Cerca de 200 angolanos retidos no aeroporto de Lisboa após fecho de fronteiras em Angola

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Aeroporto Humberto Delgado, Lisboa. Foto tirada por um passageiro

Desde quinta-feira que homens, mulheres e crianças dormem no chão do Aeroporto Humberto Delgado porque já não há voos para Luanda. Este é um dos efeitos do encerramento de fronteiras em Angola, uma das medidas adotadas pelas autoridades angolanas para evitar a propagação do coronavírus naquele país africano. A esperança é um voo previsto para sábado.

Regressar a casa. Este é o desejo de cerca de 200 angolanos que estão retidos no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, depois de os voos de quinta-feira e hoje terem sido cancelados na sequência do fecho das fronteiras aéreas decretado pelo governo de Luanda. Mulheres, crianças, jovens, homens de negócios, pessoas que vieram para consultas médicas, umas de férias, outras para formação compõem este grupo que está retido à espera de resposta para regressar a Angola.

Em declarações ao jornal É@GORA, o angolano Paulo Isaías relata a situação dramática que homens, mulheres e crianças – entre elas um recém-nascido, cujo berço é o tapete das bagagens –, estão a viver desde que a TAAG, companhia aérea angolana, começou a cancelar os voos oriundos de Portugal como medida para evitar a propagação da Covid-19 em Angola.

Segundo este passageiro, as pessoas têm ficado junto aos balcões de check-in da companhia aérea mantendo alguma distância tal como ditam as regras de distanciamento social em vigor.

“Somos um total de cerca de 200 pessoas. Uns passaram a noite no Aeroporto e outros ainda conseguiram ir para a casa de familiares”, diz Paulo Isaías que lamenta: “não tivemos nenhum apoio moral nem social das autoridades. Tentamos ajuda junto do Consulado sem sucesso. Não nos deram ouvidos”.

Com a notícia que a partir da meia-noite do dia 20 já não entravam mais voos em Luanda, a alternativa foi “fazer o apelo de socorro junto dos meios de comunicação social e das redes sociais para que o governo angolano encontrasse uma solução”, explica esta fonte que lembra que já entregou as chaves do hotel e não tem para onde ir.

Passageiros estão a passar fome

Leonel Prata é luso-angolano e veio a Lisboa na passada terça-feira para resolver um assunto urgente da empresa onde trabalha, sendo que só teria de regressar no próximo domingo. No entanto, a urgência trazida pelo encerramento das fronteiras obrigou a que tentasse a sua sorte nos últimos voos, mas ficou em terra.

“As pessoas não têm para onde ir. Não têm condições económicas para saírem do Aeroporto, até porque já estavam no final da permanência em Portugal e com recursos financeiros reduzidos”, alerta este luso-angolano.

“Estamos a dividir os trocos uns pelos outros”, confidencia este passageiro que diz que as pessoas estão a passar fome e sede.

Leonel Prata também acusa a TAAG de não ter dado apoio e de ter remetido a responsabilidade para o Consulado Geral de Angola, em Lisboa.

Uma comissão de passageiros deslocou-se quinta-feira a este organismo. Mas refere que além de não terem sido recebidos pelo Cônsul consideram que foram maltratados.

Por telefone veio “a informação de que o Cônsul estava a questionar porque estávamos no Consulado e a ordenar que fossemos retirados dali”. Seguiram então para a Embaixada, já que havia indicação de existência de um piquete de serviços.

Mais uma vez não conseguiram ser recebidos. Encontraram apenas um bilhete com um número de telefone, mas de onde nunca houve retorno.


Voo excecional no sábado é uma luz ao fundo do túnel

Depois da onda de solidariedade que se gerou na Internet, o caso destas pessoas acabou por chegar às autoridades angolanas.

Ao que tudo indica, hoje de manhã terá ocorrido “uma reunião em Angola entre as autoridades e o diretor-geral da TAAG com o objetivo de se criar condições para se enviar um avião para Lisboa”, sublinha Leonel Prata.

Segundo este passageiro, um funcionário da TAAG pediu para que se fizesse o levantamento do número de pessoas e para se organizarem porque “eventualmente virá um avião com capacidade para 300 pessoas que fará um voo amanhã, sábado, entre as oito e as nove horas de regresso a Luanda”.

Apesar de, pela terceira noite, irem dormir no chão do Aeroporto de Lisboa, “estamos esperançados que nos vai levar para Angola”, adianta a mesma fonte.

No meio da falta de apoios institucionais há a destacar, pela positiva, a Polícia do Aeroporto lisboeta. Se numa primeira fase, os agentes queriam impedir a permanência destes angolanos no recinto, logo acabaram por mudar de atitude e a mostrar-se prestáveis e compreensivos com a situação. Por isso, e com alguma emoção, Leonel Prata deixa os agradecimentos a esta Polícia.

Além destas pessoas, que eventualmente regressam na manhã de sábado é preciso não esquecer que ainda há passageiros com bilhetes da TAP que querem regressar, mas que não têm uma resposta da companhia portuguesa.

Numa altura em que as autoridades já estão a barrar a entrada na infraestrutura aeroportuária a quem tem bilhete para Luanda, uma vez que as fronteiras estão fechadas, o mais provável é que mais passageiros com voos, por exemplo, para domingo fiquem em terra. (DL)

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