“De 2009 até 2021 votaram em mim porque eu não fiz um mau trabalho” – Carla Neves

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A socialista Carla Neves, recandidata à presidência da Junta de Freguesia de Venteira, na Amadora

Rodrigo Lourenço e Manuel Matola

A socialista Carla Neves, recandidata à presidência da Junta de Freguesia de Venteira, na Amadora, defende maior celeridade nos processos de legalização dos imigrantes, admitindo que, por falta de documentos, “houve algum receio com pessoas de várias etnias” em participar no Censos-2021 naquele município que alberga dezenas de nacionalidades.

“Há muitas pessoas que não têm os documentos tratados e conseguiu-se ver essa situação na altura dos Censos. Por mais que se dissesse que não tinha nada a ver com o SEF, as pessoas tinham muito receio [de se recensear] porque ainda não tinham a documentação toda que lhes permitia estar à vontade em Portugal e na Venteira. Isso mostra que houve algum receio com pessoas de várias etnias, que não tinham as coisas completas”, disse Carla Neves, que está no último mandato à frente dos destinos da Junta de Freguesia de Venteira.

Em entrevista ao Jornal É@GORA sobre o processo autárquico, a atual Presidente da Junta de Freguesia da Venteira começa por fazer um paralelismo entre as dimensões do Concelho da Amadora, cifrado nos 24 km2, mas com uma vasta multiplicidade de etnias – cerca de 100 etnias, segunda a própria.

Depois de um percurso à base da candidatura do Partido Socialista à Junta de Freguesia da Venteira, para ficarmos a conhecer melhor os dois lusodescendentes, únicos candidatos socialistas – Daniel Mendes, que ocupa o oitavo lugar, e Cíntia Lopes, candidata, em lugar elegível -, escalamos até ao topo da lista do PS na corrida à Assembleia daquela Freguesia da Amadora para falar sobre as eleições autárquicas do dia 26 de setembro.

No cargo desde 2009, Carla Neves é a personificação do lema que traça a aposta do PS para a Amadora: foco nas pessoas e continuidade da confiança.

Criada num ambiente familiar em que o preconceito ficava do lado de fora da casa, Carla Neves conta: “A casa dos meus pais foi uma casa aberta a toda a gente, independentemente da cor de pele ou religião. […]”.

Prosseguindo, garante: “O preconceito nunca esteve nunca esteve presente na minha infância, nem agora como mulher nem como atual Presidente de Junta e recandidata à Assembleia de Freguesia da Venteira”.

Já ‘dentro de casa’ profissional, Carla Neves coloca a diversidade cultural em cima da mesa numa apresentação em que refere as vantagens da multiculturalidade na Junta de Freguesia da Venteira que dirige há 12 anos.

“Há sempre formas de estar diferentes, e isso tem de ser percebido para se conseguir criar a tal inclusão social que é tão necessária. Mas pensando e olhando para as diferenças que existem ao nível das culturas para a freguesia, acho que é uma mais valia enorme na área da cultura conseguirmos ter aquelas pessoas que são apontadas como minorias e tudo aquilo que nos podem trazer de novo ao nível artístico e da cultura. São coisas que acho que são muito importantes e iria criar aqui como uma lufada de ar fresco”, diz.

Mas se a variedade de culturas é um ponto a favor para o crescimento do Concelho da Amadora, a recandidata à Junta da Venteira afirma que, para tal, é preciso criar as condições necessárias para que aconteça a desejada inclusão social, até porque, segundo Carla Neves, são estes entraves que colocam os migrantes num processo de autoexclusão do momento político.

Num ano em que a Covid-19 ainda continua a ter alguma influência na forma como decorre a campanha eleitoral, bem como muitas atividades do quotidiano, Carla Neves recuou até 2020 para lembrar um momento em que a instabilidade foi a protagonista na freguesia da Venteira, especialmente com as famílias que foram grandemente afetadas pelo impacto da pandemia.

“Nós já tínhamos muitas famílias a quem dávamos apoio antes da pandemia e, numa semana, tivemos mais vinte famílias, assim de repente, com crianças”, lembra.

Na grande maioria, assinala, eram situações provocadas pelo desemprego ou falta de condições de trabalho. Com a falta de dinheiro, surgiram impossibilidades de pagar algumas contas, como a renda da casa.

Quando essas situações apareceram, a Junta “fez o pagamento de rendas e de uma coisa que eu nunca tinha considerado como bem essencial e que tive que passar a considerar porque as crianças começaram a ter escola em casa”: a Internet, diz.
E porque muitas famílias destes menores “não tinham Internet” o acesso a essa ferramenta se tornou “como um bem de primeira necessidade para além da água e da luz”, compara.

Para contornar a situação, assegura Carla Neves, “começámos a pagar também as faturas de Internet para que as crianças pudessem realmente continuar a ter a escola em casa”.

Questionada sobre se esta dinâmica era para continuar, a atual presidente da Junta de Freguesia de Venteira mostrou-se “disponível para dar o apoio necessário e possível aos seus munícipes e aos seus fregueses”.

Ainda com a questão da Covid-19 a ser o centro das atenções, e devido ao trabalho de vacinação levado a cabo pela task force, processo que tem sido elogiado a nível nacional, Carla Neves deixa o aviso de que a pandemia ainda não passou, pelo que, diz, é preciso continuar alerta para proteger a comunidade, de forma a evitar surtos como o que acontece no Hospital Amadora Sintra.

“Há muita gente que aderiu à campanha de vacinação, mas também será um número muito mais pequeno daqueles que continuam a achar que a vacina não faz nada e, portanto, não vale a pena serem vacinados. Mas é uma percentagem ínfima, portanto, dá-me segurança de esta situação da vacinação já ter chegado aos valores que chegou tanto ao nível das crianças como dos adultos. Espero que realmente as pessoas percebam que ainda não estamos livres da Covid-19 e, portanto, façam tudo para se proteger e para proteger os outros”, exorta.

Com a principal mensagem política a levá-la na direção da “importância das pessoas”, Carla Neves conta como a Junta de Freguesia de Venteira viveu os primeiros tempos de incerteza provocados pela pandemia. Em momentos, nos quais “o mais importante era ajudar no que fosse preciso”, a manta de trabalhadores da junta não chegava para tapar todas as ocorrências. E alguns problemas ficaram por resolver.

“E quando no auge da pandemia nós tivemos que escolher entre um auxílio muito grande a pessoas infetadas, levar comida a casa, ir comprar alimentos a outras pessoas que, com doenças crónicas e já com uma idade avançada para não saírem de casa, nós tivemos que deixar alguma coisa para trás”, lembra a socialista centrando a narrativa melancólica na avaliação do seu trabalho ao período que alterou a dinâmica dos serviços da Junta da Freguesia de Venteira.

“Tínhamos os funcionários que, por norma cortam relva e tiram ervas, a ajudar-nos a fazer esse trabalho. Eu até andei a lavar ruas com os funcionários porque toda a gente estava assustada e ninguém sabia que raio de vírus era este”, conta.

Impelida a levar comida a casa das pessoas mais vulneráveis, o executivo liderado pela candidata socialista fez algumas alterações no que diz respeito à entrega de compras ao domicílio. A nova aposta passa por um cartão com um valor estipulado para fazer compra.

Até porque isso “permite às pessoas comprarem o que gostam. Passámos não só a dar alimentos, mas também bens de higiene, gel de banho, pasta de dentes, shampoo, detergente para lavar a roupa e gel para as mãos”, enumera.
Com esses cartões, a presidente da Junta de Freguesia da Venteira explica que dessa forma há mais funcionários libertos das ações de levar comida a casa, o que permite começar a resolver os problemas pendentes dos últimos meses.

“É óbvio que não queríamos descurar os espaços verdes, limpeza pública, muito pelo contrário, e sempre que as pessoas nos enviam alguma coisa a dizer que isto não está bem, tentamos resolver. Eu até agradeço às pessoas – e quando estou a agradecer não estou a ser irónica, estou a ser o mais verdadeira possível -, porque quando as pessoas são fiscais nos seus próprios bairros, é muito mais fácil resolvermos qualquer situação anómala que exista. Vejo isso como uma mais-valia e não como algo negativo”, afirma.

Recandidata ao último mandato à frente dos destinos da Venteira – está no cargo desde 2009 -, a atual Presidente esclarece que o balanço da obra feita não se remete apenas aos últimos quatro anos.

“Se estou cá desde 2009 até agora é porque não fiz um mau trabalho e eu vejo quando me perguntam um balanço do meu mandato. O balanço do meu mandato é este. De 2009 até 2021, as pessoas votaram em mim porque eu não fiz isso um mau trabalho. Posso não ter feito um trabalho excelente, principalmente este ano com a situação da pandemia, mas aquilo que eu quero garantir é que tudo aquilo que eventualmente possa ter ficado para trás, que esteja nesta altura menos bem, já estamos a tratar de recuperar”, assegura.

E dá como exemplos as atividades desenvolvidas em prol da população sénior do Concelho da Amadora.
“Neste momento estamos a fazer articulação com outras juntas de freguesia e com a Câmara para levarmos a cabo as férias seniores. Claro que mais reduzido do que fazíamos nos outros anos, mas o ano passado não tínhamos conseguido fazer e há dois anos também não. Este ano já conseguimos, portanto, isto é um sinal de que as coisas estão a entrar nos eixos”, conclui. (RL e MM)

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