Covid-19: O Governo terá que ser mais assertivo na reinvenção dos imigrantes, defende Plataforma Geni

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Imigrante brasileira Ana Paula Costa, mentora da Plataforma Geni

Nilza Rodrigues

Tensão aumenta com o covid-19, revela Ana Paula Costa, mentora do projeto que apoia as imigrantes brasileiras em Portugal.

Somos todas Geni. Autónomas. Apartidárias, mas não apolíticas. Lutadoras. Em prol do empoderamento das mulheres. Pela igualdade do género. E pela… migração feminina. Assim nos explica Ana Paula Costa, a mentora do projeto Geni que, com um ano de existência e 1899 seguidores do facebook (à data da entrevista) assume-se como “um coletivo que atua em Lisboa com duas atividades principais: um grupo de conversação em inglês para mulheres imigrantes, o women talk, que tem o objetivo de as ajudar a aprender e praticar o inglês; e o FemiGENI, que é uma roda de conversa aberta ao público, onde debatemos, conversamos e partilhamos diversos assuntos”.
Imigrante brasileira a viver em Portugal há quatro anos, Ana Paula aproveitou essa experiência para criar algo novo “ouvindo outras mulheres e compartilhando muitas vivências, não poderia deixar de continuar a lutar pela igualdade de oportunidades e pelos direitos humanos aqui”, explica. E assim nasce a plataforma pelas mãos da mestre em ciência políticas e relações internacionais, formada na Universidade Nova de Lisboa, com foco na área de políticas públicas. E foi com a própria que o jornal É@GORA conversou. Sem tabus nem preconceitos.

O covid-19 acaba por trazer uma nova dinâmica à vossa Plataforma, no sentido de que são procuradas para informar e ajudar nesta fase de incerteza para a comunidade de imigrantes. Como têm dado feedback a esse apelo?
Sim, de facto. Neste momento de crise causada pelo Covid-19 criámos uma rede solidária, ideia das Mulheres da Resistência no Exterior, nos EUA e que funciona da seguinte forma: as mulheres que precisam de ajuda cadastram-se num formulário e explicam o que precisam. E as mulheres que podem ajudar também cadastram-se explicando o que podem oferecer. Tivemos muitas psicólogas e advogadas que quiseram ajudar com os seus conhecimentos, então criámos três grupos de apoio: psicológico e emocional, bens e utensílios e direitos trabalhistas.

Como é que cada grupo atua, em termos práticos?
O grupo de advogadas e juristas está a elaborar uma pesquisa sobre os direitos trabalhistas dos imigrantes, para concentrarmos as informações e divulgarmos de uma forma mais ampla. As psicólogas estão a apoiar as mulheres com crise de ansiedade e outras questões. E o grupo de bens e utensílios apoia com compras básicas de alimentos para as mulheres que estão sem ter o que comer em casa. É uma ajuda num primeiro momento, paliativa, acabamos por encaminhar os casos para a Segurança Social e para a Santa Casa de Misericórdia, por exemplo, pois muitas pessoas não sabem que podem pedir ajuda lá ou têm medo de pedir pois estão sem documentos.

O contato é feito num tom de maior desespero no contexto atual?

Temos recebido todo o tipo de feedback. Algumas estão muito desesperadas, pois têm filhos e perderam o trabalho. Outras não sabem quais são os seus direitos ou têm dificuldade em ter acesso a eles. Também há casos de mulheres com crise de ansiedade e com medo do futuro. Temos sentido a situação muito tensa, as mulheres reclamam que foram esquecidas pelo governo, que em momento algum citam os imigrantes e é realmente triste ouvir alguns relatos.

Há imigrantes que voltaram para o seu país. Há outras que optaram por ficar. Como se podem reinventar em termos de trabalho?
É uma pergunta difícil, temos apostado na rede de colaboração entre a comunidade, pois todos vão precisar de ajuda em algum momento. Acho que para se reinventar tem que ter calma, manter a saúde mental e ir fortalecendo o outro/a, comprando serviços uns dos outros, divulgando os trabalhos… O Governo terá que ser mais efetivo para a reinvenção de todos, inclusive os imigrantes, pois é muito difícil deixar para as pessoas toda essa responsabilidade, elas dependem dos seus empregos, dos seus salários.

E nesse sentido, dada a sua experiência, que imagem têm as trabalhadoras brasileiras em Portugal?

A imagem da mulher brasileira em Portugal é carregada de preconceitos e estereótipos muito ligados ao corpo e a sexualidade, e é claro que as trabalhadoras também são percecionadas assim. É muito difícil de quebrar essa imagem, mas temos trabalhado para isso, para mostrar que nenhuma mulher merece ser discriminada ou violentada, independente da nacionalidade.

Mas têm recebido queixas concretas a nível de preconceito?
Temos recebido relatos sobre a preocupação com o aumento da xenofobia. As mulheres brasileiras falam muito do aumento do nacionalismo e até que ponto isso pode gerar outros sentimentos. Mas não recebemos nenhum relato, exclusivamente nesse momento de Covid-19, de mulheres que foram despedidas por causa do preconceito, aqui está muito mais ligado à situação de precariedade laboral e exploração da pessoa imigrante.

A Plataforma pode desempenhar aqui um papel…
Certo. Todas as nossas atividades são gratuitas e visam concretizar os objetivos do coletivo, que é informar, empoderar as mulheres acerca dos direitos e ser uma rede de colaboração entre as mulheres. Acho que a experiência de uma mulher imigrante é sempre feita de desafios e luta por respeito e reconhecimento. Tenho lutado por esse espaço por mim e por quem mais vier após mim. (NR)

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