Carta do É@GORA aos imigrantes no Dia Mundial do Imigrante e do Refugiado

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Manuel Matola

Comemora-se hoje o Dia Mundial do Imigrante e do Refugiado, uma data que procura celebrar a condição atual de cada um dos membros desta comunidade para a qual a equipa do jornal É@GORA trabalha diariamente de forma incessante.

De manhã à noite, reerguemo-nos para que, juntos, sedimentemos aquilo que, de resto, hoje somos: uma verdadeira família que sabe o que é partir em busca de um sonho, mas nunca está preparada para as inúmeras tragédias com que se depara no país de acolhimento. E mesmo assim não cede. Resiste.

O imigrante e o refugiado – o nosso principal grupo-alvo – representam, em conjunto, a classe social que tem essa enorme capacidade de resistência à dor que se sente desde o momento em que surge a decisão de partir, nos dias em que se sonha com o futuro em terras longínquas ou na hora em que se é forçado a migrar mesmo sem rumo certo.

Em Portugal somos oficialmente “590 mil cidadãos estrangeiros”, conforme o Estado nos descreve. Mas somos muito mais do que um simples número. Representamos um rosto, uma vida real enquanto indivíduos que travam a forte batalha para que lhes seja reconhecido o direito humano à mobilidade.

Somos o único símbolo a quem é exigido a retidão permanente e o olhar fixo, sem nunca pestanejar, sobre os valores éticos e de cidadania que se nos obriga a aceitar no país que nos acolheu mesmo perante a clara perceção que temos de, diariamente, carregarmos o rótulo de sermos o outro, “o desconhecido” para o vizinho da porta ao lado, do andar de cima ou de baixo, no salão, no café e/ou na loja das redondezas no bairro onde moramos.

Apesar de vivermos esse peso da incerteza de integração social, cada um de nós é o prolongamento da mulher e do homem humildes e batalhadores que participam na luta contínua contra os ditames da burocracia que nos é imposta pela falta de esclarecimento de quem de direito sobre o significado dos simples artigos de uma lei criada para facilitar a nossa regularização.

Batalha diária

Em tempos de pandemia, esta realidade é ainda mais dura. Enquanto imigrantes indocumentados, permanecemos crentes de que no dia seguinte seremos bem sucedidos na insistente chamada telefónica que faremos, mas verificamos que, de novo, nos é literalmente ignorada do outro lado da linha para onde nos mandam ligar sempre para nos tornamos cidadãos em situação regular.

Nos minúsculos quartos em que moramos, somos a própria resposta à nossa solidão enquanto mulher e homem que não sabem por onde devem (re)começar quando pela primeira vez nos consciencializamos do verdadeiro significado da palavra imigração quer por sermos portadores de outras línguas estrangeiras, ou até por usarmos as variantes do português.

Somos a classe que por longos anos desse processo da imigração e, quiçá, a vida inteira trava a batalha diária que muitas vezes nos dá vontade de largar tudo mesmo sem saber para e por onde (sa)ir com os filhos que carregamos ao colo e que, entretanto, nos fazem perguntas diretas cujas respostas não podemos dar ou as desconhecemos por completo.

Somos a verdadeira resiliência humana em constante movimento de casa em casa que afinal não podemos continuar a pagar a renda que aumenta bruscamente depois que o senhorio se apercebe que já não temos aquele primeiro emprego no estabelecimento da esquina de onde fomos dispensados pelo simples facto de atuarmos de forma diferente por sermos “aquele que vem de longe” e que “não se enquadra na equipa”.

Às vezes, mesmo o patronato estando ciente da nossa elevada preparação ética e educacional, ignora a soma do bom desempenho que demonstramos enquanto trabalhamos na sua empresa. Para ele, aquele pequeno erro momentâneo suplanta todo o nosso esforço do tempo em que estivemos aí empregados. E, (in)conscientemente, toma uma decisão que faz com que os nossos planos de vida alterem por completo num ápice. Muitas vezes para pior.

E porque somos uma equipa com o mesmo propósito, entre nós enxugamos as lágrimas para somente termos a coragem de acreditar no amanhã, mesmo sentindo que naquele momento somos apenas porque somos, mas não achamos que existimos.

Muitas vezes deprimimos envolto no arrependimento por termos deixado tudo para trás, mas logo nos reerguemos ao trazermos aquele suspiro que nos impele a avançar nessa tentativa de alcançar resultados.

E, tal como a fome que é o maior imigrante, de tempos em tempos vemo-nos a deambular em busca de estômagos vazios dos nossos amigos, patrícios e colegas de trabalho a quem, no intervalo, lançamos um sorriso e repartimos o pouco do nosso lanche por sermos ambos estrangeiros, num verdadeiro ato de camaradagem após horas de labuta debaixo do frio ou do sol tórrido nas obras de construção da casa que nem sequer é nossa.

Ser imigrante é estar cônscio da necessidade de saber estender a mão para juntos darmos o passo seguinte.

Mas é também enquanto imigrantes que damos provas de que a ética que carregamos connosco nos traz prosperidade porque, apesar de lamentarmos, resistimos corretamente e, no final, vencemos. Por vezes a sensação é a de que melhoramos pouco, mas, na verdade, evoluímos bastante enquanto humanos. E isso nos faz voltar a sorrir. Experimentar a imigração é, de todo, a maior prova de maturidade.

Mensagem do Papa Francisco

Na mensagem alusiva à efeméride, o Papa Francisco compara a vida do Imigrante e do Refugiado com a de Jesus Cristo que, forçado a fugir do Rei Herodes, no Egito, experimentou, “juntamente com seus pais, a dramática condição de deslocado e refugiado marcada por medo, incerteza e dificuldades”.

Numa nota divulgada pela Santa Sé por ocasião da efeméride que se assinala hoje, dia 27 de setembro, o Sumo Pontífice lembra o esforço que os imigrantes e refugiados empreendem enquanto deslocados na vida em que “em cada um deles, está presente Jesus, (é) forçado – como no tempo de Herodes – a fugir para Se salvar”.

“Infelizmente, nos nossos dias, há milhões de famílias que se podem reconhecer nesta triste realidade. Quase todos os dias, a televisão e os jornais dão notícias de refugiados que fogem da fome, da guerra e doutros perigos graves, em busca de segurança e duma vida digna para si e para as suas famílias”, diz o Papa Francisco, recorrendo à sua Oração de Angelus datada de 2013.

Por isso, defende o chefe da Igreja Católica, na mensagem a que o jornal É@GORA teve acesso, “é preciso conhecer para compreender” pois “o conhecimento é um passo necessário para a compreensão do outro”. (MM)

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