Casal da Mira – Um pedaço da África em Portugal

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O Casal da Mira na cidade da Amadora – o Concelho com a maior densidade populacional do Portugal – é aquilo a que se pode chamar de um pedaço de África em Portugal.
Trata-se de um bairro social que começou a ser construído há 20 anos, mais coisa menos coisa, passando porém a ser habitado desde 2003.

E maioritariamente por famílias de origem africana, sendo que os cabo-verdianos (leia-se “de origem”) são em maior número, seguindo-lhes, por ordem decrescente, os guineenses, são-tomenses, moçambicanos e angolanos. Não deixam de haver, no entanto, algumas famílias de origem portuguesa, que também tiveram direito a uma casa no bairro.

É precisamente lá, no Casal da Mira, onde (entre outras) desenvolvem as suas actividades a AUCV – Associação Unidos de Cabo Verde –, e também a Associação Lusófona. Duas IPSS fortemente inseridas e respeitadas pelo seu trabalho a nível comunitário, presididas, respectivamente, por Maria João Marques e Malan Saidi.

A história da Mira confunde-se com a de muitos outros bairros sociais construídos na segunda metade dos anos do 90, em Portugal: familias pobres, que viviam essencialmente em barracas, na periferia das grandes cidades, e que acabaram reassentadas em apartamentos “low cost”.
No caso da Mira os habitantes são basicamente provenientes dos bairros 6 de Maio, Azinheira dos Besouros, Portas de Benfica, Damaia e Estrada Militar.
Antes de se construírem – em fases – os prédios de apartamentos que agora albergam as cerca de ……. famílias, o Casal da Mira era simplesmente um vale, em parte do qual crescia uma lixeira.

É caso para dizer: “quem te viu e quem te vê”!

ALGUNS “PENDENTES”…

A mudança das famílias dos bairros periféricos para o Casal da Mira não foi tão “simples e pacífica” como pode parecer.
Vamos por parte: o processo de reassentamento iniciou-se em 2003. Primeiro a Câmara da Amadora procedeu a um levantamento exaustivo do endereço/correio e do número de famílias que viviam em casas ilegais, vulgo barracas.

A partir daí as famílias foram realojadas em apartamentos do bairro, de acordo com o respectivo agregado familiar: apartamentos maiores para as famílias mais numerosas, e menores para aquelas com menos membros.
A grande questão que se colocou foram os valores estipuladas para as rendas a serem pagas por cada família. É que embora se possa considerar que se trata de uma renda mínima, como é(ra) de prever, , muita gente não concordou com o valor – outros haviam que, efectivamente, não tinham meios para pagar.

Foi levantado ainda outro argumento: é que a construção de grande parte das casas ilegais (as chamadas “barracas”) de onde a população era proveniente, mal ou bem, as mesmas tinham tido os seus custos – e esse valor não foi “reembolsado” no acto da destruição das mesmas, e realojamento das famílias na Mira.

Esse e outros impasses persistiram durante muito tempo, e de certa forma ainda persistem.
Até porque, nos dias que correm, uma parte considerável dos chefes de família que se mudou para o Casal da Mira com filhos pequenos (na altura) já faleceu…
Hoje são os seus descendentes que ocupam os apartamentos.

Muitos destes por sua vez já constituíram as suas próprias famílias. Ora, se à época da mudança para os apartamentos da Mira, enquanto miúdos, dois/três rapazes (por exemplo) podiam dormir no mesmo quarto, hoje, com mulheres e filhos isso é completamente impossível.

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