Covid-19: Imigrante cabo-verdiana cria vídeos artísticos para contar como filha se ocupa durante a quarentena na Itália

0
1141
Cindy Baptista e a filha Zora, cabo-verdianas que residem na Itália. Foto privada

Manuel Matola

A imigrante cabo-verdiana Cindy Baptista decidiu criar pequenos vídeos de pintura feitos pela filha de quatro anos, com quem reside na Itália, onde “todas as crianças estão fechadas em casa” por causa do surto do  novo coronavírus para “ajudar as pessoas a criarem atividades lindas com os seus filhos em momentos de crise” como a provocada pelo Covid-19.

A ideia daquela designer, educadora expressiva e mãe é “tranquilizar as famílias” e demonstrar, sobretudo, “aos que ficam em casa” como é que se procede nos dias de hoje em nações como a Itália, o segundo país mais afetado pelo Covid-19 e, por isso, o governo impôs o recolher obrigatório absoluto.

“Sejam criativos”, apelou Cindy Baptista, que por largos anos promoveu projetos de impacto social no contexto educativo, artistico e comunitário em Cabo Verde e Portugal antes de fixar residência em Itália.

Num artigo partilhado na sua página de Facebook, Cindy Baptista diz que, “apesar do pânico inicial”, por estes dias, sente-se orgulhosa do que vê pela janela da sua casa localizada na pequena cidade de Trento, onde há alguns dias surgiu um caso de uma pessoa infetada com o novo coronavírus responsável pela Covid-19.

“Desde esta altura fechamo-nos em casa e as ruas estão desertas. Apesar do pânico inicial, jovens adolescentes organizaram-se em grupos e começaram a ajudar os idosos, pessoas com doenças crónicas entre outros. São estes mesmos jovens que vão as farmácias e ao supermercado fazer as compras para entregarem em casa das pessoas”, relata Cindy Baptista sobre a iniciativa dos jovens italianos, apesar do ‘estado de sítio’ que a Itália vive.  

“Vejo-os todos orgulhosos da janela da minha casa. Também estou muito orgulhosa deles. Penso que isto é o impacto mais positivo que o coronavírus pode causar a nível mundial. É altura de todas as comunidades se organizarem. Dos jovens adolescentes esquecerem as suas diferenças e organizarem um plano de ação”, defende.

Lembrando a sua atitude proativa quando ainda em Cabo Verde na adolescência se juntava aos amigos para promover ações deste género a que chamavam de “campanha de limpeza”, a imigrante cabo-verdiana residente na Itália destaca o papel dos jovens italianos que impuseram novas dinâmicas naquela comuna.  

“Aqui também tem sido incrível porque desta forma os jovens aprendem a tomar decisões, são responsáveis com as tarefas, sabem agir em situações de crise e desconforto mundial e têm mais capacidade de iniciativa, são ativos e rápidos. Ninguém se cansa”, assegura a artista que “adorava poder ver o mesmo tipo de gesto nas outras cidades italianas”, em Cabo Verde e, especialmente, “em Portugal que neste momento as pessoas andam todas na praia a postar fotos no Instagram ou a beber cerveja nos cafés”.

“E” também, acrescentou, “no meu pais “Cabo Verde”, que acabei de saber que há três casos suspeitas de coronavírus”, disse Cindy Baptista apelando a todos: “Protejam-se, organizem-se, porque juntos somos mais fortes”. 

Já em entrevista ao jornal É@GORA, Cindy Baptista contou que desde os dois anos que a filha desenha, sendo que agora “aos quatro já desenha pessoas e animais com uma grande perfeição”.

“Todos os dias senta-se na sua secretária e a única coisa que faz é desenhar”, diz. 

E foi a pensar não só no aperfeiçoamento das habilidades artísticas de uma filha que disse à mãe que “queria aparecer na televisão como a Masha” que a designer e pintora de palmo e meio decidiram, a partir de casa, começar a “fazer algo criativo juntas, e passar o tempo com arte e criatividade enquanto esta fase não passa”.

“Como estamos em casa achei que seria um óptima ideia”, até porque “enviamos para alguns amigos que nos incentivaram a partilhar com outras famílias italianas, porque assim as pessoas começavam a fazer o mesmo com as suas crianças. Achamos a ideia engraçada”, refere.  

Questionada se vão criar um canal no Youtube, Cindy Baptista respondeu: “definitivamente sim”, até porque “podemos pôr concelhos úteis no final” de cada vídeo sobre a experiência de quarentena. 

“Abrir uma página com os desenhos da Zora é algo que já queremos há muito tempo” e “como somos uma família de artistas, valorizamos muito isso”, disse a imigrante cabo-verdiana.

Embora os vídeos possam ser partilhados maioritariamente nas línguas portuguesa e italiana, a filha de Cindy Baptista também fala português, italiano e crioulo, “por isso o impacto pode ser maior”, pois falando nessas línguas “chega a Cabo Verde aos meus pais e onde está o coração, em Portugal aos nossos amigos e aqui também enviando a nossa energia positiva à nossa comunidade”.
 
“Vamos mostrar aos pais que os sonhos das crianças não param, que são eles que devem ter a iniciativa de estimular e incentivar as crianças”, apesar das restrições impostas às famílias 
para se evitar a propagação do Covid-19, o que em Portugal e na Itália se traduziu, para já, nomeadamente no encerramento de escolas, defendeu. 

Na sexta-feira, a Organização Mundial de Saúde considerou que agora a Europa se tornou o epicentro da pandemia, pois o novo coronavírus já provocou mais de 4.900 mortos em todo o mundo, sendo que o número de infetados ultrapassou as 131 mil pessoas, com casos registados em mais de 120 países e territórios.

Na China, onde a doença foi detetada a 01 de dezembro de 2019, os dados das autoridades chinesas apontam para 3.176 mortos naquele que é o país mais afetado pela doença, seguido da Itália, com um registo de 1.266 mortos. Portugal tem 112 casos confirmados. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here