Covid-19: Associação Unidos de Cabo Verde anula propinas, introduz aulas via WhatsApp e cria ementa criativa

1
241
Alunos do Jadim de Infância em contexto de aulas

Manuel Matola

A Associação Unidos de Cabo Verde (AUCV) anulou propinas de todos os alunos que frequentam o seu Jardim de Infância e introduziu três inovações adaptadas para contingência da Covid-19: o estabelecimento passou a usar o WhatsApp para partilhar conteúdos educativos com os pais, está a produzir máscaras sociais para distribuição gratuita e prepara uma ementa adaptada à fase pós-Covid.

Com a declaração do estado de emergência, a 18 de março, que ditou também o encerramento do pré-escolar que acolhe crianças dos três aos cinco anos, a AUCV deixou de cobrar mensalidade das 75 crianças que possui no seu Jardim Infantil, localizado no Casal da Mira, na Amadora, Concelho que alberga grande parte da comunidade imigrante.

A decisão de anular as mensalidades dos alunos deve-se ao facto de quase a totalidade dos pais e encarregados de educação das crianças que estudam naquele estabelecimento de ensino terem ficado no desemprego ou terem tido quebras abruptas de rendimentos devido à atual situação pandémica.

Com a medida adotada, aquela associação tornou-se na primeira das dezenas Instituições Particulares de Solidariedade Social existentes no Concelho de Amadora a aliviar as despesas das famílias daqueles alunos, cujos pais trabalham, sobretudo, na restauração, um dos setores onde os empregos caíram a pique após encerramento das atividades que levou a entidades empregadoras a recorrerem ao lay-off.

Em declarações ao jornal É@GORA, a presidente da Associação Unidos de Cabo Verde, Maria João Marques, disse que, contrariamente a algumas IPSS daquele Município e não só, a sua instituição não recorreu ao lay-off simplificado, uma vez que mantém acordos de cooperação com a Segurança Social, que mensalmente atribui uma comparticipação para o normal funcionamento daquele Jardim de Infância, não prejudicando assim os rendimentos dos colaboradores.

No entanto, a Associação Unidos Cabo Verde viu-se confrontada com um dilema: os seus associados, na sua maior afrodescendentes, que têm os filhos a estudar no Jardim de Infância, estão a enfrentar enormes carências sociais e económicas por estarem vinculados a empregos cujo patronato enfrenta uma situação de crise empresarial desde a eclosão da pandemia.

E mais: o valor correspondente às mensalidades anuladas “representa 50 por cento das receitas” da associação, disse a presidente da AUCV em entrevista ao jornal É@GORA, na qual admitiu que, no pós Covid, ainda poderá haver “quebra nas frequências” dos alunos que pertencem, sobretudo, a famílias monoparentais dos bairros sociais Casal da Boba e Casal da Mira, na Amadora.

Aulas pelo WhatsApp

Entretanto, o setor pedagógico da AUCV continua com as atividades letivas, tendo, inclusivamente introduzido um recurso inovador para continuar a ensinar: o telemóvel, que é usado para facilitar a metodologia de ensino assente na partilha de conteúdos educativos no contacto diário entre os pais e as educadoras, estas que estão a seguir à risca plano curricular do Jardim de Infância, embora adaptado para esta contingência.

Em conversa com o jornal É@GORA, Catarina Ferreira, coordenadora pedagógica do Jardim de Infância da AUCV, disse qual foi a estratégia usada pelo Jardim de Infância para conseguir interagir com os pais e alunos que estão em casa de quarentena na sequência da Covid-19.

“Criamos um grupo de WhatsApp, onde lançamos uma ou duas atividades por dia”, contou a responsável pedagógica, assinalando alguns dos vários desafios que há três semanas têm sido propostos também pelos pais, que estão “a participar ativamente” e a “mandar muitas sugestões de atividades”.

Segundo Cristina Ferreira, “tudo começou com a proposta de desenhar o arco-íris que é o símbolo da pandemia”, cujo objetivo era passar a mensagem positiva do pós Covid-19, a famosa frase “Vamos todos ficar bem”.

“O desafio era contar o que vamos encontrar no final do arco-íris”, ou seja, no pos Covid. E entre as várias respostas dadas, houve quem tenha apresentado a seguinte: “Espero encontrar uma rua em que não haja Covid para que eu possa jogar a bola”, contou Catarina Ferreira sobre a “sensação de o aluno querer encontrar uma rua livre”.

Além desta resposta, também houve quem tenha querido encontrar bens materiais, nomeadamente, brinquedos, disse.

A responsável frisou que nas atividades curriculares que decorrem duas vezes por dia, tanto no período da manhã como no da tarde, todos os intervenientes partilham com a escola mensagens escritas, de voz e vídeos.

“Alguns mandam desenhos e depois relatam pela voz” o teor das figuras, exemplificou a educadora, apontando as várias vantagens deste método de trabalho quer para os professores, alunos, bem como para os próprios pais e encarregados de educação.

“É mais fácil perceber quais as dificuldades que eles (os alunos) vão tendo e nós irmos reforçando” a aprendizagem, até porque “há um apoio mais direcionado” a cada menor, o que leva a que “o trabalho deles seja mais valorizado”, referiu Catarina Ferreira.

E mais, acrescentou: “os pais apercebem-se também muito mais o que é nosso trabalho que é feito na escola e da capacidade dos filhos”, que, inclusivamente, “se sentem estimulados quando são elogiados pelas educadoras na presença dos pais”.

Apesar de o retorno às aulas estar previsto para início do próximo mês e hoje ter arrancado oficialmente a telescola, a coordenadora pedagógica do Jardim de Infância da AUCV já faz um balanço da experiência do uso de WhatsApp para dar aulas, especialmente, a menores da sua turma, que têm cinco anos.

“Foi muito melhor do que se podia prever. A meu ver havia pais que desvalorizavam o pré-escolar”, mas, “quando voltarmos à normalidade” vai ser diferente. Por exemplo, “o uso de telemóvel para partilha de conteúdos pode ser um complemento bastante interessante para ser utilizado no futuro de uma outra forma”, considerou.

Ementa criativa
O nutricionista da AUCV Diogo Marques Alves prevê apresentar dentro de um mês “uma ementa equilibrada, fácil de preparar e que não utilize muitos utensílios na hora de confeccionar a refeição” quando as 75 crianças que estudam no Jardim de Infância voltarem às salas de aula no pós Covid. Enquanto, os menores não regressam à escola, pretende que a ementa seja experimentada em casa juntamente com as famílias.

Com base em produtos doados pelo Banco Alimentar, que apoia a AUCV, a ideia do nutricionista é reduzir a utilização de utensílios e “é fazer (por exemplo) comidas mais pastosas, mais fáceis de confeccionar, mas com nutrientes necessários”, disse Diogo Marques Alves, em declarações ao jornal É@GORA.

Exemplificando, apontou o puré, um alimento que permite “colocar uma criança a comer com uma colher e não utilizar muitos talheres”, o que diminui o risco de contágio por coronavírus.

“O objetivo é haver menos repetição possível” dos alimentos consumidos, algo que requer, por vezes, “ser criativo”, disse o nutricionista, que ainda não sabe “se daí sai um livro” de receitas de ementa especial para ser usada, sem repetição, durante um mês.

“Deixa-me ver”, concluiu. (MM)

1 COMENTÁRIO

  1. Li a pagina e achei que estava com bastante conteudo e muito intersante com toda a verdade desta pandemia que esta a ser uma segunda guerra mundial forca jornal EAGORA

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here