Daniel Mendes, o candidato luso-angolano que quer travar o avanço da extremismo na Amadora

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Luso-angolano Daniel Mendes, integra a lista de Carla Neves, atual presidente da Junta de Freguesia da Venteira, Amadora

Manuel Matola

Numa altura em que o foco político do país recai sobre as Autárquicas, o Jornal É@GORA esteve à conversa com o luso-angolano Daniel Mendes, cuja candidatura pelo PS na Amadora surgiu no âmbito dos debates de reflexão que têm sido promovidos pela Associação Unidos, a única agremiação pró-imigrante que conseguiu colocar dois luso-descendentes na corrida da família socialista às eleições municipais naquele concelho que alberga mais de 100 nacionalidades. Daniel Mendes ocupa o oitavo lugar – uma posição elegível – na lista do partido que atualmente preside a Junta de Freguesia da Venteira, onde o famoso produtor cultural promete “criar uma dinâmica que possa apanhar várias pessoas ligadas à Cultura”. Esta terça-feira, os partidos políticos em Portugal iniciaram oficialmente o processo de “caça ao voto” porta a porta.

O que é que representa a sua candidatura para a Amadora e para si enquanto luso- angolano?

Este desafio é importante porque vai dar-me a oportunidade de estar neste meio político. E ao estar nessas autarquias acaba por dar uma outra dinâmica e força daquilo que se pode fazer e o que é possível de fazer pelas comunidades. A minha candidatura prende-se com a necessidade de, a determinada altura, fazer alguma coisa pelo coletivo. Numa altura onde o extremismo avança, sentir a necessidade de contribuir para melhorar o que está à minha volta, neste caso em concreto. E estando em Portugal, onde nasci, cresci, e conhecendo bem a realidade e a necessidade de cada um, está a ser ótimo participar. É um desafio que vale a pena. É possível estar dentro para poder contribuir em todas as possibilidades. Quando estamos a trabalhar e a lidar com as pessoas, conseguimos fazer alguma coisa por elas. Quando as conhecemos acaba por ser muito mais fácil, e isso é a ideia de trabalhar e o que me fez aceitar este desafio de poder estar nessas autarquias como candidato. Eu sei que vou poder contribuir.

Quando fala da ameaça da extrema-direita, olha para a candidatura oponente existente dentro da Amadora como uma possível rampa para o estabelecimento da extrema-direita?

Sim, isso é preocupante. Quando olhamos para os discursos dessa candidata e quando vemos o que está a ser feito percebemos que, se ficamos pelo falar e não participamos, nem lutamos para parar esse tipo de ideias e informações a gente não faz nada. Ao fazer parte deste trabalho vou estar dentro daquilo que é possível contribuir, nomeadamente para ultrapassar esse tipo de situações.

Daniel Mendes tem um percurso ligado à área da cultura. Este também é o objetivo, de conciliar e ligar a cultura à política?

A cultura e a política são sempre fundamentais. Eu tenho muitos anos de cultura, de promoção ao nível da lusofonia. E estar na política acaba por ser um casamento ideal porque se formos a ver, quem fazem os comícios são os artistas que vão lá cantar. E a divulgação da própria cultura em si, tem o cunho dos políticos. Estando nisso, acabo por ajudar ao nível daquilo que tenho vindo a trabalhar ao longo desta caminhada e em promover. Acredito que, estando por dentro, será muito mais fácil. Portanto, já poderei contribuir sugerindo com a criação de um festival na Amadora, criar uma dinâmica que possa apanhar várias pessoas ligadas à cultura. Estou dentro, conheço e é daquelas coisas que ninguém me vai contar. Lido com isso todos os dias da minha vida, e acaba por ser uma peça fundamental quando a dinamização da própria cultura em si e da juventude. Inclusive, como estive ligado ao desporto também poderá ser fundamental para ajudar. Como costumo dizer ‘é a cereja no topo do bolo’.

Isto significa que, na opinião do Daniel há falta de Cultura no seio dos políticos?

Ao longo desses anos sinto que há uma falta de cultura. Olhando para a própria cidade, a nível de pessoas que viveram ou vivem na Amadora, lança músicos. Tornaram-se grandes referências na música em Portugal e saíram da Amadora. Mas se olharmos para a Amadora não conseguimos ver algo que nos diga ‘A nível cultural a Amadora está presente’. Há essa falha. É uma falha que acontece em várias cidades. A nível de cultura a Amadora tem tido poucas coisas a serem feitas. Fica-se só à espera das festas da cidade, e sem ser isso não aparece nada tão relevante. É importante criar-se essa parte. A música movimenta multidões, mexe com a mente das pessoas relaxa, faz ter ideias positivas e faz crescer. É importante apostar nisso, e é uma das coisas que eu sei que poderei contribuir, ajudando a criar ideias. Porque também entendo que, muitas vezes quando os políticos não estão dentro dessa área, e não conhecem, acabam por não fazer nada é como ‘não percebo, não vou perder tempo nisso’. É por isso que é sempre bom ter alguém na equipa que percebe, que pode dar uma opinião ou outra e sugerir coisas que possam ser feitas e um garante que acabam por ser um sucesso.

Há uma sondagem que dá conta de que o PS tem a possibilidade de renovação do mandato na Amadora. O Daniel Mendes está na 8ª posição para entrar enquanto candidato. Acredita na possibilidade de eleição?

Eu acredito nessa possibilidade, tenho fé porque é isso que temos vindo a fazer. Quando recebi o convite da Presidente da Junta da Venteira, a Carla Neves, eu aceitei o desafio de mangas arregaçadas pronto para cumprir. Esperando que deste modo as mentalidades mudem, e partilhando a declaração de princípios do PS é que no artigo segundo diz que “empenhar-se em que a sociedade portuguesa seja organizada na base dos valores da liberdade, da igualdade e da solidariedade, e esteja aberta à diversidade, à iniciativa, à inovação e o progresso” , estou imbuído nesse espírito dentro daquilo que há. Tenho a certeza absoluta de que vamos conseguir ganhar. E vamos conseguir entrar sendo o número oito na lista, e tenho fé e tenho a certeza disso mesmo. Estamos no campo para isso: estamos a trabalhar na campanha para isso, estamos a falar com as pessoas fazendo entender que se votarem em nós e se renovarem com o PS o trabalho vai fazer feito. Aquilo que ainda não se fez, vai continuar a fazer-se e será benéfico para toda a gente.

“Portugal é feito de várias nacionalidades” – Daniel Mendes

Nestas eleições autárquicas nota-se muita presença de candidatos com ligação à África Lusófona. Como é que lê este aumento de candidatos com este perfil?

É uma das coisas que já foi debatida no passado, e nós começamos a ver aquilo que falávamos. Hoje em dia as coisas já vão acontecendo com uma certa naturalidade. A determinada altura, Portugal tinha que reconhecer isso, havendo pessoas capacitadas para poder ajudar. Porque já estamos cá a viver e eu cresci cá – vim com 5 anos, tenho 45 anos, praticamente tenho 40 anos de Portugal -, a minha vida foi feita cá. Tanto eu como muitos outros, faz todo o sentido aqueles que nascerem nos PALOP mas que cresceram, estudaram e vivem cá serem chamados também para contribuir. Muitos dos nossos filhos nasceram em Portugal, e temos de ajudar na promoção. Não podemos olhar mais para a cor da pele, temos é de olhar pela capacidade de cada um. Há mais de 20 anos essa foi sempre uma grande luta, e hoje os resultados estão a acontecer.

Será o efeito da Joacine Katar Moreira, da Romualda Fernandes e da Beatriz Gomes Dias?
Acaba por ser um caminho, mas essa luta não é de agora. Já vem de há muitos anos, e que cada ano vai surtindo os seus efeitos. As pessoas vão olhando para o que se faz, e a Joacine acaba por ser um exemplo mais recente. Tenho a certeza absoluta de que ao olharmos para as listas que estão espalhadas por Portugal conseguimos perceber que há muito mais pessoas que nasceram nos PALOP que estão nas listas. Portugal é feito de várias nacionalidades. Não pode ser só visto por cor, mas Portugal é de todos nós e temos de olhar e apoiar o crescimento do país.

Volvidos os quatro anos do mandato, o que é que prevê de diferente daquilo que será a sua contribuição para a Amadora?

Nada se constrói só em quatro anos. Eu poderei dar o meu máximo para contribuir em tudo. A nível de ideias, de projetos que podem implementados na Amadora. A boa relação que tenho com a candidata a Presidente, é uma pessoa bastante aberta, com muita democracia, houve opiniões. Acredito que vamos fazer um bom trabalho, que vão ser quatro anos de bom desenvolvimento de bons projetos e que iremos lançar várias coisas para serem feitas e acompanhadas. Conseguirei trazer uma outra dinâmica daquilo que a própria Junta e a própria Amadora precisam, e tenho a certeza absoluta que as pessoas irão olhar e ver que as coisas estão a dar. Daqui a quatro anos voltaremos a falar para fazermos o relatório do trabalho, e lançarmos mais projetos para os próximos quatro anos.

Esta candidatura do Daniel Mendes provem da Associação Unidos. O que é que isso representa?

Isto representa algo em que os Unidos têm vindo a trabalhar. Porque a minha candidatura vem de uma conversa com uma amiga, que é a Maria João [Marques] com quem fomos conversando, e debatendo vários assuntos relacionados com a forma que as situações têm estado a acontecer na nossa sociedade. E numa das conversas essa amiga lançou-me um desafio e disse, “Daniel, em vez de falares devias contribuir politicamente. O país e o município precisam de pessoas que entendam e consigam fazer coisas para despreconceitualizar certos mitos que a sociedade”. Quando ela me lançou esse desafio e quando conversamos sobre isso, foi ai que nasceu a necessidade de poder contribuir. Conheci o Joaquim Raposo, um antigo autarca da Amadora, que me apresentou a Presidente da Junta de Freguesia. Estamos a falar de pessoas que trabalharam e conhecem. Essa ligação toda ajudou a que eu conseguisse perceber que vale a pena. Esse trabalho dos Unidos é fundamental porque só a partir do Unidos é que fomos trocando várias ideias e várias conversas e debates para hoje poder estar aqui a falar como candidato.

O que é que a campanha significa em termos de ação política?

Nós organizamos o nosso calendário diariamente e semanalmente. Temos pouco tempo, mas vamos estar na estrada, comunicar, ter com as pessoas, vamos conversar e ouvi-las e perceber aquilo que é preciso mudar, melhorar e fazer o que a Amadora não tem. Temos de tirar todas as anotações, e vamos fazer isso para podermos um bom trabalho quando chegar o dia das eleições. Vamos dar a entender às pessoas que é importante votarem em nós para a Amadora continuar a crescer e a desenvolver-se.

Ao nível dos migrantes no seu todo, qual é o grande desafio que vê para a comunidade migrante na Amadora?

A comunidade migrante tem sido fundamental. Se olharmos para a zona do centro comercial Babilónia, é uma enchente de emigrantes. A nível económico tem contribuído bastante para a Amadora. A ideia e o grande desafio é podermos ajudar. Nós temos estado, ao longo destes dias, fomos conversando com vários e o assunto tem sido sempre o mesmo: a celeridade da documentação e a falta de documentos. Eles estão a trabalhar, querem estar legais, contribuir, pagar impostos. Essa é uma das queixas que temos tido e vai ser um desafio muito grande trabalharmos com as comunidades e com as pessoas ligadas às tomadas de decisões para ajudar e fazer entender que os processos da documentação sejam céleres. (MM)

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