Covid-19: O drama de imigrantes brasileiros que não conseguem retornar a Portugal

1
565
Foto: A Viagem dos Argonautas ©

Elisabeth Almeida (correspondente em São Paulo)

As imigrantes brasileiras Priscila, Ana e Neuza residem há anos em Portugal, de onde saíram temporariamente para rever as famílias no Brasil. Mas a eclosão da pandemia de Covid-19 impôs-lhe um obstáculo: a permanência intemporal no país de origem até que a decisão de encerramento de fronteiras seja levantada. Hoje, o trio tem empregos em risco e as férias viraram um pesadelo. Os seus voos de regresso às suas casas nas terras lusas estão cancelados.

“Sinto-me arrasada”, confessa Priscila Ribeiro, que trabalha numa loja na capital portuguesa, Lisboa.

Não é de hoje que milhares de brasileiros deixam tudo o que possuem em busca de melhores condições em Portugal. De acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), a quantidade de imigrantes tupiniquins cresceu 43%, chegando a 151 mil pessoas regulares no país e estima-se que este número seja ainda maior, levando em consideração os que vivem ilegalmente ou que tenham a dupla cidadania.

Esse aumento expressivo de brasileiros atravessando o Oceano prende-se com a busca de segurança, melhores condições de vida e emprego, seja por questões políticas ou apenas para viver o “sonho Europeu”. Como se já não bastasse a frustração em sua terra natal, o Covid-19 impôs a estes imigrantes outro obstáculo, o fechamento das fronteiras do Brasil e de Portugal.

Muitos brasileiros que vivem em terras lusas vieram para o Brasil para passar férias, com filhos pequenos e uma quantia de dinheiro adequada apenas para tal viagem, até que se depararam em meio a uma pandemia mundial e seus voos foram cancelados, sem previsão de remarcação e sem reembolso.

Para a atendente de loja, Priscila Ribeiro, pessoas com residência deveriam ter o direito de entrar no país.

“Vivo em Lisboa há dois anos e vim ao Brasil para passar férias com meu filho, que é menor de idade e nosso retorno estava marcado para o dia 20 de março, mas a viagem foi cancelada. Além do prejuízo de R$ 5 mil, sinto um enorme descaso por parte da companhia aérea e também dos governantes de ambos os países”, diz ao jornal É@GORA.

“Sinto-me arrasada, pois eles deveriam receber as pessoas que lá vivem. Por mais que eu tenha nascido no Brasil, minha vida, minha casa, meu emprego, tudo está em Portugal e eu não posso voltar para lá por conta do Covid-19”, reitera.

Tal situação também é vivida por Neuza Santos, que veio ao Brasil com o filho de quase dois anos para ver os familiares no interior do Espírito Santo, com viagem marcada para Portugal no dia 26 de março, que também não aconteceu.

“Está certo que esta situação toda não era esperada e que fugiu do controle de todos, mas eu e meu filho estamos à mercê da companhia aérea para retornarmos a Portugal, onde está meu marido. Eu ainda tenho onde ficar aqui e não estou desamparada, mas penso em quem não tem familiares e não tem mesmo para onde ir”, disse.

De acordo com o site da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), os viajantes devem tentar resolver, primeiramente, entrando em contacto com o atendimento da empresa de aviação responsável pelo voo.

Ainda segundo a página eletrónica, o prazo de reembolso é de uma semana e começa a ser contado a partir da data em que o pedido foi feito pelo passageiro. Por conta da pandemia causada pelo Covid-19, as pessoas que compraram passagens até o dia 31 de dezembro 2020 terão direito a devolução do dinheiro investido ou alteração da data sem aplicação de multas contratuais.

Foto: “Irmãos de Vaca” ©

Em declarações ao jornal É@GORA, as brasileiras entrevistadas reconhecem que nem sequer sabiam da existência de um Estatuto de Igualdade entre Portugal e Brasil, mesmo assim acham que, por viver no país de Camões, deveriam ter o direito de retorno garantido.

“Eu vivo em Lisboa e fiquei três anos sem tirar férias para juntar dinheiro e vir para o Brasil, em Fortaleza, tendo minha viagem para Portugal marcada para o dia 5 de abril, até que a empresa aérea começou a colocar nas redes sociais sobre a redução de voos. Desta forma eu entrei em contacto com a companhia e remarcaram minha passagem saindo do aeroporto de São Paulo e logo depois cancelaram outra vez”, explicou Ana Silva, que questiona ainda o descaso diante desta situação.

“Acho que a companhia deveria pagar um tratamento de ansiedade para mim. Eu entendo toda a questão do coronavírus, mas uma empresa não pode se eximir da responsabilidade em razão disto. Tudo o que eu tenho está lá, minha casa, emprego, tudo! Não quero reembolso, quero apenas ir para casa”, completou.

O primeiro caso confirmado de coronavírus no Brasil foi ainda em fevereiro, no dia 2, sendo um homem com mais de 60 anos que tinha acabado de retornar de uma viagem para Itália, com escala em Paris. Já em Portugal o primeiro caso apresentado pelo Ministério da Saúde foi também no mês de fevereiro, no dia 26 e de lá para cá o número de infectados nos dois países cresceu exponencialmente. De acordo com o Ministério da Saúde do Brasil, até o dia 2 de março, já são 7.910 casos confirmados e 299 mortes causadas pelo covid-19; já em Portugal os casos aumentaram em 9,5%, chegando a 9.034 infectados e 209 mortes.

Toda está situação gerou pânico em todo o mundo e não só a Comunidade Europeia, como também países da América do Norte e Sul decidiram fechar suas fronteiras, para diminuir o tráfego de pessoas, supostamente contaminadas.

Tal medida gerou uma grande polêmica na comunidade brasileira, que vive em Portugal, pois todos os que cruzaram o Oceano o fizeram com a esperança de oportunidades, de refazer suas vidas e dar novos traços à sua história de vida.

São pessoas que, muitas vezes, venderam tudo, literalmente, em seu país de origem para desbravar o mundo; só o mundo já estava doente, gerando insegurança e desespero para quem já havia perdido tudo e corre o sério risco de perder outra vez.

Com o fechamento das fronteiras de ambos os países, a situação dos brasileiros que residem em Portugal e estão impedidos de retornar causa indignação a todos, especialmente por conta da falta de informações oficiais.

“Primeiro me disseram que sairiam dois voos por semana e logo depois já não há para dia nenhum. Eu sinto um descaso enorme por parte deles (companhia aérea) e não sei o que vou fazer, me sinto completamente perdida, como eu vou me refazer outra vez? Tudo o que eu tenho está lá e não aqui no Brasil”, concluiu Ana.

Para o saneamento de qualquer dúvida, a ANAC criou um conteúdo especial para dúvidas e orientações sobre o setor aéreo diante do covid-19, basta acessar https://www.anac.gov.br/coronavirus. (EA)

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here