Dia Mundial do Refugiado – Os desafios de quem recomeça a sonhar

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ONU fala de mais de 70 milhões de refugiados e deslocados internos, o dobro do que era há 20 anos.

Manuel Matola

O percurso de vida de Alexander (Dennis) Kpatue Kweh, que se tornou refugiado aos 10 anos, é um dos motivos porque a ONU comemora hoje o Dia Mundial do Refugiado, também celebrado em Portugal, onde o liberiano reside há 14 anos, depois de literalmente atravessar o deserto de Sahara a fugir de uma guerra na Libéria que mudou a sua vida para sempre.

Quando nos anos 90, aquele país da África Ocidental foi assolado por um dos mais sangrentos conflitos armados protagonizados pelos senhores da guerra na Libéria, a família de Alexander teve que fugir porque a sua tribo era procurada pelos rebeldes que cometiam atrocidades mesmo na capital Monróvia em sucessivos conflitos que terminaram em 2003.

E “o medo de represálias durante a fuga, fê-los mudar de nome”, adotando o apelido Dennis, outro nome da família. Foi a única forma encontrada para tentarem chegar sãos à Costa de Marfim onde residiam outros familiares. Como o acesso para aquele país vizinho estava bloqueado, o clã Dennis decide então rumar para Serra Leoa, conta Filipa Palminha na obra intitulada “Assim Começa”, que retrata Histórias de vida de dois refugiados que hoje vivem em Portugal: Alexander (Dennis) Kpatue Kweh e Amadou Dialou, este último natural da Costa de Marfim.

O enredo da vida de ambos difere somente na forma como a dor por que cada um passou é relatada no livro, mas o nível de violência que testemunharam nas guerras distintas remete-os para igual sofrimento.

Até aos 10 anos, Alexander era uma criança com uma vida normal na Libéria, pois o pai era diretor do sistema de frio numa Mina, na Bong Mines, onde viviam, lê-se na obra. Mas, um dia, a família Dennis teve que se pôr em fuga, fruto de “divisões tribais a egoístas controvérsias políticas” que levaram novamente o país a uma guerra civil, tal como Alexander relatou mais tarde num poema da sua autoria com o título “Mais uma vez”, inserido no livro “Assim Começa”.

“A guerra vinha atrás. Ia fechando o caminho atrás”, lembra Alexander, que hoje tem inesperadamente cidadania portuguesa, graças ao apoio do Alto Comissariado da ONU para os Refugiado (ACNUR) em Marrocos que escolheu um dos dois desfechos possíveis para o jovem: o repatriamento deste para a Libéria ou acolhimento num país terceiro. Calhou Portugal.

Mas a vinda a Portugal foi das mais longas esperas na vida de Alexander. A verdadeira batalha começou com a saída da família para Serra Leoa, que, debaixo do fogo, se dividiu em pequenos grupos “para que a movimentação fosse mais fácil”. Para trás ficou a avó com dificuldades de locomoção, típico da idade, e uma tia para cuidar da idosa. Ambas foram acolhidas por uma Igreja.

Alexander partiu para o território costa-marfinense, para onde atravessou numa pequena embarcação. No seu país de origem deixou um rasto de destruição, sofrimento e morte, como a do “senhor que conduziu a canoa” e que, “quando voltou para trás, foi morto”, diz a investigadora Filipa Palminha na obra em que narra todo o percurso do refugiado até Lisboa: “Durante um ano (os Dennis) percorrem em fuga o caminho que os havia de levar à família na Costa do Marfim”.

FOTO: Massimo Sestini ©
E conseguiram, pois “da Serra Leoa partem para a Guiné Conacri e daí para a sua terra de acolhimento. A família instala-se finalmente em segurança na Costa de Marfim e Alexandre prossegue os estudos até ao final do secundário. A vida decorre” e este posteriormente escala Marrocos.

Foi aqui onde reinicia o sonho de um dia se formar e ser alguém, pelo que traçou um “único obetivo: prosseguir os estudos em arquitetura e gestão”. Debalde, porque “a sua vida é interrompida por uma voz da prisão” na cidade marroquina de Casablanca.

No dia em que foi detido, um domingo, Alexander não se apercebeu que não se tratava de qualquer detenção. As autoridades marroquinas estavam, na verdade, a efetuar uma rusga a cidadãos de outros países africanos que mesmo gozando de estatuto de refugiado no território foram todos conduzidos à fronteira entre Argélia e Marrocos perto de Oudja.

Ou seja, as pessoas apanhadas nessa operação “foram encaminhadas para locais periféricos face aos principais centros urbanos do pais”, assegura autora lembrando que Alexander estima em milhares de africanos naquela situação.

E “este foi o primeiro transporte de uma viagem com várias etapas. Assim começa a ser vivida a vida do refugiado Alexander. De Casablanca para o deserto”, assinala a autora.

A intenção das autoridades marroquinas foi calculada: afastar os refugiados para o interior dos acessos que permitissem qualquer tentativa de chegar as principais cidades marroquinas ou a ter “acesso à Europa”.

“Uma vez colocados em situação extrema, muito distantes das suas cidades de acolhimento (como Casablanca, por exemplo), a opção passa por fazer o retorno. Percorrer o deserto para regressar”, refere Filipa Palminho, secundada por Alexander: “Nós tínhamos que fazer junto ao rio e encontrar uma localidade a cerca de 15 a 20 quilómetros. Não tínhamos água e precisávamos encher as garrafas de plástico, mas a água do rio muito, muito salgada”.

Alexander (Dennis) Kpatue Kweh. Foto retirada no Facebook
Após quilómetros de caminhada e alcançada uma região habitada, houve quem tivesse socorrido Alexander e seus companheiros com mantimentos para vencer uma luta que também começava a ser tema de preocupação dos “media” e das organizações dos direitos humanos que passaram a fazer rastreio, via área, dos grupos que eram abandonados em lugares inóspitos em pleno deserto. A ação foi um sucesso.

“Exatamente dois meses depois de tudo começar, a 2 de dezembro de 2005, começa alinhavar-se a próxima história de vida de Alexander: a história de vinda a portugal, para ser português, de acolhimento”, resume a autora do livro que relata a vida do liberiano que, por sua vez assinala:

“Fomos para o deserto como clandestinos e chegámos como pessoas triunfantes”, diz Alexander, que após voltar a gozar a condição de refugiado foi conduzido pelo ACNUR até Portugal onde “nunca tinha pensado vir”.

Aos 40 anos, Alexander Kpatue Kweh é hoje coordenador do Fórum Refúgio, um projecto da União de Refugiados em Portugal, onde integrou o primeiro grupo de 12 pessoas refugiadas acolhidas pelo Estado português, em 2006.

E no Dia Mundial do Refugiado, o Conselho Português para os Refugiados (CPR) estima que, só este ano, cerca de 500 estrangeiros pediram proteção, depois de no ano passado a instituição registar 1.716 solicitações pedido nesse sentido, mais 44% do que em 2018. (MM)

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