Dia Mundial da Fotografia: “Hoje em dia, toda a gente precisa da imagem” – Henrique Timóteo

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Henrique Timóteo, fotógrafo e videógrafo

Sona Fati
(Consultora de Imagem e Formadora)
Celebra-se hoje o Dia Mundial da Fotografia. Para assinalar a data, reproduzimos uma conversa entre o fotógrafo e videógrafo Henrique Timóteo e a Consultora de Imagem Sona Fati, no âmbito de uma parceria com o jornal É@GORA.

Vocês trabalham em prol da imagem dos outros e raramente aparecem. Eu sou muito fã dos fotógrafos e acho que o vosso trabalho é importantíssimo. Sê muito bem-vindo. Gostava que te apresentasses, dissesse às pessoas quem tu és.

Desde já obrigado pelo convite. Olá, o meu nome é Henrique Timóteo e sou fotógrafo e videógrafo, há pouco tempo. Neste caso ainda sou um bebé como profissional. Estou só há um ano e meio. Temos de fazer escolhas e a vida encaminhou-me para fotografar imóveis. É onde estou a fazer mais de 90% de tempo: a fotografar e filmar porque andam muito em paralelo uma coisa com a outra. E é na fotografia de imóveis que encontrei a minha zona de conforto. Sabendo as técnicas principais da fotografia e do vídeo adapto-me a qualquer situação.

Henrique, tu falaste de fotógrafo e videógrafo. Qual é a diferença entre um e outro?

O fotógrafo faz as fotos para promover um imóvel ou um evento, assim como o vídeo. O vídeo é a continuação do que a imagem não mostra. Uma imagem vale mais do que mil palavras, e o vídeo vale muito mais. A fotografia é estática, e as pessoas querem ver mais. E quando querem ver mais, chamam-me para mostrar mais, que é a continuação da imagem.

O estático da fotografia sempre fez parte da Humanidade, sempre gostamos da fotografia para eternizar momentos e memórias…

Eu vejo muitas fotografias sem ter máquina. Ou seja, estou a ver a foto e ela existe. Está na minha cabeça.

Exatamente. É sempre aquele momento do registo que, no teu caso como fotógrafo é a necessidade de registar aquele momento. Hoje em dia, com o culto da imagem há uma necessidade tremenda. A fotografia ganhou um poder inimaginável. E aqui falo da fotografia profissional e da amadora quando agarramos nos telemóveis. Na minha opinião, cada vez mais as pessoas preferem a fotografia de um profissional pelo trato e enquadramento que tem. Como é que vês a profissão de fotógrafo no mercado?

Com o confinamento mudou muita coisa, radicalmente. Muitos fotógrafos ficaram sem trabalho. No meu caso mudou radicalmente para o lado do bem porque as agências se viram obrigadas a mostrar tudo online e recorrem aos fotógrafos profissionais para mostrar o seu produto. Neste caso o vídeo também disparou porque querem mostrar os imóveis por dentro, com movimento, sem ter de levar as pessoas ao local por causa da pandemia.

Em algum das nossas vidas, toda a gente precisa de um fotógrafo profissional.

Exato.

Uma agência não se podia dar ao luxo de um trabalho amador. Precisa de um trabalho como deve ser. No teu caso em concreto, o que é que te levou a optar pelas duas coisas? É por paixão ou trabalho?

Eu juntava ainda mais uma, que é a edição. Adoro. A minha paixão é fotografar, fazer vídeo e editar. Sou feliz porque tenho essas três situações.

Tu disseste que o tempo acabou por te levar a fotografar imóveis, mas não fotografas só imóveis…

Não. Agora vão regressar aos casamentos. Em 2020 tinha seis ou sete casamentos marcados para fotografar e foi tudo cancelado. Agora já estão a marcar novas datas. E a moda. Também à espera de convites para fotografar moda, que gosto muito.

Por nos termos conhecido no Afro Fashion Week, vi a tua performance, o teu trabalho e a forma de estar com o cliente. Isso tudo conta. O comportamento não é só ser um excelente profissional, é todo o pacote.

Toda uma dedicação e acompanhamento. Se ensinar uma técnica a alguém não me roubam o trabalho porque cada pessoa tem uma personalidade, e isso marca a imagem de um fotógrafo. Não basta só saber fotografar, fazer vídeo e tudo o resto.

E é tudo o resto que acaba por definir a escolha de um profissional ou por outro. Foi por isso que te escolhi para captares o lançamento do meu livro, que será um marco na minha vida. Mas para além disso, que outros trabalhos estão no teu portfólio?

Agora é mais ou imóveis, a moda, casamentos e batizados. Antes de começar profissionalmente fazia muitos passeios de todo o terreno, como as BTT’s, vídeo, entrevistas com voz off.

Sem querer personalizar, como é que foi o lançamento do meu livro? Foi o primeiro evento desse género que fizeste? Eu acho que é um trabalho um pouco mais ingrato do que os imóveis porque tu é que crias o cenário, sabe o que vai ser captado. Ou na moda, quando sabes qual é o alinhamento de tudo e o que é importante. Mas no lançamento de um livro há várias coisas a acontecer. Como é que coordenas isso tudo?

Por acaso já tinha feito dois lançamentos de livros, do género do teu. Mas é a tal situação que estás a falar. Acontece tudo muito de repente e de forma inesperada. Eu sai de lá esgotado psicologicamente [risos]. É um desafio muito interessante porque o fotógrafo tem de estar um passo à frente. Tenho de olhar para todos os lados e estar a prever os movimentos das pessoas. Fazer isso durante várias horas para ter boas fotos, psicologicamente estava a mil à hora. Mas correu bem. Quando o convidado pede como quer as fotos também é uma aprendizagem para mim.

Eu adoro ser fotografada. Quando somos empreendedores e trabalhamos por conta própria e com serviços o nosso espaço físico é o digital. E é a imagem que nos salva.

Hoje em dia, toda a gente precisa da imagem. Há marketing digital que é por palavras e por grafismos, e as fotos e os vídeos complementam isso.

A interação entre o fotógrafo e o modelo, é meio caminho andado para um trabalho fantástico. Achas que a interação com as pessoas determina a qualidade do teu trabalho?

Sim. Por exemplo em festas de aniversários. Quando vou fotografar pessoas que não conheço elas olham e posam para um desconhecido. Às vezes dou a máquina a uma criança e a pose do fotografado é completamente diferente. É a tal empatia entre os dois. Quando vamos fotografar moda a empatia entre o modelo e o fotógrafo é muito importante. A conversa antes de começar a fazer as fotos é muito importante para depois se soltar aquele sorriso agradável.

O lançamento do livro foi a segunda vez que me fotografaste. Mas tenho a certeza que na terceira ou quarta vez já sabes pormenores de mim e as exigências da minha marca e isso também facilita muito o trabalho entre o fotografado e o fotógrafo.

Adoro quando exigem. É um workshop gratuito [risos]. Adoro quando dizem o que o cliente quer. Agora quando dizem “Está bom”, isso não me diz nada. Quando dizem; “Eu gosto desta foto porque a luminosidade estava assim e assado”, vejo e da próxima vez vou fazer igual ou melhor. Quando dizem “Brutal”, é um elogio, mas a mim não me diz nada.

Eu lembro-me quando elogio o teu trabalho começava logo a acrescentar características. E tu gostavas disso no sentido em que tu sabias o motivo pelo qual eu estava a dizer que tinha gostado das fotografias.

Assim como tu que queres aparecer nas fotos, há muitas pessoas que são o contrário. E isso tem a ver com a autoestima da pessoa, principalmente as pessoas mais fortes. Seja qual for o peso toda a gente tem uma parte bonita e o fotógrafo tem de saber ver.

Quando assim é, como é que interages e ajudas para que eles se sintam bem e para que a imagem saia bem?

Esta semana fotografei um grupo de dez consultores. Há uns que têm uma grande autoestima e a foto sai à primeira. E há outros que é mais difícil. Quando é assim, no início da sessão fotográfica estou atento a quem é o mais divertido do grupo e vou logo ter com ele. Depois a pessoa que está com a autoestima mais em baixo vai ser animada pelo elemento mais divertido. Porque vai ser fotografado por um desconhecido e vai ter de fazer aquela pose mais profissional. Mas se tiver a sorrir para um amigo, já sai um sorriso espontâneo. Para os gordinhos temos de procurar aquela pose mais profissional e que saia mais magra.

Acho que és muito focado no teu trabalho, és muito objetivo e vais tão preocupado para que o resultado final seja bom, que a forma como envolves as pessoas para entrarem na onda contigo, acaba por ser muito natural e muito fácil.

Mas eu vou super nervoso. Hoje fui fotografar casas. Elas estão ali paradinhas e eu estava super nervoso. Assim que chego ao local aquilo transforma-se em adrenalina e passa tudo. Quando vou fotografar pareço aquelas crianças que dizem “Paizinho, só mais uma volta” e voltou a fotografar [risos]. É um gosto fotografar.

Essa espontaneidade daquilo que é a aceitação do cliente, a exigência do cliente varia consoante a pessoa, evento e tema contribuiu para cresceres como profissional?

Sim. A imagem de cada pessoa vende, seja a interior como a exterior. Eu preocupo-me com a imagem exterior, a interior ou já está lá ou não está. Se está o cliente gosta, se não está não vale a pena porque não funciona com 2% ou 3% dos clientes.

A bondade que transpareces é natural e não é inventada. O Henrique profissional que eu conheço e as pessoas que conheço que já trabalharam contigo dizem-me sempre isso.

Essa é a tal situação. O meu natural é ser assim, e conseguimos lidar com as situações. Quando não se é assim, não se é [risos].

Boa parte do teu dia-a-dia não é fotografar pessoas. Portanto não há emoções, não há troca de impressões, uma marca associada…

Tudo isso que disseste há numa casa. Existe a alma da casa. As fotos que ponho são a alma da casa, e nem todas as casas têm uma alma. Assim que entro numa casa ando sempre à procura da emoção e da alma. Fotografo três a quatro casas por dia e as varandas são muito utilizadas. Têm garrafas e outras coisas na varanda e sente-se que ali existiu uma história. A nossa sensibilidade tem de conseguir ver isso para captar a essência da casa. Às vezes estou na sala e digo: “Esta sala tem de conversar comigo para fazer esta foto”. Ando às voltas com a luz para saber como vou fazer aquela foto. E às vezes saio sem conseguir ver a alma da casa. Mas essas emoções que estavas a dizer também existem num imóvel e temos de conseguir ver isso para depois passar a mensagem do potencial da casa. Assim como uma pessoa.

Para mim, a tua conversa é poética. É superinteressante. Muitas vezes há profissionais em que o dia-a-dia não é composto por fotografar pessoas. Para nós que não somos da área ficamos sempre com aquela sensação de que é um mito os espaços não terem alma. Mas se pensarmos bem, uma casa tem alma porque tem história…

Pode ser uma casa acabada de construir, mas pode ter a alma que o arquiteto quis que ela tivesse. Uma fachada linda, uma peça de arquitetura com um sombreado no interior, uma escadaria em caracol com a luminosidade a entrar no sítio certo, isso é a alma que o arquiteto quis que a alma tivesse. O fotógrafo tem de estar adaptado a todas as situações. Há um fotógrafo de automóveis – é o Vasco Estrelato – que diz: “Eu sou fotógrafo e ganho a fotografar carros, mas gosto é de fotografia”. E eu sou igual, mas com casas. Gosto é de fotografar. Quando vejo arte naquilo que fotografo é dar continuidade.

Isto é a liberdade da tua profissão sem colocar limites, condicionantes, dogmas, preconceitos. E um grande profissional faz-se na liberdade. Liberdade que o próprio cria para si respeitando sempre os outros.

Eu já tive duas situações, em que estava em dois grupos diferentes, e estava a ser limitado. Ou seja, só queriam que eu fosse o videógrafo. Mas uma coisa complementa a outra, na minha forma de ser. E como estava a ser limitado decidi abandonar aquele grupo. Eu tenho três paixões: fotografia, vídeo e edição. Quando me limitam a uma, estão a cortar-me as asas. Essas três coisas fazem-me crescer como fotógrafo e videógrafo.

Compreendo. Quem disser que só posso ser consultora de imagem, só posso ser formadora de comunicação ou que só posso dar aulas de gestão?! Não funciona. Se tenho competência…

Embora só sejam fotógrafo profissional há um ano, andei muitos anos a estudar para agora ser profissional. A nossa aprendizagem é tão vasta que depois [aparece] alguém que nos queira limitar.
É ingrato. E não podemos estar de acordo com isso. Temos de continuar a desenvolver e a estudar muito todos os dias para termos novas valências e capacidades.

Em Portugal não temos a cultura e o hábito de juntar valências e artes que à partida poderiam ser improváveis…

[Pois], A polivalência é mal vista. É aquele sinónimo de ‘queres fazer tudo e não fazes nada de jeito’. Fica logo queimado. Estavam a tentar por-me isto na cabeça [dizendo] ‘tens de te focar em ser fotógrafo só daquilo’. Não. Estavam a limitar-me muito. Sou fotógrafo, videógrafo e editógrafo se assim se puder chamar [risos].

Compreendo o que estás a dizer. De ser multifacetado, de potenciar o valor que temos. Não estamos a falar de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Estamos a falar de três competências e as pessoas já acham muito. Mas acho que essa cultura é capaz de mudar. Com a necessidade das redes sociais e de termos de nos reinventar.

Disseste uma coisa muito importante e serve de exemplo para muita gente. Numa live disseste que não podíamos parar. Na pandemia [muitos acham que] estão parados, mas não estão. Estão a magicar algo para depois quando tudo arrancar, arrancarem logo em alta. E tem de ser mesmo assim: não podemos ficar a chorar. Temos que nos reinventar para que, quando tudo abrir sairmos em alta.

Claro! Com a pandemia parece que ficamos todos aqui, mas há quem esteja a trabalhar. E quando a pandemia terminar, quem tiver melhor posicionado vai para a frente. Os outros não ficam para trás, têm é de se preparar para retomarem a caminhada.

Depois vão agarrados a quem dispara a alta velocidade porque precisam de trabalhar em conjunto. Quem sai primeiro acaba por trazer os outros agarrados, tem de ser assim e faz parte para que a roda comece a rolar. Mas tenho de começar já a estudar, a pensar coisas novas para evoluir e marcar a diferença.

A evolução também pede que tenhamos uma mente aberta e despreconceituosa.
Ou existe preconceito e às vezes disfarça-se, ou não existe preconceito nenhum e evolui-se facilmente. Quando há preconceito qualquer coisa é um entrave.

Sim, compreendo isso. Às vezes há tanto preconceito. As pessoas fingem que não se conhecem, mas depois chega um ponto em que a verdade vem ao de cima e as pessoas autossabotam-se por esse tipo de sensações e pensamentos. O mundo é tão vasto, diverso e plural.

Ao contrário do que metem na cabeça é um mundo de muita abundância. É metido na cabeça de toda a gente que isto é limitado e tens de ter cuidado. Há trabalho para todos, [só] é preciso, é estudar para avançar.

E termos o nosso nicho no sentido de quem se identifica com a nossa performance de trabalho.

Exato, e isso faz parte de uma aprendizagem e de conhecimento. Para os clientes gostarem de nós e ficarem, também existe aqueles que não gostam e acabam por ficar pelo caminho.

E se forçarmos um cliente a ficar, ele nunca vai ser nosso ‘de coração’.

Apareciam clientes a perguntar o preço e eu pensava que ia ter mais um cliente. Depois dava o preço, ele não ficava e pensava “já perdi mais um cliente”. Mas hão de vir outros.

Que conselhos darias a um jovem que queira ser fotógrafo?

Diria para avançar, estudar muito as técnicas. São uma mais-valia e ferramentas para avançar. E muita persistência para conseguir encarar um ‘não’ como um ‘sim’ para continuar e ir à luta, foi isso que fiz. Comecei a ganhar clientes por causa disso, não ligavas aos ‘nãos’. Siga bater a outra porta. Mas agora é mais o ‘passa a palavra’ entre os clientes.

Acho que é das melhores formas de credibilização do nosso trabalho.
Sim. E esse jovem que trabalhe muito, estude muito para ter bagagem para continuar. (X)

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