Cabo Verde pós-independência: o contributo dos emigrantes no desenvolvimento do país

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Elisângela Delgado
(Economista e Mestre em Finanças Empresarias)
O fluxo migratório cabo-verdiano iniciou-se nos finais do século XVIII, dedicado à faina baleeira, com um perfil de mão de obra não qualificada e sobretudo masculina. Evoluiu-se, mais tarde, para novas profissões como operários de minas, construção civil, roças e na marinha mercante. Cabo Verde tem cerca de 600 mil habitantes no arquipélago e mais de um milhão espalhado pela Europa, Estados Unidos da América (EUA) e alguma parcela em África, sendo assim um país sui generis a nível da emigração. Os primeiros emigrantes preocupavam-se em enviar, acima de tudo, remessas para o consumo, educação, saúde e construção de habitações próprias. Ao passo que as segundas e terceiras gerações de cabo-verdianos, que já são mais letradas e qualificadas, emigram essencialmente para suprir os problemas financeiros do país, a falta de emprego, questões ligadas à saúde e, por fim, para prosseguirem com os estudos.

Com uma maior aposta dos sucessivos governos na educação e formação dos cabo-verdianos, tornou-se possível ter mão de obra qualificada e atenuar, deste modo, de forma manifesta, as precariedades e vulnerabilidades laborais que tiveram outrora os seus antecessores. Cabo Verde tem hoje um novo perfil de emigrante. Um perfil que se vai traduzindo em maiores habilitações e qualificações, evidenciando-se notoriamente na grande capacidade de empreender e criar os próprios negócios. Surgiram nos últimos anos vários pequenos negócios, nas mais diversas áreas do país, que trouxeram inovações nos transportes, nas infraestruturas de comunicação, no turismo e no mundo digital – o que contribui, sem dúvida, para criar postos de trabalho e assim gerar maior riquezas para o país.

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Uma parte significativa de emigrantes procura colmatar as necessidades locais através de iniciativas privadas. Existem inúmeros projetos na diáspora que podem servir de exemplo para inspirar quem pretende realmente seguir esse caminho de empreendedorismo e, deste modo, contribuir para o desenvolvimento do país. As tecnologias de informação e comunicação, importa ainda salientar, trouxeram enormíssimos ganhos para a economia cabo-verdiana, habilitando-a com informações acessíveis a qualquer parte do mundo, ou seja, permitiu uma maior proximidade entre o país e a diáspora.

Os emigrantes contribuem para criar pontes nas relações internacionais e diplomáticas entre Cabo Verde e países terceiros. Cada vez mais cabo-verdianos estão a alcançar posições de destaque nas empresas dos países de acolhimento. E isso tem permitido uma transferência de know-how que é muito profícua na valorização do país. Os profissionais de várias áreas na diáspora têm trabalhado incansavelmente, no sentido de levar para Cabo Verde ferramentas que permitem torná-lo mais competitivo e moderno, graças ao fenómeno da globalização e das novas tecnologias, sem que o emigrante tenha necessariamente de regressar para o país de origem de forma temporária ou definitiva.

Cabo Verde depende muito da conjuntura económica da Europa e da América, porque é um dos países onde as remessas dos emigrantes têm um maior peso no Produto Interno Bruto (PIB). A principal origem das receitas é Portugal, França, Holanda e Estados Unidos da América (EUA). Segundo o Banco de Cabo Verde (BCV), o peso das remessas dos emigrantes no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 11,2% em 2018 e 11,3 % em 2019. A evolução positiva desta rúbrica, mesmo em tempo da crise pandémica Covid-19, revela uma alta confiança dos emigrantes no país, consubstanciado no sentimento de solidariedade e amor à pátria.

FOTO: LUSA ©

Além do contributo financeiro do emigrante junta-se também o contributo político, uma vez que os emigrantes podem votar nas eleições legislativas e presidenciais. Todavia, embora exista essa prerrogativa legal, a participação efetiva dos emigrantes nessas eleições tem sido fraca devido a fatores como a falta de consciencialização política, de informação sobre propostas eleitorais dos candidatos/partidos políticos e dificuldades burocráticas, etc.

Cabo Verde, nestes quarenta e seis anos de independência, apresenta uma trajetória positiva, amplamente reconhecida pela Comunidade Internacional, e que tem dado muito orgulho ao seu povo. É conhecido ainda como um país livre, democrático, estável, tolerante, pluripartidário, com alternância democrática e de desenvolvimento médio. (X)

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