Covid-19 trama brasileiros que sonham mudar de vida em Portugal

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O espaço aéreo europeu está parcialmente encerrado há mais de um mês

Elisabeth Almeida (Correspondente em São Paulo

Osvaldo Modesto Júnior tinha tudo pronto para recomeçar a vida fora do Brasil, mas a crise da Covid-19 retardou o sonho de se mudar para Portugal, de onde centenas de imigrantes brasileiros, incluindo Luana Fernandes, retornaram há dias à terra natal fugindo do coronavírus. Após aterrar no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, a brasileira, mãe de um rapaz de dois anos, suspirou de alívio por poder estar perto da família.

“A minha viagem estava marcada para o dia 24 de março, pela empresa aérea Azul, mas só ao chegar no Aeroporto de Lisboa com meu filho é que soube que o voo tinha sido cancelado. Naquele momento começou uma luta para voltar para o meu país e nada foi fácil, por descaso da empresa, tive muito trabalho até chegar em Goiás, meu destino final”, disse Luana sobre a remarcação de sua passagem para o primeiro voo emergencial da companhia Azul.

Ainda segundo Luana, os problemas estavam longe de acabar.

“Quando comprei a passagem, para o dia 24, meu filho não tinha feito dois anos e comprei apenas a minha e ele iria no meu colo. Com o agendamento para o dia 10, ele, que faz aniversário no dia 9 de abril, teve que pagar o equivalente a 4 mil reais pela passagem dele, por ter completado a idade mínima”, contou ao jornal É@GORA.

“A grande verdade é que eu cheguei no país com grandes expectativas e acabei me decepcionando, já que não consegui escola gratuita e nem emprego, ficando apenas dentro de casa” disse ao ser questionada sobre sua insatisfação com Portugal.

Em meio a pandemia mundial do coronavírus, muitos olhares se voltam apenas para a Europa, gerando o pânico em imigrantes que escolheram viver no continente, aumentando o desejo de retornar ao Brasil o mais rápido possível.

A grande questão é que os cenários mudaram completamente e hoje Portugal é considerado uma referência no combate à Covid-19 e se destaca por controlar a aumento de casos com mais eficácia que países com maior poder económico, como França, Reino Unido, Alemanha, Holanda, Bélgica e Suíça; enquanto isso, na terra de Jair Bolsonaro, o número de mortos cresceu 15%, chegando a 1.532 casos, já os infectados somam agora 25.262 casos confirmados pelo Ministério da Saúde. Os dados registados “dão” ao país o novo recorde de óbitos: 204 apenas nas últimas 24 horas.

Com relação aos casos de Covid-19 no Brasil, que aumentam absurdamente a cada dia, Luana revela que, apesar da preocupação por viajar com uma criança, nada é melhor do que estar, de facto, ‘em casa’.

“Eu tive muito medo com o aumento de casos confirmados de coronavírus em Portugal, mas quando estava lá eu respeitava a quarentena e não saia de casa. Fiquei apavorada com a ideia de estar no aeroporto, com muitas pessoas. O avião também veio lotado e, para piorar, nem todos estavam tomando as devidas precauções como o uso de luvas e máscaras. Todo esse processo foi muito desgastante, mas só de saber que estou no meu país, perto (mesmo que em quarentena) das pessoas que mais amo, penso que tudo valeu a pena”, concluiu.

Os voos emergenciais ou voos resgate da companhia Azul foram divulgados pela Embaixada do Brasil em Portugal e também no É@GORA, com nova datas até o momento para suprir os que haviam sido cancelados e consequentemente gerou um transtorno para centenas de brasileiros, que ficaram retidos na capital portuguesa por conta da pandemia mundial e o fechamento das fronteiras de ambos os países.

Em comunicado enviado ao É@GORA, a assessoria de imprensa da Azul explica que todos os turistas que tiveram voos cancelados pela companhia poderão remarcar seus bilhetes sem alteração no valor já pago.

“Todos os clientes com passagens adquiridas até 20/03/2020 para voos programados até 30/06, com origem ou destino em Lisboa ou Porto, América do Sul e Estados Unidos, podem: alterar a viagem, sem custo adicional, podendo adiar o voo para até 30 de novembro de 2020; cancelar a viagem, deixando o valor como crédito para outros voos com a Azul e sem a aplicação de taxas por esse cancelamento; ou aqueles que foram prejudicados pelas alterações e que optarem pelo reembolso, poderão receber o valor em 12 meses, de acordo com a Medida Provisória 925”, esclarece.

Em contrapartida, muitos brasileiros ficaram “a ver navios” com o surto causado pelo coronavírus, sendo forçados a adiar o sonho de uma nova vida em Portugal. Este é o caso de Osvaldo Modesto Júnior, que estava pronto para deixar o interior de São Paulo para tentar a vida em solo lusitano.

“Eu já conheço o país e sou apaixonado pela cultura, de maneira que estava com tudo pronto para ir tentar a vida no Porto ou em Coimbra, quero ver em qual (cidade) me adapto melhor. Mas por conta da Covid-19, além de ter voos reduzidos, feitos apenas para repatriamento, vou esperar para ver como a economia vai reagir no Brasil e no mundo após a pandemia”, refletiu.

“É um sonho que foi adiado apenas, pois não desisti de viver na Europa e ter novas oportunidades de emprego e qualidade de vida que, infelizmente, não temos no Brasil, como a questão da segurança. Ainda assim, quero ir o ano que vem ou talvez em 2022, tudo vai depender de como o mercado financeiro de ambos os países vai se comportar e assim irei mais preparado”, concluiu Mário.

Impacto da Covid-19 no turismo em Portugal

Além dos brasileiros que tiveram seus planos adiados por conta do coronavírus, o encerramento das fronteiras e a redução dos voos em todas as companhias que operam no território português, há um outro seguimento que também será duramente afetado em Portugal: o turístico.

Comentando o seu plano de viagem ao jornal É@GORA, a paulista Glaucia Arley dos Santos considerou que as medidas de segurança eram necessárias, mas sua viagem sofrerá grandes alterações.

“Tinha passagem comprada para a primeira semana de março, com destino a Aveiro, onde passaria quinze dias e já tinha vários passeios programados pelas cidades nos arredores. Toda essa situação pegou a todos de surpresa e acredito que o cancelamento dos voos foi uma decisão assertiva, já que desembarcar na Europa em meio a essa crise, seria péssimo e eu não aproveitaria nada”, disse ao jornal É@GORA com confiança de dias melhores.

“Acredito que logo isso tudo irá passar no mundo todo e que depois de ultrapassar esta fase difícil, vou poder replanejar minha jornada rumo à Veneza portuguesa”, complementou Glaucia.

Outro caso de quem estava de malas prontas para Portugal e teve que reformular suas férias foi Natanael Vieira Santos, que conseguiu deslocar sua passagem aérea para 2021.

“Não tive grandes problemas com a remarcação, entendo que a sociedade como um todo deve se preservar ao máximo, seguindo as normas impostas pelo Ministério da Saúde. Eu não tive nenhum prejuízo financeiro, já que consegui mudar a data. E mesmo que tivesse, a minha saúde e o bem-estar da minha família é prioridade na minha vida. Os pasteis de Belém podem esperar alguns meses”, declarou Natanael. (EA)

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