Cardeal Tolentino Mendonça destaca a imigrante Vitalina Varela em discurso do Dia de Portugal

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A atriz Vitalina Varela e o cineasta português Pedro Costa. Foto: URS FLUEELER ©

Manuel Matola

O cardeal Tolentino Mendonça destacou hoje Vitalina Varela durante o seu discurso do Dia de Portugal no qual elogiou o governo português por ter dado “um sinal humanitário importante” ao regularizar os imigrantes com processos pendentes no SEF durante o surto pandémico, uma vez que “a comunidade (portuguesa) não se reforça esquecendo as periferias”.

“O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade”, disse Tolentino Mendonça exemplificando, de seguida, com um excerto do filme Vitalina Varela.

“Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes. A comunidade não se reforça esquecendo as periferias, mas fazendo dela um motor da sua própria coesão”, afirmou o cardeal madeirense no discurso cujo tema foi “O que é amar um País”.

Em 2019, Vitalina Varela conquistou o Prémio de Melhor Atriz do Festival de Locarno na Suíça, após tornar-se protagonista de um filme com o seu nome, no qual a atriz interpreta a si própria ao narrar parcialmente sua história de vida.

A cabo-verdiana, de origens humildes, passou a ser mundialmente reconhecida em 2019 por uma razão que é nitidamente diferente da de milhares de imigrantes que partiram em busca de um sonho e se depararam com inúmeras tragédias no país de acolhimento.

A atriz viveu a maior fatalidade quando ainda estava no seu país Natal – Cabo Verde -, mas foi em Portugal que a tragédia teve efeitos reais, após tomar conhecimento de toda a verdade que ocorreu e ter a noção exata do que representava a sucessão de coisas negativas que a imigração, afinal, lhe reservava.

E tanto no filme como na vida real, o infortúnio da Vitalina Varela tem origem e um roteiro singulares.

Depois de mais de 25 anos à espera do seu bilhete de avião para ir ter com o marido, Joaquim, que imigrou para Portugal em busca de melhores condições de vida, Vitalina chegou “atrasada” ao país onde desejava viver ao lado do homem que escolheu como companheiro para o resto da vida.

Em 2013, Joaquim teve um final trágico: acabou por morrer e sepultado na ausência da mulher que só chegou às terras lusas três dias depois do funeral, assim que teve conhecimento da fatídica notícia.

E foi ao aterrar em Lisboa que Vitalina Varela é recebida com a frase hoje lembrada nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, pelo Cardeal Tolentino Mendonça: “Chegaste atrasada. Aqui em Portugal não há nada para ti”, dita por uma outra personagem do filme.

Nem por isso Vitalina esmoreceu. Apesar do aviso sobre a dura realidade que é a imigração e de incertezas face ao medo natural que se instala nessas ocasiões, a cabo-verdiana arregaçou as mangas, demonstrou coragem e resiliência, e, por fim, decidiu permanecer em Portugal.

Sem uma preparação prévia sobre o verdadeiro risco que se corre num país desconhecido, Vitalina soube adaptar-se aos embates diários que a vida escolheu para si enquanto imigrante em Portugal, vencendo-os paulatinamente.

E ao longo de um percurso que fez sempre no anonimato, chegou-lhe o inesperado reconhecimento de um mundo que lhe era completamente alheio: o da sétima arte. Foi lá que destacados cineastas ouviram pela primeira vez o nome Vitalina Varela quando anunciado nos mais importantes palcos de festivais de cinemas habitualmente reservados a estrelas de Hollywood.

No passado, Vitalina Varela conquistou o Prémio de Melhor Atriz do Festival ao narrar parcialmente sua história de vida numa longa-metragem avaliada por um júri ao mais alto nível. Já o cineasta português Pedro Costa, que produziu a película, ganhou o prémio máximo do Festival da cidade helvética de Locarno: o Leopardo de Ouro.

Tolentino Mendonça discursando no 10 de junho. FOTO: Presidência da República ©
Na cerimónia comemorativa do 10 de Junho, que decorreu hoje no Mosteiros dos Jerónimos, em Lisboa, o cardeal e poeta natural da Madeira, escolhido pelo Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, para presidir as comemorações do Dia de Portugal, foi o primeiro a discursar e falou dos imigrantes.

“Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras”, frisou Tolentino Mendonça.

Intervindo na cerimónia comemorativa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Marcelo Rebelo de Sousa destacou a diáspora portuguesa, centrando o seu discurso na nova realidade decorrente da pandemia de Covid-19.

E a propósito da comunidade portuguesa residente no estrangeiro, o chefe de Estado português anunciou que, “após a pandemia”, pretende promover uma “cerimónia ecuménica de crentes de várias crenças e de não crentes para homenagear os mortos, envolvendo as suas famílias no calor humano de que foram privadas semana após semana”, por causa das restrições de circulação impostas pela Covid-19.

“Mas”, lembrou, “só serão justas estas homenagens, que não esquecem os compatriotas que lá fora morreram, sofreram e trabalharam neste tempo inclemente, se elas nos acordarem para o que temos de fazer”, disse numa alusão aos que emigraram, incluindo os naturais da Madeira, terra de Tolentino Mendoça, que conta com mais emigrantes portugueses no mundo. (MM)

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