Como profissionais da indústria cultural encaram o impacto da Covid-19 em Portugal e Brasil

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FOTO: Creative Commons ©

Stefani Costa

No dia 10 de abril, especialistas reuniram-se e publicaram um artigo no The New York Times para discutir quais serão as possíveis medidas necessárias após o pico da crise mundial para que as populações possam voltar a circular nas ruas. Segundo Zeke Emanuel, diretor do Healthcare Transformation Institute da Universidade da Pensilvânia, vice-reitor de iniciativas globais e especialista em bioética, os grandes eventos só devem voltar no segundo semestre de 2021, sendo bem otimista.

“Reuniões maiores – conferências, shows e eventos esportivos – quando as pessoas dizem que vão adiar estas conferências ou eventos de formatura para Outubro de 2020, eu não tenho ideia de como elas acham que essa é uma possibilidade plausível. Acredito que essas coisas serão as últimas a voltarem. Realisticamente, estamos falando da primavera de 2021, no mínimo”, afirma.

Para tentar perceber os impactos da pandemia em Portugal, falamos com Luis Salgado, responsável pela Amazing Events e produtor de um grande festival de música em Portugal, o Vagos Metal Fest, que diz que o governo ainda não apresentou nenhuma medida suficiente que ajude o setor, que foi um dos primeiros a paralisar suas atividades. Luís Salgado reforça que as propostas ficam aquém do que é necessário para que, no futuro, os profissionais da área sejam levados mais a sério.

“As primeiras propostas são, de facto, insuficientes para um mercado já de si frágil. Aqui a minha preocupação será primeiro para bandas, técnicos e pequenas empresas. Como já referido, fomos dos primeiros sectores a fechar e tudo indica que seremos o último a abrir, e depois ainda vamos depender da confiança das pessoas, e, claro, doutros sectores (por exemplo, o da aviação) para assegurar o regresso à normalidade”, afirma Luís Salgado.

Já para a psicóloga e também produtora de eventos, Rita Limede, será difícil salvar o mercado de eventos, mesmo que todos os apoios sejam bem-vindos. No último dia 15, o FMI (Fundo Monetário Internacional) já havia anunciado uma previsão de 8% na queda do PIB (Produto Interno Bruto) português, com mais de 380 mil desempregados.

“Poderá haver mais espaços a fechar, apostas mais conservadoras por parte das promotoras, ou, até mesmo, a falência de empresas relacionadas com a produção – som, montagem de palcos, etc. Outro dos fatores aqui a considerar será a mudança da situação económica e as previsões de desemprego na população geral, o que vai levar a que muitos dos consumidores, quando isto ‘normalizar’, a não terem forma de apoiar e de ir a tantos eventos como tem acontecido nos últimos anos”, disse.

No Brasil, as expectativas também são bastante negativas. Para Erick Tedesco, jornalista cultural, produtor e assessor de imprensa, o Governo Federal está sendo pontualmente pressionado para atuar contra a Covid-19 como qualquer outra nação e que, no momento, não se trata de assistencialismo, pois a pandemia é algo excecional.

“E hora, mesmo, de mostrar capacidade de colocar em prática um plano de salvaguarda económica à população, principalmente à camada mais pobre”, pontua.

Segundo especialistas ouvidos pelo jornal O Estado de São Paulo, o chamado auxílio emergencial de R$ 600 reais deve ser entregue para cerca de 75 milhões de brasileiros por três meses.

“Agora, em específico para a cultura, o apoio do Governo Federal é mínimo, para não dizer omisso. Afinal, é um Executivo que pouco se preocupa com o setor. Existem alguns editais de contrapartida dos Estados e iniciativa privada, nada além disso”, explicou Erick, que também acredita que o prazo para que o Brasil volte a realizar grandes eventos pode ser maior do que em outros países.

Segundo o jornalista, fazer qualquer previsão de quando a indústria cultural será retomada no país deve ser vista como ilusória, já que ainda é tudo “muito incerto” e que a grande angústia da pandemia está impregnada em tudo e qualquer plano profissional.

“Uma boa parcela dos brasileiros não estão respeitando a necessária quarentena e, gradativamente, estão voltando às ruas – foras as criminosas manifestações alinhadas à extrema direita, um festival de possíveis contaminações e que têm o aval do presidente da República. O barulho nas ruas é de dias normais, carros fazem filas em postos de gasolina, aglomerações em praças públicas, comércio burlando leis e funcionando com portas semiabertas, churrascos nas calçadas. Quanto mais a população desrespeitar a quarentena, é óbvio que o número de casos tende a aumentar drasticamente, e menor serão as chances de termos shows ainda em 2020”, diz. 

Questionado sobre como as empresas em que trabalha estão a organizar-se para ajudar colaboradores e parceiros neste momento, Erick afirma que a amizade entre os profissionais também está sendo levada em conta.

“Somos todas empresas pequenas, com um quadro de prestadores de serviço muito pequeno. A Tedesco Comunicação & Mídia, por exemplo, sou apenas eu. Basicamente, não existe uma renda mensal sem os shows, onde também acontece as vendas de merch (livros, camisetas). A ajuda, então, é informal, levando em conta os laços de amizade. Nosso setor sofreu um impacto negativo inestimável”.

Sobre planos e projetos futuros, o jornalista diz que já tem um projeto que será lançado com uma parceria entre a Abraxas, Powerline, Onstage Agência e demais produtoras. “Iniciarei um projeto em breve, voltado à importância do jornalismo musical, sem rentabilizar. Será algo de apoio, mesmo, para enaltecer a relevância da comunicação social junto à cultura. Toda atividade cultural precisa de divulgação, precisa chegar a um nicho e atingir novos públicos. É uma engrenagem”, explica.

Em relação ao número e a eficiência das famosas ‘lives’ durante a quarentena, Erick Tedesco diz que essas iniciativas são legais porque mantém o artista em evidência e em contato com seu público, mas que isso deve ser visto como uma exceção.

“Alguns artistas até lucram com isso, mas sabemos que esse é um privilégio para poucos. O artista independente está à mercê da pandemia, é uma realidade muito triste. Aliás, o independente é independente exatamente porque falta apoio de mais público, de mais mídia e de mais investidores, afinal, sabemos que qualidade muitos têm, absurdamente mais do que alguns do ´mainstream`”, complementa.

Como o Ministério da Cultura pode ajudar Portugal?

No início de abril, a ministra da cultura, Graça Fonseca, havia anunciado uma iniciativa chamada Fest TV, um evento que seria transmitido pela RTP com apoio financeiro de um milhão de euros aos profissionais envolvidos. Entretanto, a propostas sofreu muitas críticas, pois seriam os próprios artistas a escolher quem se apresentaria no decorrer dos programas, formando um círculo muito fechado de oportunidades.

“Achei que a iniciativa espelhava bem o que é a cultura em Portugal, que é favorecer sempre os mesmos ‘grandes’ sem dar abertura a artistas e a promotores/empresas independentes”, disse Rita Limede, que compreendeu a ideia de se levar um pouco de cultura à casa dos portugueses durante o isolamento, mas que a forma de execução do projeto parecia injusta.

“No meio dos artistas em Portugal há os que controlam tudo e decidem qual é o panorama, deixando a grande maioria de parte. Temos artistas de extrema qualidade no nosso país – não falando apenas do meio do metal, mas no geral – no entanto, não há nem a valorização dessa qualidade, nem a tentativa de a puxar para plataformas/palcos para uma maior divulgação. No final de contas, esta iniciativa acabou por ter o fim que merecia (…). Esperemos é que na vida pós-Covid se voltem a lembrar deste ponto de partida e que realmente se faça algo para mudar isto”, afirma Rita Limede.

Já Luis Salgado diz ter uma opinião “ambígua” sobre a proposta de Graça Fonseca.

“Por um lado achei positivo a iniciativa, caso fosse a primeira de muitas. Como medida única, era injusta, e iria deixar de fora muitas pessoas que trabalham nesta área”, explicou.

Segundo o produtor, o Fest TV deveria ter sido anunciado como “parte de um pacote de medidas”, apoiando a cultura de forma gradual. “De qualquer maneira, acho que devia ter acontecido e que a ‘luta’ poderia ser mais para criar e não para anular as iniciativas”.

O produtor também lembra uma das propostas da Amazing Events, ao lado do Vagos Metal Fest, que lançou o projeto ‘Vagos dá Palco’ para incentivar as bandas que já estavam escaladas para se apresentar no evento.

“Vamos com calma tomar decisões baseadas na realidade que se vai vislumbrando lentamente. A iniciativa ‘Vagos Dá-te Palco’ é a nossa maneira de apoiar o circuito metaleiro nacional, que, normalmente, é sempre o último estilo a ser tido em conta. Portanto, temos que ser nós a criar para nós (…) É a nossa maneira de, primeiro, mostrar a nossa união e, em segundo, lembrar a toda a gente que o metal está vivo, enquanto outras iniciativas de ‘casa’ não se lembrarem que também existe metal, punk e hardcore”, complementou. A organização do Vagos ainda não desmarcou o evento, previsto para agosto de 2020.

Na visão de Rita Limede, que também organiza festivais na cena independente, como o Xxxapada Fest, a palavra chave agora é cautela.

“É um momento de grande incerteza, e todos os planos que tínhamos alinhados até ao final de 2020, muito provavelmente, não irão ver a luz do dia. Creio que isto é transversal a todo o underground nacional, em que estamos todos a observar cuidadosamente o desenrolar da situação sem fazer grandes planos. As bandas – e uma vez mais falando no nosso caso em concreto – têm estado em constante contacto connosco, sendo que já temos várias ideias e planos alternativos para o futuro”, explicou.

O papel do jornalismo diante do coronavírus

Do outro lado do oceano, Erick Tedesco acredita que no Brasil a principal mudança será no sistema de redação, que já está adotando, de forma gradativa, o sistema home-office.

“Diversas empresas jornalísticas já não contratam em CLT (carteira assinada), mas para PJ (pessoa jurídica), o sucateamento é maior, já que nem sempre se pode exigir o deslocamento do repórter à redação. Creio que, após a pandemia, existirão mais redações virtuais – via Whatsapp, por exemplo – e trabalho remoto. Mas, realmente, algumas pautas exigem o trabalho de campo, até mesmo agora durante a pandemia”, afirmou.

Erick Tedesco também acredita que, apesar do risco, a cobertura jornalística nas ruas são necessárias por conta do momento e por ajudar a evidenciar que o jornalismo é um ofício importante à sociedade e que essa tarefa precisa ser desempenhada por profissionais qualificados.

“O momento é de combater, com o bom jornalismo, as tantas fake news que circulam pelas redes sociais, muitas vezes a única fonte de diversas pessoas. De alguma forma, o jornalismo sério e comprometido com a informação deverá chegar mais pontual à população. Oferecer conteúdo via lista de transmissão por aplicativo de conversa? Linguagem mais solta e matérias enviadas por e-mail? A sobrevivência do jornalismo em meio à crise da Covid-19 e pós-pandemia será o debate mais importante que a profissão já encarou”, finaliza. (X)

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