Covid-19: A batalha dos 77 moçambicanos pelo repatriamento do Brasil

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Manuel Matola

Pelo menos 77 moçambicanos estão a lutar para serem repatriados do Brasil, um dos países com mais casos de Covid-19 a nível mundial, mas parte dos membros deste grupo “não tem dinheiro para regressar” a Moçambique, disse ao jornal É@GORA o estudante Ângelo S. T, residente na Baía, Salvador.

Segundo Ângelo, 15 dos 77 moçambicanos que integram o grupo de estudantes já tinham adquirido bilhetes nas companhias aéreas etíope e do Qatar, mas viram a possibilidade de viajar cancelada por não haver voos oficiais para a capital de Moçambique, Maputo, onde o espaço aéreo se mantém encerrado devido à Covid-19.

“Alguns conversas” partilhadas no grupo de Whatsapp criado para discutir formas de resolver o assunto “revelam inépcia pelo menos da embaixada de Moçambique aqui no Brasil. Pessoalmente tive conversas com alguns técnicos da embaixada. Primeiro procurei saber a forma de operacionalizar o artigo 14 (do decreto presidencial sobre o Estado de Emergência). A resposta seca foi: nós nem sabemos se este artigo vai incluir o Brasil. Tem que se fazer o levantamento dos países que terão voos recíproco com Maputo, mas não sabemos se isso vai incluir Brasil”, disse o estudante moçambicano residente na Baía, Salvador.

O referido artigo 14 autoriza a entrada de cargueiros e voos charters no espaço aéreo moçambicano, mas “excecionalmente” permite voos e transportes de passageiros “com determinados países, em regime de reciprocidade”, decisão que entretanto “compete ao ministro que superintende a área dos transportes determinar a frequência dos voos e os países de destinos”.

Para o estudante, há alguma “inépcia” da parte da embaixada de Moçambique em Brasília que leva a comunidade estudantil a descrever a atuação da missão diplomática naquele país latino-americano como sendo “uma autêntica comédia”.

No entanto, o estudante considera existir “um pseudo-fechamento do espaço aéreo moçambicano, porque as pessoas do mundo todo entram e saem de Moçambique através da Tanzânia”.

O imigrante assegura que “alguns colegas já conseguiram” regressar ao país usando este itinerário: Brasil, Tanzânia e Moçambique, que conta com o apoio da própria transportadora aérea moçambicana, LAM, que, de resto, hoje anunciou a realização de um voo único de repatriamento de ida e volta de “Maputo a Dar-Es-Salaam via Pemba” para todos os nacionais que estão fora do país.

“Este voo destina-se exclusivamente a repatriamento”, anuncia a companhia área de bandeira moçambicana através da agência Cotur, que garante que no “dia 30 de julho, a LAM irá operar um novo voo de ida e volta de Maputo para Dar-Es-Salaam, via Pemba, através do qual poderá fazer ligação com voos internacionais KLM, Ethiopia e Qatar”.

Comentando a existência destes voos de Tanzânia para o território moçambicano, Ângelo M considerou que a LAM está a fazer uma “espécie de “chapa-100”, ao usar um modelo de voos charters para repatriar os nacionais que estão na diáspora, quando as outras companhias não podem voar para o país.

“Eu próprio estou a encetar esforços no sentido de fazer esta curva: Salvador, São Paulo, Dar-Es-Salaam e depois Maputo, com a LAM. Portanto, a LAM está a fazer uma espécie de ´chapa-100` entre Tanzânia e Moçambique” quando “as outras companhias não podem voar”, disse.

“O único problema deste voo é só o preço”, considerou outro estudante num comentário partilhado no grupo de WhatsApp, a que o jornal É@GORA teve acesso.

O preço dos bilhetes que estão a ser aplicados pelas companhias aéreas que operam em Moçambique já havia sido denunciado por membros da comunidade moçambicana aquando do início do repatriamento de nacionais residentes em Portugal.

Mãos atadas

Por sua vez, em contacto com o jornal É@GORA, o estudante José M. contou:

“Hoje ficamos a saber que haverá um voo especial de ‘repatriamento’, a ser feito pela Ethiopians Airlines. Entramos em contacto com a agência de viagens que representa a companhia aqui no Brasil para negociar a nossa integração nesse voo que vai partir de Adis Abeba no dia 31/07 rumo a Maputo. Fomos informados que era possível, mas teríamos que pagar uma diferença dado que as passagens são vendidas pela agência Matriz.
Quando solicitamos o valor para o trajeto São Paulo-Maputo ficamos escandalizados por saber que teríamos de pagar 2000 USD, contra 828 USD que pagamos para o valor comercial (tarifa de grupo). Estamos de mãos atadas e impossibilitados de pegar o tal voo de repatriamento por causa do elevado valor que é cobrado. Ou seja, quem quiser aproveitar este voo especial terá de acrescentar 1172 USD”.

No Brasil, disse, Ângelo, “deve haver mais pessoas, que não são estudantes, que estão nessa situação”, cujo problema central não se esgota na falta de dinheiro para regressar ao país.

Segundo disse, a ideia de regresso surgiu porque houve uma agência em Maputo que divulgou um cartaz publicitando um voo que iria recolher brasileiros de Moçambique para o Brasil.

“Então, pessoalmente envolvi-me nessa ideia de contactar a agência que tramitou a minha vinda para aqui que está a tentar me assistir para o regresso e dessas conversas surgiu uma ideia de aproveitar esse movimento de ver se à ida ou à volta se podia levar os moçambicanos que estão aqui. É aqui onde se inscreveram só 7 colegas, dois deles têm bilhetes suspensos. Os outros 5 – eu e mais outros quatro – nos alistamos para pagar o bilhete. Acho que esta ideia não vai vincar muito porque são só sete e não sei se comercialmente isso seria vantajoso para a empresa. Mas continuamos à espera enquanto exploramos outros caminhos. Não há envolvimento nenhum do governo porque ficou provado que a embaixada de Moçambique cá, que devia ser intermediária desse processo, não está a ter capacidade de o fazer”, afirmou.

Exemplificando, disse: “Ontem procurei saber qual seria o papel da embaixada e disseram-me: a gente vai verificar. E há muitas reclamações. Eu posso partilhar algumas reclamações de colegas acerca da inépcia da embaixada, que chegou a dizer uma coisa absurda: esse assunto era tratado pelo governo. Então eu fiz uma formulação um pouco irónica dizendo: eu estou errado. Julguei que a embaixada fizesse parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que é um Ministério do governo de Moçambique. (O técnico da embaixada) depois reconheceu que tinha cometido um erro. Então, há aqui um jogo de os técnicos da embaixada se escudarem e não realizarem aquilo que seria a sua tarefa principal, que é assistir os moçambicanos que estão aqui”.

“A nossa embaixada aí no Brasil é uma autêntica comédia”, comentou outro estudante que, entretanto, já regressou ao país, seguindo o trajeto Brasil, Tanzânia, Moçambique, usando meios próprios. (MM)

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