Crónica: Esta terra deixou de ser segura para nós

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Miguel Luís (Jurista e cronista)
Muita pouca luz no quarto. O ruído nervoso cuspido pelo ronronar de motor do autocarro verde-amarelo vai me dando a certeza de que a cidade acordou. Muitos pobres coitados na fila do autocarro, vejo-os eu sem precisar de olhá-los; são muitos anos na mesma lengalenga e o tempo vai se encarregando de comer as novidades. Pela janela que não me lembro por que carga de águas ficou aberta durante a noite, o céu vai espreitando o meu corpo febril que vai queimando a cama; está enublado e exibe o mesmo olhar envergonhado que ficava estampado no meu rosto quando muito mais novo saboreava, pelas janelinhas dos balneários do Liceu Salazar, os corpos nus das poucas raparigas que iluminavam os corredores daquele que já foi o maior liceu das Províncias Ultramarinas Portuguesas.

Este Agosto anda com os copos nos cornos! Alguém consegue me dizer onde é que se desenrasca uma manhã de céu nublado e um balde de nevoeiro no pico do Verão? Agosto lembra-me o sol ardente a secar, sem permissão, as lágrimas que caíam dos meus olhos na minha primeira vez em Lisboa; Agosto lembra-me ventos fortes a sacudirem as árvores de Lourenço Marques; Agosto lembra-me eu ainda cachopo e a voz do meu pai a berrar num tom premonitório e entupido de nostalgia e nervosismo
esta terra deixou de ser segura para nós!

Enquanto volto a esforçar-me para descongestionar as narinas que foram tomadas pelo resfriado que me assaltou o corpo, não consigo deixar de me ver sentado no autocarro que vai na direcção do outro lado da cidade. Muitos sonhadores no autocarro que lá vai; muitos imigrantes neste lado da cidade e todos eles sabem que devem levantar cedo para ter com o que enganar o estômago para a cabeça continuar a sonhar com uma vida melhor.

Nos anos seguintes à minha chegada à Lisboa fiz o mesmo trajecto várias vezes. O meu pai não aguentou o desgosto de voltar para esta margem de mãos a abanar e ver a pobreza e a humilhação a roerem-nos impiedosamente, como fazem os ratos com os sacos nos armazéns; o meu pai não aguentou por muito tempo e um dia minha mãezinha, que Deus a tenha, encontrou no chão do quarto o corpo dele socado pelo frio eterno. Ou era homem e ia atrás da segurança social que o Estado nunca foi capaz de prover com suficiência a quem tinha sido escorraçado do Ultramar e saíra de lá de mãos a abanar ou sentava e morria à fome. Passaram muitos anos e não paro de dizer para mim mesmo,
eu nunca saí de Lourenço Marques.

Continuo o mesmo cachopo que chorou quando com o pai abandonou Lourenço Marques, como se chora quando se toma um “não” da mulher amada; continuo o mesmo cachopo que se sentiu desiludido com o que o meu pai dizia cheio de convicção no dia da chegada,
esta é a nossa terra!

Alguém que desligue o meu corpo que a continuar assim a febre me queima os fusíveis; alguém que me desentupa as narinas para que eu possa sentir o cheiro de humanismo; alguém que me limpe a garganta para dizer àqueles fulanos que não podemos cometer os mesmos erros do passado, somos todos sonhadores e não devemos perpetuar o ódio entre cidadãos de países diferentes.

Nada voltou a ser o mesmo depois de Moçambique ser Moçambique e Portugal ser Portugal! Nada voltou a ser o mesmo depois de ouvir a voz do meu pai a dizer
esta terra deixou de ser segura para nós! (X)

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