileiras. O fato é que desde o início do processo, apenas 13 entraram no último voo e os demais foram levados para o hostel do Inatel, em Oeiras.

Alguns membros do grupo, que passaram dias e noites ao relento, reclamam ao jornal É@GORA a falta de ajuda das autoridades brasileiras e alegam ter recebido apoio apenas da Segurança Social portuguesa.

“Portugal tem tomado as nossas dores, através da linha 144 da Segurança Social de Portugal que tem acolhido o que pode, mas o sistema deles já está sobrecarregado também e a única coisa que a gente quer é voltar para a casa. É voltar para a nossa pátria brasileira até porque quem está cuidando da gente é Portugal. Que vergonha ver Portugal tomando as nossas dores e nosso país virando as costas para gente. Isso não é admissível”, comentou Ilker Luiz.

Sobre a questão do julgamento por parte dos portugueses e até mesmo de outros brasileiros, é unânime o desejo de empatia.

“Ouvimos de muitos portugueses e até mesmo de outros brasileiros que não deveríamos ter vindo e que é melhor mesmo voltarmos para o nosso país, mas eles se esquecem de que todos aqui trabalham e contribuem para Portugal e que ninguém está aqui de graça. Viemos tentar a vida aqui com o mesmo direito que qualquer cidadão tem de ir ao Brasil ou a qualquer outro lugar do mundo e não queremos este tipo de julgamento”, dizem alguns brasileiros.

Tal pensamento é confirmado pelo Observatório das Migrações, que no seu relatório do ano passado revelou os valores referentes à contribuição dos imigrantes à Segurança Social de Portugal: apenas em 2019, o país recebeu 651 milhões de euros, diz o estudo que assinala a importância dos imigrantes para a economia portuguesa: “Serão cada vez mais necessários para conduzir à sustentabilidade o sistema de Segurança Social português”. (EA)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here