CIP – a rede migratória virtual que revolucionou a vida dos imigrantes

0
2149

Manuel Matola

A comunidade imigrante em Portugal está a viver um dos momentos mais marcantes da história migratória do país, após o CIP, um movimento cívico que atua virtualmente, se ter tornado na maior força revolucionária entre as redes migratórias que trabalham em prol da legalização estrangeiros indocumentados.

Usando as ferramentas tecnológicas para amenizar problemas dos imigrantes, o Comité de Imigrantes em Portugal (CIP) criou grupos de contactos nas redes sociais onde leva a cabo um conjunto de ações que visam mudar para sempre a vida de milhares de cidadãos de diferentes nacionalidades que lutam por um agendamento e legalização junto do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

O Comité não integra sequer um advogado. É através da partilha de conhecimentos dos próprios membros do grupo que o CIP tem vindo a esclarecer os milhares de imigrantes sobre como atuar para se legalizar em Portugal, em contraponto com a atuação dos advogados que trabalha(ra)m com as questões da imigração para Portugal mediante honorários pré-definidos. Atualmente, este grupo profissional já não tem sido tão fundamental para os estrangeiros que integram a nova rede migratória uma vez que o CIP não só tem um contacto direto com o SEF como também partilha gratuitamente as informações atualizadas dos serviços migratórios.

Há uma razão: vários imigrantes caíram em “esquemas de corrupção” que se assistiam no processo de agendamento no SEF envolvendo até advogados e pessoas singulares, que cobravam valores que podiam chegar, por exemplo, aos 300 euros apenas para fazer uma marcação online de vagas que muitas vezes esgotavam em menos de cinco minutos.

Golpes de quem prometia igualmente ajudar aos que sonharam um dia viver em Portugal e que decidiram se revoltar também contra os atrasos de um sistema de agendamento que criou “uma vida miserável” aos estrangeiros que passaram “por momentos muito difíceis sem Residência” em Portugal, segundo o CIP.

O extenso nome de Maria Lucélia Magalhães Pereira Oliveira faz jus ao longo processo de entrada em Portugal onde a imigrante brasileira também acabou por “cair em golpe” alegadamente protagonizado por uma agência de viagens que através de contas criadas no Facebook e WhatsApp vendia passagens, carta-convite, orientava e prometia ser intermediária em todo processo de legalização de estrangeiros junto das autoridades migratórias portuguesas.

Maria Lucélia Magalhães Pereira Oliveira encontrou-a nas redes sociais e conseguiu chegar a Portugal.

Em declarações ao jornal É@GORA, a imigrante conta que foi avisada pelo então responsável da agência que o processo “era algo sigiloso”, pelo que acrescenta: “Quando eu cheguei aqui ele disse-me que tinha uma advogada que fazia manifestação de interesse e ajudava a fazer marcação no SEF”.

No final de uma longa espera para obtenção de um documento que até hoje ainda não saiu, a brasileira não só perdeu “muito dinheiro: 3.000 euros” para o reagrupamento familiar, como também a pedido deste gestor indicou a página da agência a “muitas pessoas, quase 50”, para virem morar em Portugal. Dos brasileiros que contactaram a agência nem todos tiveram um final feliz no processo de entrada em Portugal, diz Maria Lucélia Magalhães Pereira Oliveira. Depois veio a pandemia da Covid-19.

Mas o momento anterior e posterior de todo o processo atual de legalização de imigrantes junto do SEF ficará registado para sempre por conta de um nome que “agitou as águas” de toda a estrutura migratória em Portugal: o da brasileira Juliet Cristino, líder do CIP – Comité de Imigrantes de Portugal.

No processo de luta que desencadeou em benefício dos imigrantes, Juliet Cristino juntou-se não só brasileiros como também contou com o contributo de cidadãos oriundos de quase todos os continentes que residem no território português à espera de se legalizar.

Durante meses escreveu cartas usando uma linguagem direta mesmo em correspondência oficiais quer para o Presidente português, Marcelo de Rebelo de Sousa, para o primeiro-ministro, António Costa, a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, bem como para o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita.

E por falta de respostas em tempo útil e perante o silêncio das autoridades portuguesas, o CIP realizou uma manifestação no dia 11 de julho último nas ruas de Lisboa e do Porto. Debalde. De seguida, o Comité voltou a pedir um encontro direto com o chefe de Governo em carta aberta em que clamava em nome de todos os imigrantes: “Precisamos ser ouvidos”.

O grupo foi atendido, entretanto, pelo Ministério da Administração Interna, que tutela o SEF, e tornou-se assim na única associação pró-imigrante com acesso direto a entidades oficias do Governo português a quem, de tempos em tempos, exige a atualização de toda informação relacionada com o que foi acordado na reunião de 19 de agosto passado: legalizar todos os imigrantes.

O trabalho não agradou a todos. Em algumas das suas redes sociais, a página oficial do CIP foi alvo de pirataria por diversas vezes, mas para manter os contactos que tem de norte a sul de Portugal, o Comité voltou a criar novas contas e, hoje, há até uma que onde se pode ver um pastor brasileiro a fazer orações recorrentes em prol do combate diário dos imigrantes.

Uma luta que, de resto, mereceu destaque também no Brasil, com a Globo a resumir o esforço que tem sido feito pelas protagonistas desta saga: “Uma cabeleireira e uma diarista (que) ajudaram a melhorar a vida de milhares de brasileiros em Portugal. Sônia Gomes e Juliet Cristino integram desde o início o Comitê dos Imigrantes de Portugal (CIP). Após organizarem manifestações em Lisboa e no Porto, o movimento conseguiu audiências com o governo, que decidiu agilizar a regularização de imigrantes”.

Mas a partir na margem sul do Tejo, há um contributo que tem sido dado de forma incansável: é o de Zuber Ahmed, presidente da Associação do Bangladesh do Barreiro Portugal que mobilizou vários imigrantes para a manifestação de junho e mantém atualizado uma das comunidades imigrantes que mais tem crescido e sido vítima de violação dos seus direitos em Portugal.

A união faz a força

Patrícia Guerra, tradutora voluntária do CIP
A imigrante Patrícia Guerra oriunda de Panamá cruzou-se com a informação que dava conta da existência do CIP quando pesquisava as redes sociais, onde notou que parte das perguntas dos imigrantes com dúvidas sobre o agendamento do SEF eram feitas em inglês. Juntou-se à rede de imigrantes e como voluntária passou a ser tradutora dos conteúdos produzidos pelo Comité.

Hoje tem uma opinião mais segura daquilo que faz em prol dos imigrantes: “Creio que é um trabalho extenso, mas a união das mãos ajuda a que o trabalho seja mais leve” até porque “acredito que quando entras num país diferente do teu passas por muitas coisas. Mas quando tens apoio, pelo menos em saber as leis, para conheceres os teus direitos, isso ajuda bastante na tua jornada. Isso é que me leva a fazer parte do CIP”, diz ao jornal É@GORA Patrícia Guerra, Life Coach de Alta Performance, cujo percurso escolar feito todo em inglês hoje “tem sido muito útil” para ajudar neste embate travado pelos cidadãos estrangeiros em Portugal.

Alexandre Fraga Designer
O brasileiro Alexandre Fraga viveu em Portugal e regressou ao país de origem pouco antes da eclosão da Covid-19, mas o desejo de voltar a emigrar fê-lo ter contacto com o CIP. Hoje, a título voluntário, é o design gráfico responsável pela criação de vídeos no Instagram do Comité.

“É por uma boa causa” até porque “todos somos irmãos diante de Deus”, diz Alexandre Fraga ao jornal É@GORA sobre o “trabalho gratificante” das artes que faz diariamente quando dispensa uns minutos do seu tempo ainda que na hora laboral na empresa para a qual trabalha no Brasil.

São várias mãos que nos últimos tempos se têm vindo a unir em torno de uma causa: a legalização dos imigrantes, um grupo social onde a conduta de cada um influencia o destino de todos outros cujas vidas mudaram por força de uma rede migratória virtual: o CIP. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here