Crónica: Costurar pedaços do mundo num apartamento de Lisboa

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Miguel Luís (Jurista e cronista)
Lisboa enjaulada nos prédios enfileirados na cidade; é sábado de janeiro e já passa da uma da tarde. Neste início de ano a regra é clara para todos: recolher obrigatório. Não deixem a peçonhenta língua do vírus vos lamber que depois entopem os hospitais e o caos se espalha novamente. Encerrem os estabelecimentos comerciais; encerrem as igrejinhas; tranquem as portas de casa e não saiam daí; nada de passeios.

Se não tiverem nada a fazer peguem o álbum de fotos soterrado na estante empoeirada colada à parede da sala, preparem uma canequinha de leite com chocolate quente, sentem-se à lareira e ponham a memória em lume brando. É sábado de janeiro e já passa da uma da tarde.

Do meu quarto, raramente vou ouvindo o grito de um e outro carro que rasteja lá embaixo. O frio que raspa a pele de Portugal por esta altura do ano gela-me as mãos e endurece o sangue que sinto se arrastar com preguiça nos ramos das minhas veias, como um camaleão no tronco de uma árvore. Gosto muito deste novo quarto, sinceramente. Não aperta o meu cérebro e tem uma janelinha no terceiro andar por onde entra este céu enorme que a pouco e pouco vai me engolindo o coração dos olhos.

A verdade é que não gosto apenas do novo quarto, mas também desta nova casa onde quatro imigrantes partilham comigo o espaço: um cubano, dois brasileiros e um italiano. Diz-me se isto não é ter o mundo dentro de casa! A vida de um estrangeiro que se aventura por esta margem do mar e é obrigado pelas circunstâncias da vida a partilhar casa é isto: costurar pedaços do mundo em um apartamento escavado num dos prédios enfileirados na cidade.

Sinceramente, gosto deste novo quarto, não só porque isto não aperta o meu cérebro e tem umas paredes amarelas jeitosas que me aquecem durante as horas que fico trancado, mas também porque está numa casa onde cada um dos outros quartos é um país. E um país são muitas vozes, muitas culturas, muitos cheiros, muitos sabores.
Por falar em vozes, enquanto as minhas mãos geladas cospem isto para o papel, a voz do meu vizinho italiano não pára de atravessar o buraco da fechadura e, sem permissão, entrar no meu quarto,

Mamma mia!

O homem chama-se Francesco. Disse-me que vai abrir a melhor pizzaria de Portugal. Um senhor magro e alto na casa dos cinquenta que em Agosto do ano passado decidiu ignorar as cinco décadas de vida que carrega no corpo e deixar a Itália para vir tentar a vida em Portugal. O que será o peso de cinco décadas para um corpo que carrega no meio da face um par de olhos que só sabem ver a vida como um sonho em movimento?

Como qualquer pessoa na idade dele, as rugas que o tempo desenhou na cara não deixam ninguém a duvidar que o homem já teve tantas andanças. Contou-me que não é a primeira vez que brinca de imigrante e tenta a vida longe de casa; ainda muito jovem já esteve no Brasil, onde conheceu e se casou com uma carioca bonitona como uma daquelas que vemos nas novelas da Globo. Quando descreve o seu bumbum empinado consigo ouvir os assobios de homens deslumbrados que a viam desfilar na Avenida Brasil; quando descreve a música que ela cantava sempre que seus os lábios carnudos se separassem e abrisse a boca, vejo as rugas na cara de Francesco a desaparecem; quando descreve o adocicado e excitante cheiro dos seus cabelos morenos, vejo o sorriso amarelo de Francesco a embranquecer; vejo os folículos de cabelos brancos a ficarem pretos e jovens. Mas porque nem tudo foi ouro, no segundo a seguir Francesco se cala e a miscelânea de saudade e descontentamento faz tudo evaporar e o homem encerra a conversa sobre a ex-esposa com uma frase enigmática, foram cinco anos difíceis.

Depois de um silêncio agressivo, os olhos de Francesco voltam a brilhar quando fala do sonho que o trouxe a Portugal. Deixo-me levar pelo que me diz até tudo se dissolver em uma única imagem, massa fofa, pepperoni, queijo, cogumelos, azeitonas, molho de tomate, pimenta, cebola.

É claro que sim, Francesco abrirá a maior pizzaria de Portugal. É Claro que o sangue do imigrante é da cor do sonho!

Lisboa enjaulada nos prédios enfileirados na cidade; é sábado de janeiro e já passa da uma da tarde. Não me importo de estar aqui trancado. A verdade é que não gosto apenas do novo quarto, mas também desta nova casa onde quatro imigrantes partilham comigo o espaço: um cubano, dois brasileiros e um italiano. Diz-me se isto não é ter o mundo dentro de casa! (X)

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