Carta à capitã Carola Rackete…

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Sérgio Raimundo
Escrevo-te, Carola Rackte, porque nada mais posso fazer senão escrever-te. As minhas mãos estão secas porque não tiveram de ser areia das minhas lágrimas. Choro, sempre, que um barco lança-se ao mar… para chegar onde a vida é um pouco dura, mas dura à sua maneira; pois vida foi feita para ser dura e só os duros enfrentam-na e só os duros é que se metem em barcos para ver a dureza das águas que parecem lhes levar onde a vida é menos dura.

Escrevo-te a partir de Moçambique, bem nos pés de África, porque o Sea Watch, o barco que tu abriste caminhos, ficou-me na alma como um espinho na gengiva ou como uma mancha de chuva sobre o tecto seco.

Carola Rackte imagino-te a comandar todos os barcos de imigrantes que querem chegar a Europa; sei que serias detida em todos calaboiços como se fosses um animal entre as grades de um zoológico. Sei disso, mas tenho certeza que os mares não seriam mais cemitérios de gente dura que se mete em barcos porque sente nas águas um cheiro de algum sítio onde não sabe onde é, mas que a vida é menos dura. Gente que sabe que a vida foi feita para ser dura e só os duros enfrentam-na.

Os mares viraram cemitérios de corpos que são entornados pelos barcos e o Sea Watch, pela sua mão, recusou-se a enterrar gente no tecido líquido das ondas, onde os peixes sugam as brumas branquizitas e consomem os ossos moles das ondas. Há sepulturas e lápides debaixo dos mares porque as suas águas têm um cheiro de algum sítio onde não sabe onde é, mas que a vida é menos dura.

Os barcos quando se lançam nesses mares são infirmes porque são remados por uma esperança que não é tão dura como a vida e cospem pelo caminho fardos de gente sem ar nos pulmões, gente com crianças desnutridas de sorrisos ao peito como cangurus com filhotes nas bolsas, gente de dentes fora como se quisesse dizer algo enquanto só quer expulsar um ar de choro, gente com bolhas de sede explodindo na carne seca dos lábios, gente com picos de medo às mãos e gente humilde que entulha a atenção dos deuses com orações e preces que se afogam ao mar.

Capitã, Sea Watch, vidas, barcos, imigrantes,  mar… são palavras que me palpitam nas mãos, neste momento, como se fossem berlindes entre os dedos. Capitã, minha capitã, apetece-me, agora, jogar essas palavras entre os espaços desses parágrafos porque tenho as mãos secas e não tiveram de ser areia das minhas lágrimas… Escrevo-te a partir de Moçambique, bem nos pés de África.

Capitã Carola Rackete, tu que tens 31 anos, comandaste 40 pessoas para desembarcar no porto de Lampedusa, depois de 16 dias no mar. E dizem que podes ficar enjaulada 10 anos. Escrevo-te porque as minhas mãos estão secas.

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