Coletivos antirracistas demarcam-se da manifestação anti-fascista, Mamadou Ba é criticado

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Manuel Matola

Vinte organizações antirracistas demarcaram-se da manifestação da Frente Unitária Antifascista (FUA), organizada este domingo supostamente “sem consulta, nem envolvimento prévio, dos coletivos antirracistas, nem mesmo das pessoas que sofreram ameaças na última semana”.

Numa “nota de esclarecimento dos colectivos antirracistas face às ações da FUA”, as mais de duas dezenas de organizações subscritoras do documento dizem que a concentração deste domingo em Lisboa e Porto foi organizada “de forma desleal, oportunista e sectária”.

“A manifestação marcada para hoje (domingo) ‘Unides contra o fascismo’ pela FUA foi organizada de forma desleal, oportunista e sectária. Sem consulta, nem envolvimento prévio, dos colectivos antirracistas, nem mesmo das pessoas que sofreram ameaças na última semana. Esta não é a primeira vez que acontece, são já vários os episódios lamentáveis nos últimos 2 anos. Referimo-nos não só a insultos nas redes sociais e presencialmente, quando não mesmo comentários racistas e machistas, por parte de dirigentes da FUA a ativistas racializados e organizações antirracistas, mas também tentativas de apropriação e usurpação de ações
políticas protagonizadas por coletivos antirracistas”, lê-se no comunicado das organizações, que inclui o SOS Racismo.

No domingo, centenas de pessoas manifestam-se em Lisboa e no Porto contra o fascismo, o racismo e pela liberdade e direitos cívicos, numa altura em que, dizem, se nota um crescente à-vontade da extrema-direita em cometer crimes em Portugal.

Por volta das 15:00, hora marcada para a concentração no Largo Camões, já muitos se juntavam em torno da estátua do poeta onde, num modelo de microfone aberto, quem quis ‘subiu ao palco’ para falar a quem ali se dirigiu.

Breves discursos intervalados por palmas da assistência e pelas palavras de ordem mais repetidas – “Não passarão” – foram-se sucedendo entre quem fez questão de marcar presença para condenar o mais recente episódio de racismo em Portugal, em investigação pelo Ministério Público, que pretende apurar os factos relativos ao email intimidatório enviado a três deputadas e representantes de organizações de combate ao fascismo e ao racismo por um grupo conotado com a extrema-direita, a Nova Ordem de Avis -Resistência Nacional, ao qual também se atribui a organização da concentração frente à sede da SOS Racismo.

Citado pela Lusa, Rita Osório, da Frente Unitária Antifascista e uma das responsáveis pela organização da concentração deste domingo, que tem o nome entre os 10 que constam da lista, declarou-se surpreendida com a quantidade de pessoas ali presentes, mas disse que esperava que ainda pudessem chegar mais.

E na noite deste domingo, os coletivos antirracistas emitiram uma nota, no qual afirmam as razões da ausência na manifestação.

“Ao longo da história, o movimento antirracista tem contado com aliados naturais que, nas horas mais duras, souberam e sabem estar solidários e activos no combate ao racismo. O movimento antifascista é e será sempre, sem dúvida, um deles”, diz o comunicado a que o jornal É@GORA teve acesso.

Contudo, acrescentam: “Isso não impede, aliás exige, que em momentos-chave saibamos dizer frontalmente que nem todas as organizações antifascistas lutam a nosso lado e que nos distanciamos de algumas delas, é o caso da Frente Unitária Antifascista (FUA)”.

As 20 organizações subscritoras da nota lembram que “a violência e consequências do racismo da extrema-direita recaem em primeiro lugar e de forma mais brutal sobre pessoas racializadas, nomeadamente, negros, ciganos e imigrantes, pelo que a sua luta não deve nem pode ser instrumentalizada para alimentar a ansiedade de protagonismo de algumas organizações e seus dirigentes.
As ameaças da extrema-direita são reais e devem ser combatidas de forma séria e, sempre que possível, com a máxima unidade entre organizações envolvidas na luta por uma sociedade igualitária. Contudo, nem sempre é possível realizar ações conjuntas, o que é compreensível
pelas limitações das próprias circunstâncias das organizações, mas o que não pode faltar é lealdade e seriedade, o primeiro degrau de uma aliança entre movimento antirracista e
antifascista”.

Críticas

A decisão de os coletivos antirracistas se distanciarem da manifestação foi alvo de fortes críticas após a nota ter sido partilhada por Mamadou Ba nas redes sociais.

No Facebook do dirigente do SOS Racismo
houve quem achasse que “era bom” que Mamadou Ba “explicasse porque é que acusam outras organizações anti-fascistas de sectarismo e o catano (…), porque enquanto a People’s Front of Judea e a Judean People’s Front se chateiam, os Romanos gozam e ganham poder”, numa alusão à Extrema Direita.

“Só ‘não é possível’ realizar ações conjuntas quando não se quer. Já agora, não foi apenas um dirigente da SOS Racismo que foi ameaçado, foram vários dirigentes da FUA e núcleos antifascistas e outros coletivos. Estas manifestações não servem para andar a brincar à conquista de espaços como vocês pretendem. Se não querem estar na rua não estejam, não se façam é de vítimas”, escreveu outro cibernauta.

Uma outra ativista reagiu nos seguintes termos: “Eu até ajudei a mobilizar e tudo. No Porto, quem esteve, e estivemos muitos, estávamos, todos, em solidariedade contigo e com os outros ameaçados. Várias pessoas a mencionar as ameaças, e aplauso geral de cada vez que isso era referido porque as pessoas estão preocupadas com o que se passa, ‘mas’ e outros coletivos estiveram, mas não reduzas um protesto a isso (por mais complicadas que sejam as organizações) tal como estiveram anarquistas e os mais variados anti-fascistas. E que vamos mais vezes dizer que fascismo nunca mais. Convocai. Solidariedade e um xi”.

Em resposta a essas e outras críticas, Mamadou Ba considerou que “não se trata de divisões mas de demarcação política com práticas que não servem o movimento”.

Além do SOS Racismo também subscreveram o documento as seguintes Organizações: AFROLIS – Associaçao Cultural; A Gralha – Centro social auto-gerido; Aurora Negra; Brigada Estudantil; CABE – Comissão de Apoio às Brasileiras no Exterior; Caveleiros de São Brás; Colectivo Resistimos; Consciência Negra Em Luta; Grupo EducAR; INMUNE-Instituto da Mulher Negra em Portugal; KHAPAZ – Associação cultural de afrodescendentes; MN.E – Mulheres Negras Escurecidas; NARP – Núcleo Anti-racista do Porto; NAC – Núcleo Antirracista de Coimbra; PAC- Plataforma Antifascista de Coimbra; PADEMA – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana; Peles Negras, Máscaras Negras – Teatro do Escurecimento; RedeIPMCLO e a Associação Semear o Futuro. (MM)

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