Dia Mandela: Entrevista ao marinheiro Luís Serpa sobre a sua 2ª Volta ao Mundo

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Nelson Mandela, o último líder de África mais respeitado no mundo

Manuel Matola

O marinheiro e escritor português Luís Serpa vai iniciar, em outubro, a sua 2ª Volta ao Mundo numa barco à vela onde pretende prosseguir o registo da saga que já publicou no primeiro dos dois volumes do livro “Avenida da Liberdade, N.º 1”, à venda desde janeiro. As obras do ex-funcionário de uma agência humanitária da ONU são o relato de experiências vividas em África, um continente que considera ser um “desperdício de tudo: dinheiro, vidas humanas…”.

No Dia Internacional Nelson Mandela, uma comemoração instituída pelas próprias Nações Unidas, o jornal É@GORA falou com o autor e este “imigrante especial” sobre os desafios globais na era pós “Madiba”, o futuro das ajudas para o desenvolvimento em África, numa altura em que todos os líderes daquele continente estão a braços com novo inimigo comum: a Covid-19, “a primeira histeria global da História”, diz.
Sobre o papel da Organização supranacional para repor a ordem mundial, Luís Serpa tem uma opinião: “Há coisas muito úteis na ONU, mas em termos de políticas não serve de nada”. Confira a entrevista:

O que um marinheiro faz em tempos de Covid-19?

(Risos) Por acaso estou em terra. E neste caso, estou a trabalhar num barco a fazer uma coisa chamada “refit”, uma reparação muito grande num barco. Os barcos quando chegam uma certa idade têm que ser reconstruídos. Eu já não estava a navegar. Estou aqui há dois anos a fazer isso e com a Covid-19 isso veio atrasar o programa todo do barco, mas não houve uma mudança, digamos, radical. Já estava a viver numa casa, não a viver no barco. E isso está a ficar um bocado complicado porque não há maneira de acabar. Não há maneira de ter um fim. Agora aqui nas ilhas Baleares (um arquipélago localizado perto da costa leste da Espanha) vão tornar obrigatório o uso de máscara na rua a partir de segunda-feira. Para mim é um retrocesso, uma coisa que não se percebe rigorosamente nada e isso vai atrasar tudo mais uma vez. O que é uma chatice.

É uma nova Avenida?
É uma nova Avenida, só que não é da liberdade, é da prisão (risos). Estou mesmo na minha avenida.

Este seu livro Avenida da Liberdade nº1 já saiu há algum tempo. Qual é o seu foco principal?
O livro saiu em dezembro, mas só foi posto à venda em janeiro. Estava a vender comparativamente bem, não era grande coisa, mas pronto. E agora com Covid-19 as vendas pararam completamente. Continuo interessado em vender o livro. Quero publicar mais dois volumes a seguir. Esse primeiro volume que já está publicado e o segundo que está em fase de preparação são os volumes que mais falam de África. Eram textos antigos que eu já tinha escrito da minha segunda estadia em Moçambique – estive duas vezes em Moçambique em períodos longos: estive a primeira vez de 1966 até 1974 e depois voltei em 1997 até 1999. De dezembro a dezembro. Portanto, tem textos dessa segunda fase. É uma experiência que escrevi para partilhar com os outros. Acho que quando nós escrevemos fazemos é para os outros e não para nós.

O que mais destaca dessa experiência?

É uma pergunta interessante. É o mesmo que dizer porque é que escrevo, ou o que queres que as pessoas vejam. Eu penso que há três coisas interessantes nesse livro: uma é o facto disso relatar de eu ter muitas experiências do Burundi e Zaire, que é um período da minha vida absolutamente extraordinário. O livro não é só histórias, é também reflexões sobre a minha estadia no Burundi e em Moçambique. Penso que outra coisa da qual eu gosto e tem apontado muitas vezes é referências literárias: há muitas referências a livros. É uma coisa interessante também interessante para quem gosta de ler ter bastantes referências a livros. E depois a terceira coisa é que eu tenho uma vida que é diferente da maior das pessoas, tem sido uma vida um bocado especial. E essa experiência sobre a minha vida, que não é assim uma vida muito frequente, pode ser que interesse a alguém. Espero que sim.

A África que reflete é uma África que no fundo são várias áfricas dentro de um espaço territorial. Para o caso, estamos a falar de Burundi e Moçambique. Esses países que são retratados no livro são os mesmos países nos dias de hoje?

Não, é óbvio. Só quem nunca esteve em África, ou que só lá esteve de passagem é que pensa que África é um país. África não é um país. África são 56 países e a África subsaariana são quarenta e tal. Portanto, cada país é diferente. Eu não conheço África toda, conheço uma parte de África. Vivi na África do Sul, no sentido de ter estado muito tempo; vivi em Moçambique, no Burundi, no então Zaire, agora chama-se Congo; viajei por toda África Central; viajei por toda África do Sul, estive no Botsuana. Por acaso não viajo em turismo. Mas é óbvio que África é um conjunto de países que são diferentes, da mesma maneira que Portugal é diferente da Noruega, mas estão ambos na Europa. Por outro lado, é evidente que os países também mudam bastante. No caso de Moçambique é uma mudança evidente: passou de uma colónia para um país independente. É uma mudança radical. A África do Sul é outra mudança radical. Com o fim do Apartheid há uma evolução muito grande. E depois nos outros países, em que as mudanças são menos radicais, mesmo assim há mudanças radicais. Por exemplo, no Zaire, o fim do Mobutu foi uma mudança radical para o Zaire. O genocídio no Ruanda foi uma mudança radical para o Ruanda. Portanto, os países não são os mesmos hoje do que eram há 20 ou 30 anos. Mudam, evoluem.

Mas diante do que estamos a viver, qual é a palavra que melhor descreve África da visão que Luís tem nos dias de hoje?
É uma palavra que se calhar não vai ser muito apreciada, mas acho que África é um desperdício de tudo: de dinheiro, de vidas humanas, de se viver, é um desperdício de conhecimento, é um desperdício enorme. Se tivesse que resumir o meu sentimento em relação a África resumir-lhe-ia com essa palavra: desperdício.


O que quer dizer, na verdade?

O escritor e marinheiro Luís Serpa
Vamos começar com o desperdício financeiro. Desde os anos 60 quando ocorreu a maior parte das independências em África, o conjunto dos países africanos recebeu uma soma de dinheiro em ajudas ao desenvolvimento que ninguém sabe bem quanto é que é. Não está quantificado, mas calcula-se que esteja à volta de 3 triliões de dólares. Estamos a falar de 3 triliões de dólares e a pergunta que eu faço é: o que aconteceu a esse dinheiro? Os africanos hoje – refiro-me ao Leste do Zaire, que é provavelmente um dos piores sítios que eu vivi em África – beneficiaram em quê? O que é que esse dinheiro mudou para eles? Aquele dinheiro foi um desperdício. Para os africanos do Leste do Zaire, da Tanzânia, do Quénia um bocadinho menos, é um desperdício de dinheiro, para além de desperdício de vidas humanas – a mortalidade em África é enorme, já não falo do caso de genocídio, que felizmente é um fenómeno, não é uma norma – mas a mortalidade é altíssima, a esperança de vida é muito baixa, as pessoas continuam a morrer de doenças que são perfeitamente tratáveis e que têm cura e há um desperdício de vidas humanas. Há um desperdício que custa ver pessoas a morrer sem razão nenhuma com coisas curáveis. Quando eu estive no Zaire durante a tomada de poder e guerra civil de Mobutu e Kabila pai, eu estava a trabalhar para a Cruz Vermelha nessa altura, portanto, estava no lado governamental, e vinha recuando à medida que as forças governamentais iam recuando com elas e aquilo que se vê, a primeira noção que se tem é de desperdício. Quanto dinheiro e quantas vidas humanas é que foram desperdiçadas na altura naquela guerra? Eu estava no Oeste do Zaire. Nós estimávamos em dois milhões de mortos. Dois milhões de vidas humanas desperdiçadas. Agora já vai em seis milhões. É uma guerra da qual ninguém fala, mas eu penso que devia ser falada. Portanto, há um desperdício enorme de vidas humanas em África, e de saberes. O saber africano é um saber importante.

Este é um problema das lideranças africanas ou há outro por detrás disso tudo e do qual não se fala?

Na minha opinião é um problema das lideranças e penso que não se fala o suficiente. Eu penso que a desculpa do colonialismo e das colónias já deu o que tinha a dar. Os países africanos são independentes há 60 anos e em África 60 anos são duas gerações. Portanto, não se pode continuar a usar a desculpa do colonialismo. Não se pode continuar a usa a desculpa das empresas americanas. Eu acho que os países africanos têm que começar a olhar para si próprios. Eles são responsáveis pela situação dos seus países e mais ninguém. Não são os americanos, não são as multinacionais, não são os colonialistas, são as lideranças africanas que são responsáveis, na minha opinião.

Há vários autores que defendem a necessidade de se acabar com as ajudas para o desenvolvimento, pelo menos, do ponto de vista monetário. Concorda com essa opinião?

Sim, completamente. Há dois tipos de ajuda: há ajuda ao desenvolvimento e humanitária. Acho que a ajuda humanitária, de urgência, deve continuar. A ajuda ao desenvolvimento deve acabar. A maior parte das ONG que estão a trabalhar em África são agências de empregos para jovens ocidentais em busca de aventura. Não estão a mudar radicalmente nada em África. A esse propósito, não sei se conto essa história no livro ou se está incluída na parte do livro, mas é uma história para se ver até que ponto isso chega. Uma vez estava a falar com um governante – não me lembro de que país é que era, mas penso que era de um país francófono, provavelmente, seria ou Zaire ou Burundi. Mas se não tiver sido Zaire ou Burundi, pode ter sido Moçambique, a Tanzânia, ou um dos países os quais viajei e tive contacto com governantes -, e a pessoa com eu estava a falar não era ministro da Saúde desse país. Era equivalente a um secretário de Estado em Portugal. Estávamos a discutir a questão da saúde pública naquele país – nessa altura eu estava a trabalhar para a Cruz Vermelha – e o político disse-me: ´por que eu vou gastar dinheiro quando se tiver problema de saúde, no dia seguinte eu tenho aqui o MSF (Médicos Sem Fronteiras)`. Para mim, acho que isso resume o que a ajuda ao desenvolvimento está a fazer em África. Outra história que eu tenho e que é interessantíssima. Essa eu sei que foi em Moçambique, mas obviamente que não vou dizer com quem estava a falar, mas era com uma pessoa do governo de uma posição relativamente elevada: estávamos a falar sobre o problema da corrupção e eu disse: o problema que tens aqui é que essa burocracia só serve para justificar a corrupção e alimentar os seus funcionários. E ele disse: ´oh Luís, eu sei isso perfeitamente. Mas para eu acabar com a burocracia eu teria que triplicar o salário dos meus funcionários. Eu não tenho dinheiro para triplicar o salário dos meus funcionários, portanto, vamos deixar a coisa assim e o setor privado que nos pague sob forma de corrupção`. É por isso que eu sou à favor do corte de ajuda ao desenvolvimento. Ajuda humanitária não. Eu acho que deve continuar.

África precisa de um novo Mandela?

África beneficiou muito com Mandela. Infelizmente Mandela demorou pouco tempo no poder e não deixou herdeiros políticos. Thabo Mbeki foi uma catástrofe para a África do Sul no desperdício de vidas. Aquela atitude em relação ao Sida, por exemplo, na minha opinião foi uma catástrofe completa. Morreram milhares de sul-africanos porque o Thabo Mbeki pensava que o Sida era uma fantasia. Portanto, eram precisos muito mais Mandelas. Mandela era um homem excecional não em África. Era um homem excecional em todo o mundo fosse branco, negro, amarelo, esquimó, Mandela era um homem grande. Não é fácil de encontrar mas era preciso arranjar mais. É preciso que os países ocidentais forcem (isso). Se há uma coisa que nós devemos saber é que os africanos não são estúpidos. Para mim a pior prova de paternalismo é pensar que os africanos são estúpidos ou crianças. São pessoas inteligentes como nós e toda gente. Portanto, era preciso darmos lugar e forçarmos a mão para que os países africanos comecem a tratar de si e a desenvolver, olhar para os seus povos e acabar com esses desperdícios.

O pós-covid é uma oportunidade para esse reinício, para essa eventual refundação de África?

Eu não sei. Gostaria que fosse, que houvesse um repensar muito grande porque, de facto, vai haver menos dinheiro para ajuda ao desenvolvimento e humanitária. Pode ser que agora os países africanos percebam que é necessário fazer reset, voltar ao ponto de partida, e aproveitar esta falta de dinheiro e pôr os seus países a render sem se vender aos chineses, por exemplo, que é outro dos dramas atuais em toda a África, Moçambique, em particular. Em todo o lado. África está a vender-se aos chineses e talvez devessem aproveitar agora e ver se… Vamos ver. Eu não acredito muito (risos).

“Todas as gerações mudaram estátuas”

Neste momento de Covid-19 assistiu-se muito ao pedido de repatriamento dos nacionais. A chamada fuga de cérebros terá algum destaque nessa eventual necessidade de África olhar para si mesma por causa da falta de dinheiro?

A fuga de cérebros não é um problema tipicamente africano. Nós em Portugal temos isso. Há imensos países europeus e da América do Sul que sofrem do mesmo mal. Mas eu penso que realmente que com esses repatriamentos e, se houver uma vontade de se criar uma vontade e se dizer: vamos pôr a máquina a zero e recomeçar, os cérebros vão voltar. Não é só o dinheiro que motiva as pessoas. Há outras coisas que as motiva. Algumas pessoas são motivas unicamente pelo dinheiro, pronto, essas não voltam, ficam nos países onde estão: na Suécia, Alemanha, Noruega, mas há muita gente que não é motivada só pelo dinheiro. É motivada pela ideia de que está a participar nalguma coisa, numa reconstrução, numa obra grande.

Em 1962/3 quando se criou a União Africana criou-se uma utopia. Neste momento há necessidade de se criar uma nova utopia para África?

A resposta curta é: sim, há. É preciso criar uma nova utopia para África. Acontece que eu tenho uma certa resistência à palavra utopia.

Porquê?

Porque eu não acredito muito em utopias. As utopias quando são postas em prática dão mau resultado. Eu prefiro trabalhar com o real. Costumo dizer que é preciso criar uma nova realidade. Penso que é possível. Creio que mais tarde ou mais cedo os governantes tanto africanos como os ocidentais vão ter coragem de dizer: temos que pôr a máquina a zeros. Visivelmente isso não está a dar resultado. Aquilo que nós temos estado a fazer não está a funcionar, portanto, temos que arranjar outra coisa. Eu penso que sim é preciso uma nova visão. Olhar para as coisas e dizer: precisamos de uma nova coragem, talvez. Espero vivamente que isso apareça.

Tendo trabalhado com a Cruz Vermelha, quer com as Nações Unidas, qual é o papel que a ONU tem nesse repensar do mundo e, sobretudo, de África?

Há bocadinho estava a dizer que as ONG são uma agência de emprego para jovens europeus em busca de trabalho e a minha visão da ONU basicamente é que a ONU é uma agência de emprego não só das elites africanas como de todo o mundo que não fazem rigorosamente nada e não serve. Da parte da ONU que vai para o terreno para ajuda, há duas exceções de agências que são extremamente eficazes: uma é o ACNUR e a outra é o PAM. São verdadeiramente eficazes, sem dúvida nenhuma, porque conseguiram separar a agência de emprego da agência da ajuda. Por exemplo, quando eu estava no ACNUR, no Burundi, havia dos tipos de funcionários: aqueles que trabalhavam, faziam as coisas acontecer, faziam chegar a comida, e outros que estavam lá postos porque eram filhos, cunhados, ou netos do amigo de um político qualquer do seu país de origem. Acho que a ONU tem um papel que é completamente irrelevante na maior parte das situações. Aquilo é uma agência de empregos para as elites. Agora, há realmente uma mudança grande a fazer. Nós vimos agora com este caso da Covid-19 com a OMS, porque a OMS, tecnicamente, é impecável, é boa e útil, sem dúvida nenhuma. O problema da OMS é quando começa a meter-se pela política e a trocar os pés pelas mãos, e a fazer cedências à China. Portanto, a minha opinião sobre a ONU é basicamente essa: tem coisas boas, é fundamentalmente irrelevante e pode-se aproveitar aquilo que tem de bom, deve ser exponenciado. Há coisas muito úteis na ONU, mas em termos de políticas não serve de nada.

Os temas que têm sido levantados, também pela ONU, como as mudanças climáticas, voltarão ao de cima no pós-Covid?

Penso que o tema das mudanças climáticas vem ao de cima porque é um tema do folclore atual, vai ser muito difícil fazer com que ele desapareça. Nós estamos a assistir a uma mudança de paradigma. Eu costumo dizer muitas vezes que não foi por falta de pedras que a Idade da Pedra acabou e não vai ser por falta de petróleo que a idade do petróleo vai acabar. É óbvio que essas mudanças de paradigmas trazem perdas muito grandes para uns, ganhos muito grandes para outros – esses ganhos não são só financeiros, também são políticos -, portanto, o tema das alterações climáticas não vai desaparecer. Confesso que para mim aquilo é um folclore. O clima nunca deixou de mudar. O clima está a mudar desde que existe clima. Não tem nada a ver, ou tem pouco a ver com o Homem. Mesmo que tivesse muito a ver com o Homem é mais caro tentarmos não mudar, é um bocado parecido com Covid-19. Mas penso que esses temas que fazem parte do folclore vão continuar assim que a Covid-19 desaparecer dos radares da imprensa. Não sei quando é que vai ser (risos).

“Os marinheiros são uma espécie de imigrantes muito especiais”

Como é que olha para estas novas tendências de luta que andam por cá e que se notaram mais nessa fase da Covid-19. Há uma narrativa coerente no que diz respeito ao despontar do caso de George Floyd e tudo o resto que se assistiu pelo mundo?

Não, não há. Eu tenho uma opinião que é completamente contrária do mainstream. A narrativa que há não é absolutamente nada coerente. Eu penso que há uma narrativa política por detrás disso. Para começar, uma narrativa anti-capitalista, primeira coisa. A maior parte destes movimentos modernos têm como pano de fundo o anti-capitalismo. Em segundo lugar, há uma problema também de narrativa geracional. Todas as gerações têm as suas bandeiras. A minha geração tinha como bandeira a liberdade sexual. Essa nova geração erigiu o racismo como nova bandeira, mas eu penso ou espero que isso não venha a ter um impacto durável. Ou seja, vão mudar estátuas, mas as estátuas sempre se mudaram. Todas as gerações mudaram estátuas. Não me preocupa rigorosamente nada que mudem estátuas. Preocupa-me muito mais a ignorância que está por detrás de muitas das mudanças de estátua. Por exemplo, alguém vandalizar a estátua do Padre António Vieira em nome do anti-racismo é prova de ignorância. As estátuas sempre caíram. Não é dai que vem grande mal ao mundo. Penso que a grande preocupação é em relação a censura do discurso atual. Eu nasci em 1957. A minha geração e, se calhar, a geração anterior à minha, a dos yippies, que começaram por lutar pela liberdade sexual e lutaram pela liberdade de expressão, nós hoje estamos a ser atacados. Essa liberdade que nos custou muito a atingir durou pouco tempo. Penso que o grande problema da atualidade é a censura, a impossibilidade de se manifestar, de aceitar opiniões diferentes. Há um exemplo que para mim é básico: a palavra negacionista foi criada para definir as pessoas que diziam que os campos de concentração alemã não existiram. As pessoas que diziam que Auschwitz nunca existiu e que tudo era uma invenção dos judeus começaram a ser chamadas negacionistas – penso que até tem uma razão de ser, porque Auschwitz existiu, é facto, a gente sabe, e, portanto, negar isso merecer a criação de um termo específico, porque é realmente negar uma evidência, como dizer que a terra é plana -, mas hoje a palavra negacionista é usada para tudo e alguma coisa. Se és contra a política oficial da Covid-19, então és negacionista; se és contra o discurso oficial sobre as alterações climáticas, tu és negacionista; se tu dizes que a maior parte do racismo que existe nas pessoas não é aquilo que eles dizem então és negacionista. Quer dizer, o termo negacionista está a banalizar-se de uma maneira inaceitável porque a aceitação de discursos diferentes no meio de mainstream está a diminuir. O grande problema da atualidade é o renascimento da censura, do pensamento único. Eu costumo ironizar e dizer que comecei a vida de adolescente a lutar pela liberdade de expressão e vou acabar a minha vida de homem a lutar pela liberdade de expressão e tenho pena disso.

O que teremos aprendido desta situação toda da Covid-19?

Da Covid-19 acho que ainda não aprendemos nada. Muito pouco. Acho que ainda está para sair a verdade. Penso que grandes lições ainda estão para vir. Há duas lições que eu aprendi: afinal, ao contrário do que eu pensava, os “Media” ainda têm muito impacto. Eu não pensava que tivessem tanto. E a segunda coisa que é aterrorizador e que vai no sentido do que eu disse há bocadinho é que as pessoas estão realmente dispostas a dar a sua liberdade. Isso é uma coisa que é assustadora. Essas são as duas lições que tenho de momento e nenhuma delas é positiva, pois é muito triste ver que as pessoas estão dispostas a abdicar da sua liberdade voluntariamente. Até agora foi isso e vamos aprender muito mais.

Essa entrega de direitos de liberdade aos poderes públicos terá sido resultado do medo que se instalou com a Covid-19?

Absolutamente. Isso é um erro que criou essa situação toda. Penso que estamos a viver a primeira histeria global da História. Tem havido histerias coletivas em muitos sítios. As histerias coletivas têm sido bastante estudadas desde a Idade Média, mas que são localizadas, pontuais, quer dizer, são histerias coletivas que estão limitadas a uma aldeia, a uma universidade, a um grupo fechado. Hoje, graças às novas tecnologias, esta é a primeira histeria global da História. A verdade é que o medo hoje é igual ao medo da Idade Média. O Homem não mudou. Eu costumo dizer aos meus filhos – têm 28 e 32 anos (agora já não lhes digo nada, só ouvem quando querem…risos) – que se o Homem tivesse mudado nós hoje não conseguiríamos ler as tragédias gregas. Não perceberíamos nada. A verdade é que lemos as tragédias gregas, lemos os romanos e até inclusivamente da História inicial e nós conseguimos perceber o que lá está. Ou seja, nós identificamo-nos com aqueles textos e isso continua a provar que o Homem não mudou. Então, esse medo (atual) é o mesmo medo (de outrora). Se tu tirares o aspeto técnico do que se passou com a Covid-19 tu podes transpor isso para a Idade Média completamente. Fechar as pessoas em casa, obrigá-las a alguma coisa, isso é Idade Média. Portanto, qualquer dessa ideia da evolução do Homem, do progresso é só pormenores, é marginal, é tecnologia, o facto de termos descoberto uma vacina mais rápida. Hoje sabemos de onde é que vem a Covid-19. Na Idade Média a gente teria dito que é um castigo de Deus. A verdade é que o Homem não mudou. O medo está cá. Faz parte de nós e do nosso sistema evolutivo, digamos.

Esta situação toda ameaça as democracias?

Penso que sim. Completamente. Mas pessoas como eu que acreditam na democracia e que pensam que a democracia é o menos mau dos sistemas, a nossa grande luta vai passar por defender a democracia face à tecnologia, tecnocracia, às pessoas que nos veem dizer que temos que usar máscara na rua porque sim. Isso é realmente um ataque muito grande à democracia, se bem que haja aqui um paradoxo que é muito interessante explorar que é o facto de os governos dizer que fizeram isso por causa das pessoas. No fundo quase que poderíamos dizer que foi uma opção democrática, quer dizer, as pessoas é que forçaram os governos as fazer isso, mas ao mesmo tempo essas mesas pessoas estão a pôr a democracia em risco. E há aqui um paradoxo que a meu ver tem que ser estudado, explorado e aprofundado. Mas de momento, para mim, o aspeto fundamental é realmente a democracia estar a passar por um mau período e ter que ser defendido.

“Gostaria de ter um programa de rádio ao longo da volta ao mundo”

Precisamos de voltar para a primeira avenida à busca da liberdade?

Absolutamente, acho que sim. Temos que voltar à busca da liberdade simples, aquela liberdade primitiva pela qual eu lutei quando tinha 15 anos, que era de ler o que eu queria. A minha luta não era muito política, era sobretudo cultural: ler o que eu queria, fazer amor aos 15 anos, claro que todos nós queria fazer amor aos 15 anos, não estar sujeito aos tabus e às coisas das pequenas tempestades; e hoje nós temos que voltar a essa luta pela simples liberdade de eu puder não andar na rua com máscara porque não está provado que a máscara sirva para qualquer coisa. Havia um autor que dizia que há grande vantagem das sociedades ocidentais e liberdade do individuo face à sociedade. Numa tribo da Amazónia, ou numa tribo africana do centro de África não tens liberdade nenhuma face à tua sociedade. O meio envolvente tem muito peso. Para saíres do peso da tua sociedade da Amazónia, em alguns sítios de África, ou na Ásia tens que sair da tribo completamente. Não podes ser livre e manteres-te dentro da tribo como nós podemos na sociedade ocidental. E eu penso que hoje há essa luta pela liberdade dentro da nossa tribo – refiro-me à sociedade ocidental. Temos que reatar essa luta pela liberdade do indivíduo face à sociedade, uma luta que nós pensávamos que estava ganha. Nós os democratas, os liberais, os individualistas pensávamos que isso era uma luta que estava ganha e a Covid-19 é que veio demonstrar que não, não está ganha. Temos que recomeçar.

E nesse recomeço, de onde partirá a viagem do marinheiro Luís Serpa para a terceira fase do livro em busca da liberdade?

Eu vou fazer uma viagem à volta do mundo e vai haver um livro sobre essa viagem. A minha viagem intelectual vai partir disso. Vai recomeçar com essa luta que eu quero levar para frente e já estou a dar os primeiros passos. Aliás, está muito embriónica, mas já estou a dar os primeiros passos. Eu vou viajar à volta do mundo e tenho uma sorte muito grande: é que vou viajar com olhos diferentes daqueles que quando tinha 20 anos. A minha primeira volta ao mundo começou aos 19 anos. Agora vai ser a segunda e vai ser outra coisa. O olhar vai ser completamente diferente. Penso que vai ser mais rica e mais interessante.

Quanto tempo pensa levar a dar a volta ao mundo e em quanto tempo pensa em nos trazer o livro?

Estou a prever 4 a 5 anos. Eu não vou estar sempre a bordo. Vou alternar com outro skipper(Capitão de uma embarcação). Vamos fazer aproximadamente quatro meses cada um e vai ser uma volta ao mundo bastante interessante porque vamos parar em todos os sítios digamos dos mais interessantes do planeta: Patagónia, nas Caraíbas, nas Galápagos, Ilhas do Pacífico… Enfim… Vai ser interessante e, espero, enriquecedora do ponto do vista cultural. Do ponto de vista financeiro, ninguém enriquece com a vela (risos), mas culturalmente e a experiência de vida vai ser bastante boa.

E quanto depois teremos o livro escrito?

Não sei como vou fazer isso ainda. Devo dizer que para mim escrever é uma complicação muito grande. Eu escrevo o que tenho que escrever, mas não é fácil. É uma pedra que tem que sair e vai demorar. Mas eu gostava que fosse mais ou menos simultâneo, quer dizer, que acabasse a volta ao mundo e cinco ou seis meses depois o livro estivesse cá fora.

Este exercício poderá passar novamente pelo blog?

Sim, vai passar de novo pelo blog, que para mim é uma necessidade absoluta. Eu quando passo algum tempo sem escrever dói-me. Há uma coisa qualquer dentro de mim que me incomoda. Portanto, o blog vai continuar. Por outro lado, também gostaria de ter um programa de rádio ao longo da volta ao mundo. Estou a trabalhar um bocadinho nisso. Estou a ver se arranjo um parceiro para isso. A ideia é essa: escrever, falar na rádio, ir entrevistando pessoas e manter o blog, porque é uma necessidade. Eu preciso do blog como preciso de respirar basicamente.

Já tem uma data para o reinício dessas viagens?

Sim, vai ser em outubro. Isso está praticamente garantido. Havia aquela piada sobre os comboios espanhóis: sabemos quando saem, mas não sabemos quando chegam. Na vela nós não sabemos quando saímos e não sabemos quando chegamos. Mas em princípio em outubro penso que saímos daqui do Mediterrâneo, depois vamos para as Canárias. Passamos um mês nas Canárias, depois Caraíbas, onde passo a época toda até maio. Em maio desço a Costa Brasileira toda até chegar à Patagónia, onde vou ficar dois ou três meses, depois subo para uma ilha muito interessante chamada ilha de Chiloé (ao largo da costa do Chile), que dizem que é muito apaixonante. Eu nunca lá estive. Depois vamos para as Galápagos e das Galápagos fazemos as ilhas do Pacífico sul, depois vamos para a Nova Zelândia, Austrália… Em outubro estamos a largar para isso.

Qual é palavra que melhor define um marinheiro, dentro do conceito de mobilidade: migrante, refugiado…?

Eu penso que a palavra que melhor define um marinheiro, pelo menos, a mim me define perfeitamente é: um marinheiro é a confluência de todos os opostos. Nós somos tudo e seu contrário. Somos as pessoas mais corajosas do mundo, mas ao mesmo tempo temos medo de tudo. E temos que ter medo, porque se não tivermos medo somos idiotas. Ter medo não é sinal de cobardia. Ter medo é sinal de bom senso. E nós somos isso tudo: somos os mais individualistas do mundo e somos os mais tribalistas do mundo, uma tripulação para mim é uma tribo. Ao mesmo tempo somos extraordinariamente corajosos porque acreditamos em nós, mas sabemos que estamos a lutar com um adversários que é milhões de vezes superior a nós em tudo. Nós somos extremamente pontuais sempre, mas ao mesmo tempo sabemos que não temos tempo para dar atenção ao tempo. Normalmente, eu nem sei quando é que parto, muito menos quando é que vou chegar.

Um marinheiro é um imigrante especial?

Sim, é imigrante muito especial porque nós somos viajamos em trabalho. Não viajamos por turismo. Se contar a quantidade de viagem por turismo são pouquíssimas. É raríssimo eu viajar em turismo. E como todos os imigrantes nós vamos a um sítio para trabalhar, só que ao contrário dos imigrantes ficamos pouco tempo. Mas sim, somos uns imigrantes muito especiais. Temos que nos integrar e aprender muito rapidamente no sítio onde estamos e, sobretudo, temos que descobrir as pessoas. Temos que ter um tacto especial para as pessoas, tal como um imigrante, que quando chega a um país tem que saber com quem está a falar. E nós somos assim: uma espécie de imigrantes muito especiais e talvez seja por isso que eu gosto tanto de imigrantes. (MM)

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