Covid-19: “Os dias por aqui são sempre incertos”, diz poeta moçambicano residente na Itália

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Poeta Amarildo Valeriano, autor do livro "Falas Impossíveis". Foto retirada no Facebook ©
Manuel Matola

Três imigrantes africanos e uma latino-americana contam a forma como o surto de coronavírus está a ser combatido quer no Japão, Macau e na Itália, epicentro da pandemia, onde “cada dia que nasce surge uma novidade” para o poeta moçambicano Amarildo Valeriano que, a partir de Veneza, relata ao jornal É@GORA “os dias que são sempre incertos”.

“A noticias que chegam não são encorajadoras”, lamenta o poeta aludindo ao facto de “algumas pessoas” continuarem a movimentar-se mesmo em cidades como Veneza, mesmo depois de sucessivos avisos do governo de Roma que decretou o estado de emergência e impôs o recolher obrigatório em toda Itália, que conta agora com 6.077 mortos, de um total de 63.927 casos de Covid-19.

“Os dias por aqui são sempre incertos. Cada dia que nasce surge uma novidade que pode ter consequências significativas na vida quotidiana atual. As noticias que chegam não são encorajadoras. Algumas pessoas continuam a movimentar-se. Mas porque não fazê-lo? E difícil parar. É difícil ver o Sol e não poder se fazer à rua. Não poder ver familiares e amigos. Não é um drama, não é o fim do mundo, mas a incerteza é tão forte que até a mais forte das esperanças corre o risco de desaparecer”, relata ao jornal É@GORA Amarildo Valeriano, autor do livro “Falas Impossíveis”.

Numa altura em que o discurso do Papa Francisco se centra no apelo às empresas de todo o mundo para não despedirem os trabalhadores e para a necessidade de a humanidade “fazer sentir que há uma sociedade solidária” a nível global, do pequeno arquipélago de Giudecca, em Veneza, o poeta moçambicano lança ao jornal É@GORA uma mensagem agridoce com horizonte no futuro.

Arquipélago de Giudecca, em Veneza. Foto: Amarildo Valeriano ©

“No estado de ânsia”, que se vive por esses dias, por exemplo, na Itália, “não é fácil (alguém) concentra-se em um livro ou na escrita. Tudo tem de ser controlado, pois o que fazer quando se precisa de uma coisa e essa não está ao nosso alcance? Não é um drama”, repete Amarildo Valeriano, que no exercício de auto consolação assegura: “vamos superar mais esta situação, isto é certo!”.

“Mas a parte mais difícil de suportar nisto tudo é a incerteza…quando isto tudo vai terminar?”, insiste o escritor que há quase uma década imigrou para Itália, hoje o epicentro do coronavírus na Europa, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

E de um dos pontos da Ilha de Giudecca, onde tem uma vista que lhe permite ver a Igreja da Misericórdia, construída como promessa e o agradecimento pelo fim da Peste Negra do século XIV, o poeta reconhece o misto de sentimento – de alento e desespero – diante do impacto de Covid-19, que em menos de dois meses se tornou numa pandemia e matou pelo menos 16.146 pessoas em todo o mundo.

“Cada vez que aguardo me encho de esperanças, mas por outras vias me chegam sempre noticias que vão alimentando a minha incerteza”, diz Amarildo Valeriano sobre o novo coronavírus, que já havia criado apreensão na moçambicana Chelsea Langa, imigrante na região japonesa de Tohoku, que em linha reta (rota aérea) a contar a partir do centro geográfico de Japão dista 9.474 quilómetros do centro de Itália.

Chelsea Langa, pesquisadora moçambicana residente em Tohoku, no Japão. Foto retirada no Facebook ©

“Recebemos com a apreensão. O Japão é um ponto turístico de pessoas vindas da China. Então, quase todas as universidades têm grande número de estudantes chineses. Por isso, estivemos sempre apreensivos” com a eclosão do coronavírus na China, em dezembro, confessa em entrevista ao jornal É@GORA Chelsea Langa, estudante de doutoramento na Universidade de Tohoku, a primeira instituição de ensino superior japonesa a aceitar inscrições de alunas, já em 1913, e a terceira mais antiga do Japão.

Apesar dos receios naturais de uma rara doença ainda sem cura, cujo combate passa também pela higienização das mãos, Chelsea Langa diz que, por já há quatro anos viver num país onde “é comum as pessoas terem gripe ou constipação” e haver uma maneira peculiar de os orientais se cumprimentarem, “nenhum hábito mudou” na sua vida.

“As saudações no Japão não são feitas dando mão”, mas sim, seguindo a famosa reverência oriental, que não passa pelo aperto de mão, muito menos em dar beijinhos no rosto, lembra.

“O japonês, normalmente, faz uma vénia simbólica. Então, esse contacto é quase inexistente. E como disse, eles usam máscara. Então são coisas que não são difíceis de incorporar”, refere a pesquisadora moçambicana.

E mais: “Quando eles ouvem falar de uma doença respiratória, o sistema de alerta logo dispara. As autoridades japonesas são muito atentas e comprometidas porque têm medo de doença. E que país não tem?! Mas eles são muito rápidos a reagir e as medidas são tomadas com rapidez”, conta.

De resto, “quando se vive aqui algum tempo, acabamos adquirindo esses hábitos. Eu vivo cá há quatro anos. E no meu laboratório ou são japoneses, ou são estudantes que já vivemos aqui pelo menos há dois anos. Então, nós já sabemos como nos comportar. Também tem a ver com a higiene pessoal”, acrescenta a doutoranda moçambicana residente no Japão.

E quando estava prestes a entrar para um comboio, um lugar onde, diz, não se pode falar ao telemóvel porque no Japão esta prática configura má educação, Chelsea Langa, que se formou em Gestão Ambiental em Maputo centra o discurso nos números para falar da atual do coronavírus comparando com os hábitos da população nipónica.

“Se numa situação, a cada dez pessoas uma tinha máscara, depois de uma semana (da eclosão do coronavírus), três pessoas passaram a usar máscara” e, “agora, cinco têm máscara. Sei que há cidades em que oito põem máscara e duas não. No comboio, (normalmente) somos metade sem máscara, metade com máscara”, garante ao jornal É@GORA.

No entanto, alerta: “alguns têm máscara porque têm alguma constipação. Outras pessoas, simplesmente, têm medo”.

Por isso, nos dias que correm “uma coisa que é importante notar é que acabaram máscaras no Japão. Sempre há, mas agora é muito difícil encontrar máscaras nos supermercados, isso quase sempre a hora do pico. A pessoa tem que ir muito cedo ou muito tarde (ao supermercado). Também reduziu muito a produção do papel higiénico. Aqui quase não tem falta de nada, mas agora já não é possível comprarmos máscara como fazíamos antes”, afirma.

Fabiana Valentina, “Sushi Chef” reside no Japão há 20 anos

E da região japonesa de Mie-ken, um concelho na ilha de Honshu, onde “muitas pessoas estão a lavar as máscaras para usar de novo porque não têm onde comprar”, a imigrante brasileira Fábia Valentina, residente no Japão há 20 anos, dá conta de muita “gente na fila” das farmácias logo às 6:00 da manhã para poderem ser atendidas mesmo sabendo que esses estabelecimentos só “abrem às 10:00”.

“O Japão todo é igual a aqui”, em que há forte procura de máscaras, que “na verdade, não protegem muito”, porque “o que protege são as mãos limpas”, refere a imigrante brasileira numa conversa com o jornal É@GORA em que centra o seu relato na questão do “uso de máscara” que intensificou em várias partes do mundo e se tornou um tema de difícil compreensão hoje para quem quer saber como se proteger de infeção do coronavírus, que provoca a doença Covid-19.

Questionada sobre coisas aparentemente corriqueiras como a forma como se faz o simples manuseamento de dinheiro e do uso de telemóvel em tempos atuais de coronavírus, a “Sushi Chef” Fábia Valentina divide a resposta em duas partes, dando, primeiro, o exemplo dos supermercados.

“Em alguns mercados, os vendedores estão a usar luvas cirúrgicas, mas no dia a dia, as pessoas normais ainda não começaram a usar. Eu sempre estou a limpar as mãos, mas quando chego a casa sempre desinfecto o telemóvel. De resto, eu não fico mexendo muita coisa na bolsa quando estou em algum lugar”, resume.

Ivan Maússe, jurista moçambicano residente em Macau. Foto retirada do Facebook ©

Em finais do ano passado, o jurista moçambicano Ivan Maússe imigrou para a Região de Macau, e no início de janeiro fez o primeiro relato sobre a situação da doença em nome da comunidade estudantil africana aí residente num texto partilhado intitulado: “Macau, Nós e o Coronavírus”, ou simplesmente corona “que até há pouquíssimas semanas acreditava-se ser unicamente nome de uma cerveja de origem mexicana”, mas que “é igualmente nome de um vírus pneumococo que terá surgido na cidade de Wuhan, na província de Hubei, na República Popular da China”.

E num resumo do texto feito há dias ao jornal É@GORA, o jurista moçambicano deu conta de um conjunto de medidas que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades macaenses para proteger os seus residentes de possíveis contágios, particularmente, em lugares públicos que requerem que se faça o manuseamento da moeda.

“Ao nível de supermercados, as pessoas são convidadas a ter que passar desinfectante nas mãos à entrada dos supermercados. Reparei também que o `stock` de produtos para desinfectar as mãos aumentou substancialmente. Praticamente todos os supermercados têm desinfectantes à entrada, à saída e nos vários corredores”, assinala Ivan Maússe sobre uma prática que contrasta com a atual realidade de Portugal.

“Portanto, há muito desinfectante que foi disponibilizado para os supermercados a nível de Macau e os mesmos estão a ser vendidos a um preço relativamente baixo para encorajar a sua compra e permitir que as pessoas desinfectem as mãos”, acrescenta.

E aponta outra medida seguida por Macau, onde, “a nível de transportes, é obrigatório que os passageiros viagem com máscara”, apesar de não haver “manejo direto” de moeda por parte dos tripulante dos autocarros, porque não existe um sistema de cobrança por parte de motorista tal como acontece em tempos normais nalguns transportes públicos portugueses.

“Só temos o motorista e temos à entrada de carro uma máquina onde as pessoas ou depositam moeda para apanhar o autocarro, ou raspam o cartão” do passe, contudo, “a nível de transportes, é obrigatório que os passageiros viagem com máscara. Não é permitido que alguém se faça dentro de autocarro sem máscara. Portanto, é obrigatório portar a máscara, de contrário, a pessoa é convidada a descer. As pessoas estão consciencializadas a andar com máscara”, conta Ivan Maússe.

Mas há duas regras coincidentes com as impostas em Portugal desde que foi decretado o estado de emergência a meia noite de quinta-feira devido à ameaça de coronavírus que já causou 23 mortes e 2.060 infeções confirmadas, segundo o mais recente balanço feito pela Direção-Geral de Saúde.

Apesar de, durante muito tempo, autocarros andarem com vidros fechados valendo-se do ar condicionado, nos últimos tempos, tanto em Macau quanto em Portugal é recomendado que os vidros estejam abertos “quase a todo o momento para permitir a ventilação para que o ar não fique concentrado”, diz Ivan Maússe referindo-se à realidade macaense.

“A nível das instituições, em todos elevadores colocaram plástico para evitar o contacto direto com o botão e, inclusive, a cada duas horas (veem-se equipas regulares) que estão a desifenctar os elevadores e os botões” para combater o surto do coronavírus, aponta. (MM)

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