Consulado do Brasil “desencoraja” ida de imigrantes ao aeroporto de Lisboa sem convocação

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Desde abril foram feitos 500 pedidos de repatriamento

O Consulado-Geral do Brasil em Lisboa “desencoraja” a deslocação ao aeroporto de quem não tenha sido contactado para integrar a lista de passageiros do voo que parte esta sexta-feira, numa altura em que cerca de 300 imigrantes brasileiros residentes em diferentes regiões de Portugal estão a mobilizar-se para “acamparem” até sexta-feira no aeroporto de Lisboa, onde irão tentar o repatriamento.

Pelo menos 13 imigrantes brasileiros, albergados no Inatel de Oeiras, em Lisboa, já têm voo confirmado o voo e regresso ao país, esta sexta-feira, às 14:00.

Face à garantia do voo de repatriamento destes brasileiros e por terem presenciado o sucesso de parte do grupo que anteriormente ‘acampou’ no Aeroporto Internacional de Lisboa, os primeiros membros do grupo de imigrantes já começaram a chegar à capital portuguesa para procurar vagas remanescentes no voo que parte no dia 22 de maio, para São Paulo.

Em nota, o Consulado-Geral do Brasil em Lisboa garante que está a trabalhar “para viabilizar um voo de repatriamento adicional, sempre em benefício dos nacionais brasileiros que se cadastraram previamente junto àquela repartição consular, bem como aos consulados-gerais no Porto e Faro”.

Em contacto com o jornal É@GORA, os coordenadores dos grupos, que estão a manter contacto com vários brasileiros que manifestaram o desejo de regressar ao país nas próximas horas, dizem esperar que “cerca de 300 pessoas de Portugal todo” se desloquem ao Aeroporto Humberto Delgado para tentar lugares remanescentes no voo de sexta-feira.

André Soncin, que foi repatriado em abril, apenas com a roupa no corpo e, no entanto, permanece porta-voz do grupo dos repatriados, salientou que a ida ao Aeroporto de Lisboa “é pacífica”, assim como foi da primeira vez, até porque o grupo não tem a mínima intenção de criar confusão.

Após dias expostos ao frio de Portugal, o imigrante André Sonci (ao centro) é recebido por familiares em São Paulo
“Eu quero comunicar que algumas pessoas já estão indo para o aeroporto, pois estão ansiosas para voltar logo para o nosso país. Essa pandemia mexeu com o psicológico de todo mundo, mas estamos indo na paz, tranquilo e o governo português também sempre foi muito educado connosco, assim como os policiais. Assim como nós (os primeiros a ‘acampar’) ficamos lá por cinco dias e com toda educação, todos respeitando a lei e dessa vez não será diferente”, garantiu André Soncin em conversa telefónica com o jornal É@GORA.

“Queremos apenas ir para nosso país, nada mais. Estamos tentando de todas as maneiras possíveis, mas sempre com ordem e sem qualquer intenção de prejudicar o andamento das coisas. Ninguém está indo até Lisboa para causar confusão, são pessoas trabalhadoras, idosas, pais de família e crianças que querem apenas voltar para a sua terra e aguardar por uma vaga, apenas isso”, concluiu André Soncin.

Segundo os responsáveis dos vários grupos, todos os 13 imigrantes hospedados em Oeiras já têm confirmado o próximo voo que partirá esta sexta-feira, às 14:00, para o Brasil, mas há uma lista paralela com mais 300 pessoas que desejam o repatriamento por não ter mais condições de se manter em Portugal. Mas muitas delas venderam tudo o que tinham no Brasil antes de tentar a vida num país com mais oportunidades e, principalmente, segurança.

Tal é o caso de Nair Lima de Castro, que já está no Aeroporto de Lisboa a aguardar o repatriamento.

“A minha expectativa é que corra tudo bem e que eu consiga embarcar. Com fé em Deus, eu quero ir embora, quero ir embora! Aqui está tudo bem, está calmo, está bom, está tudo nota 10”, disse a imigrante brasileira ao jornal É@GORA.

Já Vanessa Clementina de Paula, residente em Aveiro, assegurou ao jornal É@GORA que vem com o filho em busca de dois lugares.

“Sinceramente a minha expectativa é a mínima possível, pois eu não tenho confirmação de estar nesse voo, mas mesmo assim eu vou para Lisboa, ficar na fila e ver se consigo duas vagas: para mim e para meu filho. Vamos ver, já tem gente no aeroporto ‘guardando’ vaga e o voo é sexta ainda, vamos orar para que tudo dê certo para todos”, declarou Vanessa Clementina de Paula, natural de Franca, interior de São Paulo.

500 pedidos de repatriamento desde abril

Citado pela Lusa, Eduardo Hosannah, cônsul-geral adjunto do Brasil em Lisboa, disse que o Consulado-Geral do Brasil registou, até ao final de abril, 500 pedidos de repatriamento de cidadãos brasileiros em situação de “grande vulnerabilidade” devido à pandemia covid-19.

“Desde o início da pandemia em Portugal até ao final do mês passado nós tínhamos, só no Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, cerca de 500 pedidos de ajuda para regressarem ao país de pessoas em situação de grande vulnerabilidade”, afirmou Eduardo Hosannah.

De acordo com aquele responsável diplomático, tratam-se de pessoas que “não têm mesmo mais condições para ficarem em Portugal e não têm dinheiro para a viagem”, situações verificadas pelo Consulado.

FOTO: Istoé ©
O Consulado dará prioridade aos “casais com filhos e sem emprego, mulheres grávidas sem emprego, doentes e idosos, que não têm como ficar”, especificou.

Destas pessoas, cerca de 400 poderiam melhorar a sua situação se as medidas impostas pela pandemia fossem levantadas, admitiu o diplomata.

Além destes, há quem procure o Consulado para pedir ajuda para ficar: “São pessoas que, mesmo com dificuldades agora, têm a perspetiva de que as coisas podem melhorar.”

Quanto aos viajantes, referiu que as três representações consulares do Brasil em Portugal tinham também em final de abril um registo de cerca de 800 pessoas retidas em Portugal por causa do cancelamento de voos, já depois de os seis voos fretados pelo Estado brasileiro terem partido, cheios, com um total de 1.800 pessoas.

Dos 800 com passagens canceladas nem todos são turistas: “Há brasileiros que tinham passado uns meses em Portugal com família ou amigos, ou mesmo que residiam cá e tinham passagens marcadas para regressarem.”

A maioria tinha viagem marcada para abril e maio e, à medida que recomeçarem os voos regulares, poderá regressar, mas alguns já não terão condições para tal.

A pandemia do novo coronavírus e a crise económica causada pelo isolamento social lançou estes brasileiros para o desemprego e, por não conseguirem arcar com as rendas cobradas no país, muitos foram despejados. E sem ter onde ficar esperam no repatriamento uma maneira de sobreviver a este momento de incerteza ao lado da família no Brasil. (Redação e Lusa)

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