Covid-19 e a falência do percurso migratório dos que ousam sonhar

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Manuel Matola

A atual crise pandémica ditou a falência do percurso migratório de mais de mil estrangeiros desde que Portugal decretou o estado de emergência há quase um ano, mas a interrupção de sonhos dos que decidiram voltar aos países de origem contrasta com os novos sinais lançados pelos imigrantes que ainda ousam estar cá a olhar para o futuro europeu com esperança.

“Os planos e projetos e sonho não podem fugir da pandemia”, diz o professor brasileiro Adailton Correia, num grupo virtual de imigrantes que residem no território português, onde quem está do lado de cá ajuda a tirar dúvidas sobre o processso de imigração e a responder recorrentemente à pergunta feita pelos que, por enquanto, estão do lado lá: “já se pode vir a Portugal?”.

Adailton Correia é dos brasileiros que espera concretizar os seus planos de residir na capital portuguesa, Lisboa, “depois de tudo isso acabar”. E por “tudo isso” refere-se aos casos de Covid-19 que, pela primeira vez, atingiram, esta segunda-feira, o valor mais baixo desde setembro do ano passado: 34 mortos e 394 novos infetados.

Quando as autoridades sanitárias portuguesas anunciaram hoje um novo marco histórico registado, nas últimas 24 horas, o governo angolano dava conta da realização do primeiro voo humanitário, no corrente ano, que “transportou desde Lisboa, num avião da TAAG, 229 passageiros, entre os quais nove doentes da junta médica que estavam em Portugal a receber tratamento médico, mas que entretanto tiveram alta”.

Para trás ficam outros tantos imigrantes, uns que lutam por regressar ao país – onde preferem enfrentar as incertezas da Covid-19 na terra natal -, outros, que cá pretendem ficar por serem doentes oncológicos, transplantados e hemodialisados. São os que acreditam que, em caso de retorno, poderão “ir para a morte” em Angola, porque o país não tem condições para atender essas patologias.

O executivo angolano tem um entendimento contrário, pelo que ordenou aos 286 angolanos em junta médica o regresso imediato ao país de origem enquanto procede à revisão das regras para a transferência de doentes para Portugal por forma a estabelecer o “princípio de igualdade de oportunidades”, porque o atual mecanismo beneficia, sobretudo, a classe média e não os cidadãos mais necessitados.

Parte dos repatriados brasileiros. FOTO: ABP
Fonte da embaixada de Angola em Lisboa assegura ao jornal É@GORA que, “desde novembro, altura em que esteve aqui uma comissão do Ministério da Saúde (de Angola), já foram 22 doentes e 12 acompanhantes que se encontram em Luanda enquadrados nos serviços sanitários nacionais”.

O grupo dos 229 imigrantes angolanos que hoje abandonou Portugal segue os 300 imigrantes brasileiros que há cinco dias foram repatriados pelo governo do Brasil, numa altura em que a pandemia está em ascensão e há uma sobrecarga dos leitos hospitalares no país latino-americano.

A situação não é nova. Há mais de seis um outro grupo de quase 300 brasileiros foi igualmente repatriado e teve que recomeçar a vida naquele que é o segundo país mais afetado pela Covid-19 a nível mundial e que está a braços com uma das mais graves crises económicas.

Por isso, a imigrante brasileira Daniela Gonçalves, que reside em Faro, adverte para os riscos de retorno ao país neste momento, depois de ter tido “a plena certeza” nas férias de dezembro de “que voltar a morar no Brasil não dá mais!”.

“Fui de férias em dezembro e tive a plena certeza que voltar a morar no Brasil não dá mais! Loucura voltar pra lá! O país está um caos, os preços do mercado estão assustadores… não é lenda. O que as pessoas estão dizendo sobre os preços é verdade… arroz 30,00, carne (nem é de primeira) 40,00kg”, diz Daniela Gonçalves ao responder a uma pergunta sobre se há vantagens de regressar ao país de origem devido aos impactos da crise pandémica em Portugal.

“Agora se você acha que voltar para o Brasil nessas circunstâncias é válido, espero que você tenha uma família financeiramente abastada para sustentar vocês até que consiga se estabilizar. Espero que também tenha casa própria no Brasil, senão só de aluguel e contas vai gastar mais ou menos 1000,00 (para mais dependendo da cidade). De mercado, para três, uns 600,00 por mês (sem luxo nenhum!). Não sobra para remédio, nem para roupa. Três: vai ter que andar a pé porque não sobra para o transporte!”, explica a imigrante, defendendo-se previamente para que não a acusem de alarmismo, mas entendam a advertência que faz a quem pense voltar para uma realidade que mudou em apenas um ano.

“Não estou alarmando sem conhecimento de causa, eu ouvia minha família reclamar, mas dezembro eu vi a realidade! Gastei 2500,00 reais em 10 dias ajudando com compras de mercado e comendo algumas coisas fora que estava com vontade, eu, o marido e três filhas! O Brasil agora está pior do que todos os anos que já vivi lá (e olha que só moro em Portugal há 1 ano)!”, afirma Daniela Gonçalves.

Em dezembro do ano passado, 1.482 pessoas fizeram inscrição num programa patrocinado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) em Portugal que ajudou 501 imigrantes de diferentes nacioanalidades a retornarem aos países de origem (276 mulheres e raparigas, e 225 homens e rapazes). Até 2022, a agência da ONU pretende apoiar o regresso voluntário de até 600 migrantes em situação vulnerável e que não tenham condições financeiras para o fazer e compromete-se a acompanhar pelo menos 70 destas pessoas a reintegrar-se na chegada à sua terra natal.

Mas fora deste âmbito, a companhia de bandeira angolana, TAAG, anuncia na sua programação a realização de um segundo voo humanitário para Angola, no próximo dia 8 de março, que irá levar parte de doentes cujos processos médicos estão atrasados devido ao problema relacionado com interrupções de consultas.

Neste grupo poderá estar a angolana Amélia Domingos, insuficiente renal há 17 anos e há 12 residente em Portugal, que, entretanto, contesta a decisão de as autoridades angolanas pretenderem refundar e redefinir “o papel da junta de saúde de garantir a assistência no país de doentes em hemodiálises ou transplantados, oncológicos, ortopédicos, hematológicos e oftamológicos”, segundo explicou recentemente aos jornalistas a ministra angolana de Estado para a Área Social, Carolina Cerqueira.

A governante assegura que a assistênciaestes doentes em Angola “correspondem a 91% das evacuações através da potencialização e melhoria das condições de atendimento e tratamentos nas unidades sanitárias a nível do país”.

Mas, Amélia Domingos questiona esta opção.

“Eles querem o quê? Assinar a sentença de óbito aos doentes todos? Isso é desumano”, lamenta a imigrante, que está hospedada num hotel em Lisboa numa situação em que a quase totalidade dos seus colegas angolanos doentes enfrentam dificuldades financeiras.

Os novos “argonautas” do pacífico ainda têm um sonho por realizar no pós-covid. (MM)

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