Coronavírus e a saúde mental no foco mundial

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A Covid-19 trouxe à sociedade a pauta da saúde nos seus mais diferentes seguimentos, incluindo a mental.

Elisabeth Almeida (Correspondente em São Paulo)

O psicólogo Bruno Rodrigues alerta para algumas das causas do aumento de pessoas com depressão e suicídio no mundo devido à pandemia da Covid-19 e defende que a maior dica para atravessar esta fase é a pessoa saber ‘se reinventar’. E mesmo com o desconfinamento, que já se assiste em Portugal, é preciso “criar uma nova rotina”.

Numa altura em que o Brasil se posiciona em segundo lugar no mundo quer em casos de infeção (50 mil), quer em número de vítimas mortais (mais de um um milhão), apenas atrás dos Estados Unidos, os casos de depressão tendem a subir. Mas a situação que aflige os residentes no país não deixa imune os milhares de imigrantes brasileiros, e não só, mesmo estando longe de casa.

Em entrevista ao Jornal É@GORA sobre a saúde mental, tema que está em cima da mesa nos dias de hoje a nível mundial, o psicólogo Bruno Rodrigues diz que cada pessoa deve procurar ver e se dedicar àquilo que antes não fazia porque alegadamente lhe faltava tempo, ou seja, é preciso “criar uma nova rotina”.

“Isolamento social, pânico pelo número de contaminados, mudança de rotina e desemprego são algumas das causas do aumento de pessoas com depressão e suicídio no mundo”, disse o psicólogo Bruno Rodrigues ao Jornal É@GORA.

O primeiro semestre de 2020 foi marcado pela pandemia do covid-19, causada pelo novo coronavírus e trouxe à sociedade a pauta da saúde nos seus mais diferentes seguimentos, incluindo a mental como uma das principais.

Segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a crise na economia e na saúde em todo o mundo não são os únicos a serem enfrentados pela população, colocando transtornos psicológicos causados pela depressão como principais problemas.

“O isolamento, o medo, a incerteza, o caos económico – todos eles causam ou podem causar sofrimento psicológico”, disse Devora Kestel, diretora do departamento de saúde mental da OMS.

“Pessoas que já sofrem de doenças psicossomáticas já têm instalado uma depressão ou transtorno de personalidade já são particularmente sensíveis às mudanças no habitat social e nas rotinas. É muito importante que se entenda que um dia deprimido não é uma depressão. A doença depressão precisa de um tratamento, muitas vezes, medicamentoso e psicoterapia, pois há níveis de depressão e ela precisa ser tratada como uma doença e acompanhada por um profissional da área”, explicou Bruno Rodrigues.

Ainda segundo o psicólogo, para se diagnosticar uma depressão é preciso passar por alguns estágios e ter sempre o suporte de um profissional da área.

“Neste período de pandemia, muitas pessoas têm ficado tristes, mas como identificar uma pessoa deprimida? Primeiro ela desenvolve a chamada síndrome amotivacional, perdendo a motivação e o interesse pelas coisas; ela tem uma sensação contínua de tristeza. Esta pessoa terá também perda de apetite e alterações no sono e dores no corpo, causada pela tensão; falta de concentração e sentimento de culpa e perda”, disse Bruno ao Jornal É@GORA.

Tal desânimo se deve principalmente ao isolamento social. A outra questão apontada pelas divulgações é a mudança brusca de rotina, tendo o home office (teletrabalho) como obrigatório e o facto de se dividir entre trabalho, casa e filhos, tudo ao mesmo tempo.

A crise financeira e o fechamento de lojas por todo o mundo também tem tirado o sono de pequenos e grandes empresários.

“Eu ainda custo a acreditar como está sendo este ano para a minha loja de roupas. Em 2019, a minha marca cresceu tanto que eu poderia jurar que em 2020 seria O ANO para a moda e minha empresa. Isso até aconteceu, mas só até o carnaval e depois veio o Covid-19, alto número de infectados e a crise”, contou Mayara Elisa, publicitária e empresária no ramo de roupas e confecções.

“Mesmo vendendo online eu acho que as pessoas ‘colocaram o pé no freio’ com toda essa situação e viram que fomos muito afetados pela crise económica por não termos a cultura de ter um dinheiro reserva e mesmo que as pessoas ainda tenham dinheiro, elas não estão gastando com coisas que não são de primeira necessidade. Acho que a sociedade como um todo aprendeu com os próprios erros e estão tentando se segurar, já que não sabemos quando tudo vai começar a se normalizar”, concluiu Mayara Elisa.

A depressão e também a ansiedade foram abordadas na revista The Lancet Psychiatry, onde vários especialistas defendem temas que abordam a saúde mental e destacam a necessidade de combater os impactos da pandemia na mente e no cérebro.

“Todos estamos lidando com incertezas sem precedentes e grandes mudanças na forma que vivemos devido à pandemia do novo coronavírus. Nossas enquetes mostram que essas mudanças já estão tendo impactos consideráveis na nossa saúde mental”, disse Emily Holmes, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Uppsala, na Suécia, em nota divulgada nas redes sociais.

A revista Brain, Behavior and Immunity também publicou um artigo ressaltando a importância da saúde mental em tempos de Covid-19, tendo também como comparação estudos relacionados aos efeitos no cérebro causados de pessoas que já passaram por isto, com estudos de pandemias virais respiratórias passadas, como a gripe espanhola, por exemplo, e observaram relatos de vários sintomas neuropsiquiátricos que também estão sendo pesquisados agora, em 2020 como a insónia, ansiedade, depressão, mania suicida e delírio. Tais transtornos foram diagnosticados nos séculos 18 e 19, além do começo do século 20, com a gripe espanhola.

“As pandemias anteriores demonstraram que diversos tipos de sintomas neuropsiquiátricos, como encefalopatia, alterações de humor, psicose, disfunção neuromuscular ou processos desmielinizantes (perda do revestimento protetor das células nervosas), podem acompanhar a infecção viral aguda ou seguir a infecção por semanas, meses ou mais em pacientes recuperados”, diz o texto publicado ainda no mês de abril deste ano.

Segundo o psicólogo Bruno Rodrigues, a maior dica para atravessar esta fase é ‘se reinventar’ e procurar ver e se dedicar aquilo que antes se faltava tempo: “Criar uma nova rotina. Faça cursos online e aprenda novas coisas, dedique-se a algo que te dá prazer como artes manuais. Se reinventar é uma maneira de se tornar resiliente, a vida é um momento e precisamos estar abertos a novas possibilidades e oportunidades”, disse Bruno Rodrigues.

De Lisboa, onde os casos também tendem a aumentar, a Consultora Nutricional, Michele Miranda de Almeida lembra que “é preciso encontrar o equilíbrio” e criar uma rotina, até porque, lembra, “quarentena não é férias”. 
“Algumas pessoas continuam a trabalhar. Para manter um dia a dia saudável é preciso criar uma rotina, pois dessa forma se evita os extremos.

Estabeleça um horário para dormir e acordar e evite trocar o dia pela noite”, diz a nutricionista num artigo sobre como lidar com o isolamento sem precisar, por exemplo, apelar para o álcool.

“Ficar o dia todo na cama não é bom, assim como não ter tempo para descansar também faz mal para o corpo e a mente. Procure manter seu corpo ativo, se exercite da forma que for possível, alongamentos, yoga ou até exercícios aeróbicos. A atividade física ajuda a diminuir os níveis de stress e ansiedade”, escreve no artigo publicado no jornal É@GORA.

Segundo Michelle Miranda, “é importante estabelecer uma divisão de horários para compromissos profissionais e pessoais. Se está a trabalhar de casa, estruture uma rotina para isso, se precisar cuidar dos filhos ao mesmo tempo, se organize, para que uma obrigação não atrapalhe a outra. Busque um equilíbrio, procure se possível, dividir as grandes responsabilidades com quem mora ao seu lado”. (EA)

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