Carta renúncia do vice-presidente do PSD Amadora que discorda da “ética e dos valores” de Suzana Garcia

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Jorge Humberto e Susana Garcia

O luso-cabo-verdiano Jorge Humberto é há anos vice-presidente do PSD na Amadora e tem um percurso de ativismo social naquele Concelho que alberga maioritariamente imigrantes, onde o político vive desde a infância e cresceu entre comunidades retornadas, refugiadas, imigradas e migradas.

Após a escolha de Susana Garcia como candidata do PSD à presidência da Câmara de Amadora, Jorge Humberto renunciou ao cargo por discordar com a escolha feita pelo maior partido da oposição em Portugal, cujo presidente, Rui Rio, também avisou à advogada: “Num contexto de candidatura é bom que [Suzana Garcia] não tenha uma linguagem parecida [com a que tinha nos programas da TVI], porque são contextos diferentes”. A causídica é apelidada de racista, mas recusa a acusação. O jornal É@GORA publica na íntegra a carta que fundamenta a decisão de Jorge Humberto. Confira:

“Caro companheiro e Presidente
da Secção concelhia do PSD Amadora,
Dr. Carlos Silva.

CC: Dr. Rui Rio, Dr. José Silvano, Eng. Salvador Malheiro.
Assunto: Coloco à disposição o meu lugar de vice-presidente do PSD Amadora.

Antes de mais que esteja bem.

No atual contexto social e político, e relativamente às próximas eleições autárquicas no Concelho da Amadora, nas quais o PSD concorre com lista encabeçada pela dra. Suzana Garcia à presidência da Câmara Municipal da Amadora, por considerar que a referida estratégia política e a consequente candidatura com base no conteúdo discursivo ferem os meus princípios éticos e valores sociais, culturais e humanistas, renuncio ao lugar de vice-presidente do PSD Amadora.

Por ter consciência das minhas responsabilidades sociais com base no meu percurso de vida e posicionamento sociocultural, com destaque para a Amadora onde vivo desde a infância, crescendo entre comunidades retornadas/refugiadas/imigradas e migradas, nas mais parcas condições de vida, concelho no qual entranho as minhas raízes através da família, amigos e demais que fazem parte do meu universo de vivências, experiências e ações, a minha realidade cultural, o meu olhar e a minha forma de estar não me permitem corresponder em apoio a esta candidatura.

Sem intenção de fazer críticas veladas, e após séria reflexão sobre os factos e desde o momento de conhecimento da estratégia e nome proposto para candidato à presidência da Câmara Municipal da Amadora (2 horas antes da reunião da CPA), para a qual em nenhum momento fui convidado a dar o meu contributo enquanto vice-presidente, resguardado o devido respeito pela pessoa candidata e pela sua forma de ser e de estar, digo que pelo seu composto idiossincrático através do conteúdo discursivo, posições políticas e postura públicos, por serem contrários à minha ética e valores e em tudo em que acredito, pelos quais tenho lutado muito em termos políticos como em termos de sociedade civil, digamos, infelizmente não me revejo nesta candidatura.

A Amadora tem uma história extraordinária enquanto berço da diversidade social, étnica, cultural e religiosa em Portugal e na Europa, em resultado das migrações ancestrais com forte desenvolvimento na modernidade a partir das primeiras décadas da segunda metade do Sec. XX. Nesta plataforma de cruzamentos de gentes, das suas origens e seus peculiares genus vivendi tão únicos e ao mesmo tempo desafiantes, permitiram ao longo dos anos e no seu todo uma coexistência de refinados equilíbrios. Apesar dos diversos problemas existentes na Amadora, esses equilíbrios em certa medida até frágeis, têm permitido um certo desenvolvimento inter-geracional social e cultural do concelho e que lhe moldou uma realidade que é preciso potenciar nas mais diversas formas. A multiculturalidade e a interculturalidade na Amadora são uma realidade, e as excelentes relações com os países e governos da origem das comunidades imigrantes devem ser preservadas, e as questões de segurança ou da falta dela devem ser solucionadas com a intervenção do Governo, e de forma alguma se deve associar criminalidade à imigração, ou lançar-se para o espaço público mensagens anatemáticas a respeito das comunidades imigrantes, ou populações de contextos frágeis e carenciados.

Pelos factos e na conjuntura difícil que atravessamos, e por eu ter uma expressão social e transversal às comunidades reconhecida por diversos atores e instituições do espaço político e da sociedade civil, bem como de governantes de PALOP, considero que não devemos através do discurso populista e na simplicidade da linguagem acicatar ódios e sectarismos sociais como forma de posicionamento e conquista eleitoral/política. Aliás formas de atuação contrárias à matriz do PSD, se é que é importante para algumas pessoas, pelo que há princípios éticos e morais que devemos preservar enquanto valores incontornáveis da ação política, da democracia e do bem-estar social, pelo que considero que esta não seja a via para o sucesso.

Sendo assim, e tendo por apanágio a minha cultura de correção, lealdade e de trabalho enquanto militante do partido, enquanto vice-presidente do PSD Amadora, enquanto cidadão ativo e ativista social, sendo coerente com a minha consciência, princípios e ações, coloco o meu lugar à disposição do partido. Muitos sabem que não estou nas coisas por lugares, mas tão-só pelas oportunidades de poder fazer pelas pessoas, pelas organizações e territórios, e muitos são testemunhas da minha entrega às causas e às pessoas, quer seja no PSD ou na restante sociedade, e muitos têm colaborado comigo nestas ações contribuindo para uma certa forma de estar na vida e que através do qual muito apoiamos o PSD e suas lideranças.

Naturalmente mantenho a minha disponibilidade para um projeto de futuro, que seja inclusivo, promotor dos equilíbrios, concórdia entre os povos e desenvolvimento do Concelho da Amadora, e que tenha em consideração os ativos humanos do próprio partido, e que abomine a ‘cultura da celebridade imediata’ como solução para o sucesso imediato e mediático, e que cultive a vida, o trabalho, a história e pertença de quem é verdadeiramente militante. A militância, o comprometimento com a ideologia e a organização, o trabalho em prol do partido e pelo partido deveriam ser considerados.

Procurei com sinceridade apresentar esta minha explanação sendo que não ficaria bem comigo próprio se assim não o fosse, e que estivesse à espreita de ficar bem, ou bem colocado nesta ou naquela lista, ou ser candidato a alguma coisa, e não seria correto com o partido na Amadora e para esta candidatura ter alguém que não estaria comprometido a 100%.

Votos de sucessos.

Grato pela atenção,
despeço-me com as Saudações Sociais Democrata”.

Jorge Humberto
Licenciado em Ciências da Comunicação e da Cultura,
Mestre em Comunicação organizacional,
Doutorando em Ciências da Comunicação.

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